setembro 11, 2004

Morte e Salvação (I)

Entre o início de 1997 e o início de 1998, passou-se muita coisa. É exactamente nesse periodo que escrevo a "Morte e Salvação". Um ano atribulado com muitas alegrias e tristezas. Depois do "ano louco" de 1997 (até Setembro) era óbvio que viria a "ressaca" e do final de 1997 até meados de 1998 foi um período de grande angústia, onde o tempo passava devagar, não havia luzes ao fundo do horizonte, não havia certezas em relação ao futuro. Este "alto e baixo" veio influenciar radicalmente este conto.
Este conto marca definitivamente o meu estilo. Finalmente, após algumas tentativas, consegui chegar ao ponto que queria, atingi o meu objectivo. É sem dúvida alguma um dos textos mais importantes da minha obra, o mais marcante, o mais feroz, o mais violento, o mais raivoso, o mais sofredor e, sim, o mais suicida...
Acho que o prólogo e, principalmente, o epílogo transmitem tudo sobre o conto e fazem a sua própria reflexão, por isso escuso de me estar aqui a repetir.


Prólogo

Este conto deve ser visto como uma série de contos ligados por um fio lógico, que é a vida de William. Ou como uma recordação de coisas passadas, vividas intensamente, e das quais jamais esquecera-mos, mesmo depois da morte.
Este conto teve como primeiro título Morbidez, título que ainda consta na disquete, devido a toda a história ser macabra e mórbida. Mas depressa abandonei este título, alterando-o para Morte e Ressurreição, mas com a continuidade da história decidi mudar para o título actual.
Título este que se pode ler de duas maneiras: Morte e Salvação ou Morte é Salvação.
Durante a realização deste conto, fui mudando muito, quer na maneira de pensar, quer na de agir, o que veio modificar o rumo da história.
Esta história é, fundamentalmente, uma grande reflexão sobre a morte, e sobre a sua ligação eterna com o ser humano. Sei que esta reflexão e esta maneira de ver a Morte pode levantar grandes dúvidas e grandes polémicas, mas retracta o meu ponto de vista sobre o homem e sobre a Morte.

Porto 6 de Março de 1998

setembro 08, 2004

Balanço 1997

Reflexão sobre, talvez, o ano mais importante da minha vida. Acho interessante chegarmos ao final do ano e fazermos uma pequena reflexão sobre o que se passou nesse mesmo ano. Tenho pena de nunca mais o ter feito, ou pelo menos de o deixar escrito.
Gostava de voltar a sentir a energia que senti neste ano. Gostava de voltar a sentir as coisas daquela maneira. Gostava de deixar de ser péssimista e ser "inocentemente" feliz. Aliás, se eu pudesse, tinha congelado o tempo naquela altura, pelo menos antes da morte do meu avô!
Balanço do ano de 1997

Com eu digo, várias vezes, a vida é difícil de compreender. Acontece sempre alguma coisa que no deixa ou perplexos, ou contentes.
Agora dizer que um ano onde aconteceram alguns desastres, foi um ano bom, talvez o melhor da minha vida, pode parecer estúpido. Mas não é, estúpido é este mundo e a humanidade que o governa.
Este foi um ano que ficará sempre e para sempre no meu coração!
Foi um ano em que consegui realizar a maior parte dos meus desejos e durante o qual aconteceram-me as coisas mais fantásticas.
Um ano em que consegui finalmente criar, juntamente com alguns colegas, um mini-cineclube. Se bem que esse cineclube provocasse algumas dúvidas em relação à suas estrutura. Esse cineclube teve desde o princípio vários problemas, o maior deles todos foi a falta de espectadores. Problemas esse que só conseguimos vencer na recta final, quando já nos declarávamos vencidos e que, perante a ideia de uma professora e o empenhamento de alguns alunos, incluindo eu, conseguimos fazer duas últimas sessões com lotação quase esgotada.
Foi um ano em que conseguimos publicar uma revista multimédia, de seu nome CA2, que provocou algumas reacções na imprensa pública.
Foi, também, um ano em que fiz uma viagem paradisíaca a Paris, onde ficaram para sempre na minha memória uma Marlene, uma Filipa, uma Ana, uma Dália Dias e todas as outras pessoas que partilharam comigo aquele momento. Viagem esta que me mostrou, além da linda cidade que é Paris, que a vida às vezes, e só às vezes, tem momentos belos. Para mim, “Eles terão sempre Paris” (In Casablanca de Michael Curtiz), tal como Rick (Humphrey Bogart) e Ilsa (Ingrid Bergman), viveram momentos inesquecíveis em Paris, também eu os vivi no mesmo local.
Foi, igualmente, um ano em que fiz uma viagem alucinante a Évora, onde ficaram para sempre na minha memória um Freitas, um Rui Almeida, uma Dália Dias (mais uma vez), uma Patrícia e uma Bárbara, estas últimas que tiveram, também, o prazer de partilhar comigo a paradisíaca viagem a Paris. Foi nesta viagem que descobri que não vale a pena ficar parado à espera da morte, e que vale a pena viver a vida, mas vivê-la com intensidade, e que por mais dissabores e desgostos que ela traga, devemos procurar passar por cima, ultrapassá-los, porque afinal a vida é boa e vale a pena vivê-la.
Foi, mais uma vez, um ano em que finalmente consegui ouvir de uma professora que era o melhor aluno da turma, e que consegui comprová-lo. Foi um ano em que consegui provar, e descobrir, que não era burro nenhum e que conseguia ser superior a outros. Foi um ano em que dei uma lição de moral aos meus colegas, mostrando-lhes que a visão que eles tinham da vida e do futuro estava errada.
Foi um ano onde fiz uma grande viagem pela Europa, onde ficaram na minha memória uma Veneza fantástica, uma Florença assombrosamente espectacular, uma Verona por descobrir e uma Barcelona absolutamente alucinante. Foi, também, nessa viagem que descobri o quão chatos são os meus pais, tanto a mãe, que eu já conhecia essa faceta, como o pai, o qual me surpreendeu, pois nunca pensei que ele conseguisse ser mais chato que a minha mãe, coisa difícil de se concretizar.
Foi um ano em que eu tive algumas aventuras e desventuras. Algumas aventuras que se calhar gostaria que tivessem sido algo mais de concreto, outras as quais não me importei que fossem só aventuras.
Mas, principalmente, em primeiro lugar, em primeiríssimo lugar, muito acima das coisas que já foram descritas, este foi um ano que me provocou uma grande tristeza, levando embora uma pessoa de quem eu muito gostava e que ficará para sempre e sempre, não na memória, mas no coração. Essa pessoa que infelizmente, ou felizmente, a morte decidiu visitar, foi uma pessoa que me ensinou muitas coisas, mesmo na sua recta final. Foi uma pessoa que com a sua ida me levantou uma tremenda raiva pela vida, mas que, depressa se dissipou e que, com a qual, aprendi o que é viver, o que significa viver, o que custa viver, mas, principalmente, a viver. Foi uma pessoa a que devo tudo pelo que fez por mim, pelo carinho que deu por mim, por tudo..... Nunca, mas nunca, esquecerei tudo o que aprendi com ela antes e depois da sua ida, para o outro lado. Foi talvez toda essa tristeza, toda essa fúria, raiva, ódio, pudor, que fizeram a viagem a Évora, realizada poucos dias depois da sua ida, uma viagem completamente alucinante.
Resumindo todas estas coisas e outras que não estão aqui reveladas, contribuíram para que este fosse o melhor ano da minha vida. Foi um ano em que eu consegui provar que o meu pensamento, a felicidade só traz tristeza, é verdadeiro e perfeitamente aplicado à raça humana, da qual eu não quero pertencer (a visita da morte). Mas, consegui, também, dar a volta a esse pensamento e contrariá-lo, vivendo, logo após essa tristeza, um dos momentos mais belos da minha vida (a viagem a Évora).
Foi um ano em que suei e sofri muito, mas foi um ano em que eu, finalmente, consegui por momentos ser feliz, coisa rara nos dias de hoje. Vivi mais neste ano, do que certas pessoas em dois anos. Aprendi muito sobre a vida e, consegui descobrir, que a vida é bela e vale a pena lutar e procurar pelo que de belo ela nos oferece, nem que para isso tenhamos que suar, sofrer, ou até mesmo cair.
Este ano ficará no meu coração.
Hugo Valter Moutinho

P.S. - Vivi muito este ano, poderia chegar ao exagero de dizer que nada mais me resta viver depois disto. É verdade que depois de tudo o que se passou neste ano, tudo o resto é banal, mas eu vou continuar a viver a minha vida intensivamente, sempre que for possível, porque ainda tenho muito que aprender e viver.
Posso não aceitar bem a raça humana, posso não gostar deste mundo, mas eu não pedi para vir para cá, e já que cá estou quero procurar o que de belo cá há. Mesmo que seja difícil, num mundo tão ingrato.
1997

A Missa

Mais um delírio. (Hmm...! Começo a reparar que afinal tenho mais delírios e devaneios do que pensava. Tinha uma ideia muito mais obscura dos meus textos.)
Este texto é pura loucura. Parte de uma conversa de amigos sobre um padre que dava a missa perto de um campo de futebol, o qual às vezes se distraía, ou dava a missa a correr, em dias de jogos mais importantes. Depois foi só dar asas à imaginação e juntar um pouco de loucura...
No fundo deste texto esconde-se uma luta entre o bem e o mal. Acho que se consegue ver um anjinho e um diabinho a pairar sobre a cabeça do padre, manipulando-o cada um para seu lado.
(Depois deste texto, acho que posso esquecer o meu lugar no céu...)


A Missa

Eu nem estava muito disposto a ir à missa. Aliás, raramente vou à missa, mas naquele dia a minha família pediu para eu ir. A nossa aldeia estava em festa e era indecente não ir à igreja no dia da festa.
Por azar, ou sorte, naquele dia havia, também, um jogo de futebol: o Moreirense contra o Tireirense a contar para a final da Taça Inter-Distrital da 15ª Divisão. O estádio, ou melhor, o campo de futebol do Moreirense ficava mesmo ao lado da Igreja.
Conclusão na Igreja estavam todas as mulheres da aldeia e no campo de futebol estavam todos os homens da aldeia, todos não, haviam dois desgraçados que não estavam no campo, eu e o Padre.
A muito custo lá fui para a Igreja, ainda pensei que da Igreja se podesse ver alguma coisa do jogo, mas não, o único sítio de onde se poderia ver alguma coisa era do altar. O Padre chegou pouco depois, com cara de poucos amigos, amuado, via-se mesmo que, como eu, preferia estar a ver o jogo, do que estar ali.
A missa começou às três horas, quase ao mesmo tempo que o jogo de futebol. O que se passou a seguir fui completamente insólito, uma coisa inacreditável à qual eu nunca vi igual e que nunca esquecerei.
O Padre começou a dar a missa sempre a olhar para o lado, ou seja, para o jogo de futebol e dava a missa a correr, como se quem esta com pressa ou tem pouco tempo para explicar.
O jogo tornou-se emocionante demais e o padre entrou em paranóia e já não conseguia dizer coisa com coisa.
E, um dia, os 12 Apóstolos estavam a brincar e a conversarPassa, filho da puta, olha o Mateus isolado, caralho! Passa para o João Baptista.
As pessoas ficaram a olhar espantadas para o padre. Este vendo que tinha metido água, ficou vermelho e não sabia o que dizer. A mim deu-me vontade de rir, mas com medo que a minha família leva-se a mal mantive-me sossegado.
Jesus foi ter com Judas, enfrentou-o cara a cara e disse-lhe:Cartão Vermelho? Filho da puta, gatuno, ladrão, paneleiro.... — o padre, atrapalhado tentou emendar o que tinha dito — Ahhh... Quero dizer....... Não fui muito bem isto que ele disse, mas vai dar quase ao mesmo.
Eu estava perdido de riso, tive de fazer um grande esforço para não desatar à gargalhada.
Jesus, antes de morrer, levantou-se e disse:PENALTI!!!!!! É Pénalti! Ohhhh!! Ohhh!! Ehhhh!!!!
Ao ver o padre aos saltos e às voltas, como os índios na Dança da Chuva, não me consegui aguentar e desatei à gargalhada. As velhotas resmungaram qualquer coisa como: «Se tem algum jeito, que pouca vergonha!!». O padre quando voltou a cair em si ficou mais vermelho do que nunca e ficou ainda mais vermelho quando viu que o Moreirense tinha falhado o pénalti.
Entretanto ouvi o apito do arbitro para o intervalo.
— Bem, — pensei eu — segundo os meus cálculos, o padre vai-se acalmar um bocado e a missa, por uns momentos, deve correr sem problemas.
E correu, pelos menos até à segunda parte do jogo.
E Jesus desceu à Terra e disse:GOLO!!!!! GOLLLOOOOOOOOO!!!!
As velhas já não estavam a gostar muito da brincadeira. Resmungavam para dentro, como se estivessem a blasfemar. Eu achava aquilo hilariante e espantoso
O padre sentou-se, pediu desculpas e ficou durante um bocado em silêncio. Pouco depois levantou-se e continuou a cerimónia.
Jesus enquanto passeava pela Galileia viu um cego a chorar e a andar de um lado para o outro. Fui ter com o cego e perguntou-lhe:Fora de jogo!!! Está fora de jogo, está fora de jogo!! Até um cego via isso, caralho...
Mais uma vez desatei à gargalhada. As pessoas começaram a abandonar a igreja, furiosas.
A missa estava quase a acabar e o padre estava nervoso.
Peço desculpa. Eu hoje não me sinto muito bem. Peço desculpa por todas as asneiras que fiz aqui. Só vos quero dizer que.....GOOOOOLOOOO!!!! Caralho, Foda-se. Puta que vos pariu, chupai aqui que a taça já é nossa!!!Quer dizer..... não era bem isso que eu queria dizer.... Bem... A missa acabou. Podem sair e ide com deus. Eu nome do Pai, do Filho, e do Espírito Santo, que foi quem marcou agora o golo.
E dito isto levantou-se e foi embora.
Nunca mais me esquecerei deste dia tão insólito, além disso o Moreirense ganhou ao Tireirense por 3-1 e pela primeira vez ganhou a Taça Inter-Distrital da 15ª Divisão.
1997

setembro 06, 2004

O Meu Mundo

Texto muito confuso... tal como o meu mundo.
Contradição, devaneio, raiva e asco pelo Ser Humano. A minha personalidade começa a ficar magoada, farta, saturada de todos os jogos e brincadeiras dos seres humanos, de todas as suas injustiças e julgamentos, de toda a sua supra-macia ignorante.
Basicamente, aqui, estou chateado com o mundo, se bem que de uma forma um pouco perdida...


O Meu Mundo

Dizem que eu ando deslocado, que sou uma pessoa estranha e que, de vez em quando, sou solitário.
Eu não sou nada disso. O que se passa é que eu vivo num mundo diferente, no meu mundo. Talvez por isso é que as pessoas achem que eu ando deslocado da vida, mas não, apesar de viver num mundo diferente, sinto-me inteiramente integrado nele.
Estranho??? Não acho que seja, apenas vejo as coisas de outro modo, enquanto vocês são indiferentes ao que se passa à vossa volta e só pensam em vocês mesmos, sem ajudar os outros; eu não!! Eu vejo tudo, sei tudo e, principalmente, sei olhar de frente para os outros e ajudá-los.
A vantagem de viver num mundo próprio é que se pode ver tudo, tudo o que se passa no outro mundo (o vosso mundo).
Solitário, dizem vocês!!! Talvez o seja, de vez em quando, mas isso deve-se ao facto de o meu mundo ser pouco habitado e de não me conseguir adaptar ao vosso mundo. Mas eu não me preocupo muito com isso, pois sinto-me muito bem sozinho.
“Mais vale só do que mal acompanhado”, não é o que dizem? E qual é a pior companhia do que a do Homem?
Não!!! Prefiro o meu mundo, o vosso é muito agitado, as pessoas passam a vida a correr de um lado para o outro, não têm tempo para se divertirem, nem para gozar a vida. O meu mundo é pacato, sossegado, há tempo para tudo: para pensar, para nos divertirmos, para trabalhar, enfim, para tudo... sem pressas, nem correrias.
Enjoy the life and “Seize the day”.
Digam o que disserem, eu prefiro o meu mundo, não é estúpido, injusto e imoral como o vosso.
Não me interessam o que os outros dizem, ou pensam, eu sou como sou e o meu mundo é como é e ninguém tem nada com isso.
1997

Pensamento...

A grande reflexão. Finalmente a coragem de pesquisar o forro introspectivo, de gritar os pensamentos mais obscuros. Finalmente a grande entrada no mundo obscuro que paira na minha cabeça e a afirmação de um estilo. A sombra da Morte abre-se, deixa de ser uma linha ténue para se afirmar definitivamente.
Curiosamente, o remate deste texto traduz toda a metáfora da minha vida.



Às vezes apetece-me viver.
Às vezes apetece-me morrer.
O sofrimento é maior do que a alegria,
Mas a vida continua e
O mundo não pára........
Num segundo.


O mundo, às vezes, é difícil de compreender.
O ser humano é difícil de entender.
Sabem o que dá uma junção de um mundo incompreensível
Com um ser humano difícil de entender?
Dá um planeta chamado terra,
Onde todos estão juntos,
Mas ninguém se entende
E cujo lema é: «Salve-se quem puder».


Às vezes pergunto-me porque é que ainda estou aqui.
Às vezes pergunto-me se não será melhor o outro lado.
Às vezes preferia estar do outro lado do que aqui, mas,
Às vezes, tenho medo do outro lado e,
Às vezes, gosto de estar aqui.
Às vezes fico indeciso sobre qual dos dois será melhor.
Às vezes pergunto: «E se o outro lado é pior do que aqui?»
Às vezes respondo. «Não!! É impossível! Nada é pior do que isto...»
Não sei....... mas acho que ainda vou ficar aqui mais algum tempo e,
Quando me fartar, dou um salto na obscuridade e viajo para o outro lado.

Nasci para morrer
Quando morrer viverei

setembro 02, 2004

AIDS No More (III)

VII
Passado uns dias James recebeu um telefonema. Era Watson a dizer-lhe que a operação era para o dia 13 de Maio. James tinha dois meses pela frente antes da operação.
Esses dois meses passaram bastante depressa, no ponto de vista de James, mas, mesmo assim, James não recuou na sua resposta.
No dia 10 de Maio James telefonou para Watson.
— Estou? — perguntou Watson — Quem fala? Ahh! És tu James. Então como te sentes?
— Mais ou menos. — respondeu James, com a voz seca — Os meus nervos é que estão um bocado descontrolados.
— Isso é normal, não te preocupes. — disse Watson, que tentava ser o mais natural possível.
— A que horas é que tenho que estar aí? — perguntou James.
— Quando? Para a operação? Às 9:30 da manhã. Pode ser?
— Sim. Por mim tudo bem.
James despediu-se de Watson e desligou o telefone. Foi ter com Christine e disse-lhe a que horas é que tinha que estar no hospital.
Christine chorou, chorou muito antes de lhe perguntar:
— Jim? Porque é que as pessoas têm de morrer?
— Essa sempre foi e sempre será a grande questão no mundo. — disse James, pensativo — Um homem vive para morrer e ninguém sabe porquê. Eu, pelo menos, tenho uma boa razão para morrer. Posso morrer, mas, ao menos, salvo milhares de pessoas da morte. Morro de consciência tranquila, sei que fiz, ou tentei fazer, uma grande coisa para a humanidade. Tal como disse Armstrong ao pisar a lua: «Um pequeno passo para o homem, mas um grande passo para a humanidade».
— Mas, Jim — disse Christine, tristemente — Eu não quero que tu morras. O que é que eu vou dizer ao nosso filho, que pode vir a nascer órfão de pai?
— Diz-lhe — disse James, abraçando-se a Christine — que tenha orgulho do pai. Porque ele salvou milhares de pessoas e, provavelmente, será o herói da década de 90, ou até do séc. XX.
James e Christine começaram a chorar. Faltavam só dois dias para a maldita operação e havia grandes possibilidades de James morrer. Tanto James como Christine receavam essa operação. Na última semana antes da operação andavam nervosíssimos, não conseguiam dizer coisa com coisa.
Mas era Christine que sofria mais, James aparentava calmia e tranquilidade.
No dia anterior à operação a casa de James parecia a Casa dos Macacos no Jardim Zoológico. James tinha convidado Watson para passar lá a tarde. Mas ninguém se conseguia entender, o nervosismo era tanto que ninguém dizia coisa com coisa. Enquanto Watson falava sobre carros, Christine estava a falar sobre bolos e James sobre desporto.
Ao final da tarde, quando Watson ia a sair da casa de James, estavam todos a chorar.
— Então, James, amanhã às 9:30. — disse Watson limpando as lágrimas.
— Às 9:30 estarei lá.— disse James, abraçando-se, novamente, a Watson — Não te preocupes.
VIII

No dia seguinte, às 9:30, já James se encontrava no hospital. Estava a falar com os Drs. Brie, Limbourguer, Donald, Stone e Watson. Os Drs. Brie, Donald, Limbourguer e Stone eram os médicos que iam fazer a operação, Watson só estava lá para ver James.
Christine estava sentada no quarto onde, provavelmente, James iria ficar depois da operação. Watson entrou no quarto e Christine, levantando-se, perguntou-lhe:
— Então? O James como é que está?
— Calma — disse Watson, nervoso — estavam agora a dar-lhe o sedativo. Vão começar com a operação. Agora temos de esperar por algumas notícias.
— Quanto tempo — perguntou Christine — vai demorar a operação?
— O Dr. Donald — disse Watson — disse-me que deveria demorar, mais ou menos, duas horas.
Christine sentou-se na beira da cama. Watson puxou uma cadeira e sentou-se ao seu lado. Durante alguns momentos ficaram ali sentados sem dizerem uma única palavra. Foi Christine quem interrompeu o pesado silêncio.
— Já sabe que o nosso filho vai ser um rapaz?
— Já, — disse Watson — já sabia. Foi o James que me disse ontem.
— E, — disse Christine, pausadamente — também lhe disse como se irá chamar?
— Não, — disse Watson, surpreendido — não me disse.
— O seu nome será Erik Douglas Thomson Cooper.
— E porquê — perguntou Watson, comovido — o nome de Erik?
— James — disse Christine — disse que lhe queria pôr o seu nome Erik Watson, porque era o seu melhor amigo, mas depois decidiu-se pôr só Erik em sua homenagem.
Começaram a escorrer lágrimas na face de Watson. Christine ficou a vê-lo chorar. Era tão bom ter uma amizade assim, James e Watson conheciam-se desde os dez anos e, a partir daí, nunca mais se separaram. James gostava muito de Watson, mais do que qualquer coisa no mundo, é claro que também gostava de Christine, mas de maneira diferente. Nem o próprio Watson se tinha apercebido do quanto James gostava dele, até à altura.

Passado uma hora entra no quarto o Dr. Stone. Christine e Watson levantaram-se numa euforia incrível.
— Então doutor, — perguntou Christine, eufórica — como é que está a correr a operação?
— Tenham calma, — disse o Dr. Stone, sorridente — que está tudo a correr bem. James está a aguentar-se bem.
— Ahhh! — disse Watson, mais calmo — Ainda bem.
— Doutor, — perguntou Christine, ainda nervosa — quanto tempo falta para acabar a operação?
— Dentro de meia hora já devemos ter acabado. Mantenham-se calmos ate lá.
Dr. Stone saiu. Christine voltou-se a sentar.
— Sabes, Watson, — disse Christine, nervosa — estou com um mau pressentimento disto tudo.
— Também eu. — disse Watson — Mas agora não podemos pensar nisso. Temos de manter a cabeça fria.
Christine e Watson ficaram ansiosos à espera de mais notícias. Só passado meia hora é que vieram mais notícias.
— Já está tudo terminado. — disse Dr. Brie, ao entrar no quarto — Correu tudo bem.
— E James? — perguntou Christine, ansiosa — Está bem?
— Por enquanto sim. — respondeu Dr. Brie, seriamente — Já deve estar a chegar.
— E... — disse Watson, com receio — Não há perigo de ele....
— Isso só o tempo dirá. Se dentro de meia hora ele não sentir nada, está fora de perigo.

IX
Logo de seguida entra no quarto James deitado numa cama, empurrada por uma enfermeira. James vinha sorridente e confiante.
— Jim, — disse Christine, começando a chorar — Jim estás bem?
— Mais ou menos. — respondeu James, com a voz trémula — E vocês como é que estão?
— Super-preocupados, — disse Watson — como podes imaginar.
— Não precisam de estar, — disse James — correu tudo bem. Eles já têm o ANM e a mim só me resta morrer.
— Oh! Jim. — disse Christine, apavorada — Não digas asneiras. Ainda podes sobreviver.
— Não. — disse James, confiante — Sei que tenho pouco tempo de vida. Cheguei a um ponto onde já não tenho nada a fazer neste mundo. Sei que chegou a minha hora. Já fiz o meu trabalho, agora a morte só tem que me vir buscar.
— Mas James, — disse Watson, escorrendo as lágrimas pela face — nós não queremos que tu morras. Nós amamos-te. Tu és a nossa família, sem ti não somos ninguém.
— Eu também vos amo. — disse James, seriamente — Mais do que qualquer outra coisa no mundo. Mas é o destino que me chama. Descobri que vim ao mundo para salvar milhares de pessoas. Era o meu destino e já o concretizei. Eu também queria ficar ao vosso lado, ver o meu filho crescer, mas não posso. Cada vez mais sinto que chegou a minha hora. Este mundo é estúpido. Um homem vive para morrer. Neste mundo só há ganância, rivalidade, desprezo. É um mundo onde não há paz, onde não há felicidade, onde há desgostos e pobreza. Não! Não, este mundo não me merece. Agora sou um herói, fiz qualquer coisa para mudar este mundo cruel e, por isso, já não tenho lugar neste mundo. A morte é a minha única solução, pelo menos vou partir para um mundo muito melhor que este, onde há paz, amizade, amor... Vou-vos deixar, mas antes quero-vos dizer que vos adoro. Christine, toma conta do meu filho, não tomas? — Christine respondeu com um aceno de cabeça, depois virando-se para Watson, James disse — Watson, toma conta da Christine, nunca a deixes sozinha, cuida bem dela.
James pegou na mão de Crsitine e beijou-a, chamou Watson e pegou-lhe, também, na mão. Endireitou-se na cama, fechou os olhos e morreu. Christine e Watson ficaram durante muito tempo a chorar agarrados às mãos de James.
James? Esse foi enterrado no Cemitério de Los Angeles, dois dias depois da sua morte.
Na sua campa estava escrito:

R. I. P.

Aqui jaze
James Douglas Cooper
Aquele que sacrificou a sua vida para salvar a humanidade do vírus HIV.
Não fiz nada de especial, apenas fiz o que o meu destino me mandou

THE END
1997

AIDS No More (II)

IV

Todos os dias era a mesma coisa: ao final da tarde Watson ia ter com James ao quarto para falarem um bocado e à noite aparecia Christine que ficava sempre até tarde a conversar com James.
James tinha decidido ficar no hospital até os testes terem acabado. «Dá-me mais jeito» foi o que ele disse acerca do assunto.
Passado três meses e meio, Watson foi ter com James com o resultado dos testes.
— Pois é, James! — disse Watson, com um ar muito sério — Já descobrimos a substância que combate o HIV no teu organismo.
— E qual é, Watson? — perguntou James, que começava a ficar inquieto com a conversa.
— Bem.... — disse Watson — Os teus glóbulos vermelhos uniram-se aos glóbulos brancos produzindo uma substância, a que chama-mos de ANM. ( [1] )
— ANM? — perguntou James, confuso — O que é que isso quer dizer?
— AIDS No More. — respondeu Watson — Descobrimos que a ANM combate fortemente o HIV, mas há um pequeno problema.
— O quê, Watson? — perguntou James, com um certo receio.
— Como sabes, — disse Watson, que começava a ficar nervoso — até hoje só tu é que tens um sistema de combate à SIDA. Ora bem, nós vamos ter que te tirar alguma ANM, para vermos a sua composição, a sua fórmula química, etc.
— E há perigo de correr algum risco? — perguntou James.
— Era isso mesmo que eu te queria dizer, — disse Watson, muito seriamente. Ficou a olhar para James um bocado antes de continuar — há um grande risco de tu morreres ou ficares gravemente doente se te tiramos a ANM. Isto é assim: a ANM é fruto da junção dos glóbulos vermelhos com os brancos, segundo os testes é a ANM que os faz sobreviver em conjunto. Ora os médicos acham, acham não, têm quase absoluta certeza de que se te tirarmos alguma ANM, tanto os glóbulos brancos, como os vermelhos, são capazes de morrer.
Quando Watson acabou de falar caiu um silêncio profundo no quarto. Um silêncio pensativo, mas, ao mesmo tempo, sufocante.
— E tu querias-me perguntar se eu autorizo que me tirem ANM? — perguntou James, olhando de lado para Watson, que lhe respondeu com um aceno de cabeça. James ficou vermelho de raiva e chateado — Autorizo o caralho!! Se vocês pensam que vos vou deixar tirar uma merda de uma substância para salvar milhares de paneleiros e putas, para depois eu morrer? Pois estão muito enganados. Ide-vos foder!! Arranjem a ANM do vosso cú, porque do meu vocês não vão ter nada.
Watson durante todo o discurso exaltado de James ficou estupefacto. Não estava à espera de uma reacção tão bruta de James ao assunto.
— James? — disse Watson, que ainda estava boquiaberto — Nunca te vi assim. O que é que se passa contigo?
— Achas que eu não tenho razão? — perguntou James, um bocado mais calmo — Põe-te no meu lugar. O que é que fazias? Assinavas um contrato com a morte? Era isso que fazias?
— Bem... — disse Watson, pensativamente — Se fosse para bem da humanidade, acho que sim, que aceitava.
— Que se foda a humanidade! — disse James, irritado com a conversa de Watson — Eu bem tinha razão. Vocês queriam-me ver morto.
Houve, depois, um breve silêncio. Tanto Watson como James reflectiam no que haveriam de fazer para resolver este caso.
— Então, — disse Watson, calmamente — quer dizer que tu não autorizas a operação?
— Não autorizo, — disse James, olhando para Watson — nem nunca hei-de autorizar.
— Tu é que sabes. O ANM é teu, és tu que comandas tudo. Sem a tua autorização, não podemos fazer nada. — disse Watson, desiludido.
— O problema é vosso. — disse James, seriamente — Da minha parte já sabem que não levam nada.
— Amanhã, se quiseres, já podes ir para tua casa. — disse Watson, tristemente — De qualquer maneira, obrigado por toda a ajuda que nos destes.
— De nada, Watson. — disse James — Eu agi de boa vontade, agora a vossa proposta é que é completamente absurda. Nunca na vida eu ia aceitá-la.
— Até logo, James — disse Watson, saindo do quarto.
— Até logo, Watson.

V

Passaram-se vários dias, depois de James ter saído do hospital. James andava inseguro, não conseguia fazer certas coisas, já não era o mesmo James que era há meses atrás.
Watson nunca mais tinha visto James, mas pensava sempre nele. Pensava no que ele estaria a fazer ou a pensar.
James raramente saiu de casa. Passava os dias a ver televisão e a ler livros, mas sem saber porquê, nunca se sentia feliz, havia sempre alguma coisa que o incomodava; e essa coisa era o ANM. Um dia Christine disse-lhe:
— James. Tu não podes continuar assim. Tu tens de fazer alguma coisa, ou vais acabar em maluco.
— O que é que queres que eu faça? — disse James, irritado — Me entregue à morte?
— Watson disse que tinhas 30% de chances de te salvares. Porque é que não tentas?
— O quê!!!?? — respondeu James, admirado — E os 70% de chances de eu morrer, não contam? Foda-se!!! Parece que toda a gente quer-me ver morto.
— Então, James — disse Christine, irritada —, se não queres fazer a operação, esquece de uma vez por todas o assunto, porque estou farta de te ver assim.
Alguns dias depois James estava a ler o jornal, quando viu uma noticia acerca da SIDA.
SIDA: CADA VEZ MAIS

O vírus HIV, causador da SIDA, está a provocar, cada vez mais, seropositivos. Os números são assustadores, do ano passado para este ano, os infectados pelo HIV, aumentaram para o dobro.
Cientistas prevêem que no final do ano mais de 250 mil pessoas devem morrer de SIDA, e para daqui a dois anos, se isto continuar assim, devem morrer mais de um milhão de seropositivos.


James pousou o jornal e ficou durante algum tempo sem se mexer. Parecia que estava morto. Christine, entretanto, chegou à sala e viu James muito quieto.
— Passa-se alguma coisa, Jim? — perguntou Christine, assustada — Estás-te a sentir bem? — James continuou quieto sem dizer palavra nenhuma.
— Jim? — perguntou novamente Christine — James? Estás-me a ouvir?
— O quê? — disse James, atarantado como se tivesse acordado de repente — Ah! És tu Christine.
— Tu estás bem, James?
— Estou, — disse James, calmamente — porquê?
— Estavas com um ar um bocado estranho. — disse Christine, assustada — Parecia até que tinhas ficado paralítico. O que é que se passa?
— Nada. — disse James, fechando o jornal e pondo-o na mesa — Não se passa nada.
James levantou-se e foi até ao quarto. Aí ficou até serem horas de jantar.
VI

Cristine e James estavam a ver o telejornal enquanto jantavam.
Uma das notícias do telejornal era sobre a SIDA e o número de mortos e afectados por esta. James, num acto reflexo, mudou de canal. Christine ficou intrigada com aquilo e quando olhou para James viu que estava um bocado nervoso.
— Diz-me o que é que se passa, James. — disse Christine, intrigada.
— Não se passa nada! — disse James, irritado — Já te disse que não se passa nada.
— Eu vi a notícia no jornal, James — disse Christine, ternamente — Eu sei o que é que deves estar a pensar. Tens nas tuas mãos a possibilidade de salvar aquelas pessoas, não é?
— É — disse James, que começara a chorar —, mas eu também não quero morrer. Mas também não quero que milhares de pessoas morram por causa do meu egoísmo. Oh, Deus, que hei-de eu fazer?
— Tem calma, Jim — disse Christine, abraçando-o. Ficaram assim durante algum tempo, abraçados. James soluçava, enquanto Christine afagava-lhe o cabelo.
Alguns dias depois James foi até ao consultório de Watson. Ao chegar lá disse a Watson a sua decisão final.
— Mas... — disse Watson, assustado — Tens a certeza disso?
— A certeza absoluta! — disse James, sorrindo. Watson estava a olhar para ele com a boca aberta.
— O que é que te levou a tomar essa decisão? — perguntou Watson, curioso. James olhou para os lados para ter a certeza de que ninguém estava a ouvir e disse:
— É que a Christine está grávida de dois meses. — disse James, baixinho. Watson ainda ficou com a boca mais aberta.
— O-os m-m-meus p-p-parabéns. — gaguejou Watson — Por essa eu não contava.
— E... — disse James, com convicção —, não sei se estás a perceber, mas eu não queria que o meu filho nascesse num mundo com SIDA. — James fez uma pausa, para molhar os lábios, antes de continuar — Imagina o que seria de mim se daqui a uns 17 ou 18 anos o meu filho viesse ter comigo a dizer que tinha SIDA. Com que cara é que eu ficava? Não, eu não quero viver sempre com este remorso, com este medo, com esta responsabilidade nas mãos.
Watson tinha ouvido atentamente os argumentos de James e depois de ter reflectido neles disse:
— Eu não sei o que faria na tua situação, mas acho que se o meu filho me viesse dizer que estava com SIDA, eu suicidava-me!!
— Pois é justamente isso que eu quero evitar. — disse James, comovido — Eu quero que o meu filho viva a vida sem problemas, quero que ele tenha liberdade de acção, quero que ele tenha paz, embora seja difícil na merda deste mundo.
— Mas, James — disse Watson, seriamente —, já pensaste que tens graves possibilidades de morrer?
— Já, Watson. — disse James, olhando de frente para Watson com um ar sério — Já! Já pensei nisso tudo e não ligo um caralho para isso. Pelo menos se morrer posso ter o orgulho de ter salvo a vida de milhares de pessoas. Posso ter o orgulho de ter escrito na minha campa «Aqui jaze aquele que sacrificou a sua vida para salvar milhares de pessoas».
Watson estava comovido com aquela conversa toda. As lágrimas corriam-lhe pela face, a voz já lhe fugia, mas mesmo assim ainda conseguiu dizer:
— Aconteça o que acontecer só te quero dizer uma coisa: Tu foste sempre o meu melhor amigo e sempre te admirei pela tua coragem.
Incapazes de dizer mais alguma palavra, James e Watson abraçaram-se e choraram. Ficaram assim bastante tempo, até que Watson perguntou:
— E Christine? O que é que ela achou da tua decisão?
— Oh! Nem me lembres. — disse James, limpando as lágrimas e voltando-se a sentar — Ela ficou tristíssima, mas estava de acordo comigo. Concordou sempre comigo.
— Vai ser um choque para ela. Coitada. — disse Watson, tristemente — Quando é que queres fazer a operação?
— Isso agora depende de vocês. — disse James — Quando quiserem eu vou.
— Muito bem! Eu depois digo-te alguma coisa. — disse Watson olhando para o calendário.
( [1] ) N. A. - Estes dados médicos são puramente fictícios. Não existe nenhuma substância chamada ANM (AIDS No More) e era completamente impossível os glóbulos brancos juntarem-se aos glóbulos vermelhos, pois era a morte certa do indivíduo.

AIDS No More (I)

Este conto é muito confuso para mim. Não sei que raio é que me deu para escrever este conto ainda por cima com a Sida como pano de fundo.
Eu agora acho-o um pouco estúpido, "elementar, meu caro Watson", não me diz nada, mas não deixa de ser importante, pois não deixa de ser o meu primeiro conto, a minha primeira experiência numa história longa, a minha primeira grande ficção e, tal como eu disse no "Prólogo (I)", bons ou maus, os meus textos seriam publicados neste blog.
Além disso é a primeira história em que a Morte aparece como salvação, algo que eu já andava a perseguir por uns tempos e isso é igualmente importante, se bem que aqui, a meu ver, a ideia não é muito bem sucedida, talvez por isso eu não fiquei por aqui e resolvi explorar o tema por outro lado no meu segundo conto "Morte e Salvação" e, muito mais tarde, em "A Corda no Pescoço".


AIDS NO MORE


I

Consultório de um hospital. James encontrava-se sentado em frente a um médico

— Então, doutor? — perguntou James, já impaciente — O que se passa? Quais foram os resultados dos testes?
— Tenho que lhe dizer duas coisas, — disse Watson, com um ar muito sério — uma boa, outra má.
— Comece pela má noticia, doutor.
— Os testes deram positivos.
— Então quer dizer que eu.... — disse James, faltando-lhe a voz de tão nervoso que estava.
— ...Que tu tens a SIDA!! — interrompeu Watson, mostrando também um certo nervosismo.
Houve um certo momento de silêncio, enquanto os dois se olhavam mutuamente.
— E qual é... — disse James com um certo receio — a boa notícia?
Watson tomando um ar sério para disfarçar o seu nervosismo disse:
— Por incrível que pareça, o teu organismo tem um sistema de combate super-poderoso que não deixa o vírus da SIDA, o HIV, actuar. Isto é: estás completamente fora de risco de morreres através deste vírus.
— Quer dizer.... Não corro qualquer risco de este vírus me afectar?
— Sim, és o único caso no mundo que está nessa situação. Mas... queria-te pôr uma questão.
— Diga. Não tenha qualquer receio. Afinal, já somos amigos à 12 anos. — disse James, aliviado do susto que tinha apanhado.
— Bem... — disse Watson, pausadamente —Eu queria-te perguntar se não te importavas de fazer uns testes para percebermos em que consiste esse sistema de combate, e, talvez, encontrar uma cura para a SIDA.
James ficou, durante alguns momentos, estático, sem mover músculo algum. As suas feições mostravam algum receio, medo. Suspirou algumas vezes, depois respirou fundo e perguntou:
— E não há qualquer perigo?
— Não, não! — respondeu rapidamente Watson — Não há qualquer tipo de perigo. São uns testes normalíssimos.
— Watson... — disse James, ainda pensativo — dá-me um tempo para pensar. Eu depois dou-te uma resposta..
— Tens todo o tempo para pensares. Quando quiseres vem cá, ou , se preferires, telefona-me.
James cumprimentou Watson e dirigiu-se para a porta:
— Até à próxima, Watson.
— Adeus, James. Pensa bem no assunto antes de dares uma resposta.
James apanhou um Taxi e foi para casa.
Aquilo era demais para a vida sossegada que levava. De um momento para o outro torna-se o único homem à face da terra portador de um sistema de combate ao vírus da SIDA.
Depois de ter pago o táxi, dirigiu-se para casa. Entrou e chamou a sua mulher, Christine:
— Christine! Christine!
— És tu Jim? — perguntou uma voz vinda da sala — Estou aqui na sala.
James dirigiu-se para a sala. Christine estava a ver televisão.
— Então como correram os testes? — perguntou Christine.
— Deram positivo... — respondeu James, inquieto — Sou portador do vírus HIV.
— Mas então... — exclamou Christine apavorada.
— Não te preocupes. — respondeu James e, na tentativa de a acalmar, explicou-lhe tudo o que se tinha passado naquele consultório.
Christine ouviu tudo com muita atenção e no final já se encontrava mais calma.
— Mas tu vais fazer esses testes?
— Não sei!.... — disse James, ainda pensativo — Fiquei de dar uma resposta. Tenho nas minhas mãos uma responsabilidade enorme. São milhares e milhares de pessoas que eu posso salvar.
James passou os dias seguintes bastante pensativo. Tinha medo de ser a “cobaia” de médicos curiosos, de estar a ser inspeccionado como se fosse um extraterrestre.
II

Quando James, finalmente, chegou a uma conclusão foi até ao consultório de Watson. Foi o caminho todo a reflectir na sua decisão.
Entrou no hospital, dirigiu-se ao consultório e bateu à porta.
— Entre — disse Watson, que estava a estudar uma fichas médicas.
James entrou e sentou-se.
— Ah! És tu. — disse Watson, que não tinha reparado que era James que tinha entrado — Estava a pensar em te telefonar. — Watson fez uma breve pausa antes de continuar a falar — Já chegaste a alguma conclusão?
— Já! — respondeu James com voz seca — Estou disposto a fazer os testes.
— Ainda bem que tomaste essa atitude. Não é por nós, é por aquilo que podes fazer a milhões de pessoas com SIDA.
— Essa foi a razão que me levou a aceitar a proposta.
Watson pegou no telefone, falou com uma rapariga e marcou os testes.
— Dia 12. Pode ser? — perguntou Watson a James.
— Por mim pode ser — respondeu James, olhando para o calendário que estava na parede.
Watson pousa o telefone, escreve umas anotações no caderno e, depois, olha para James e disse-lhe:
— Não tenhas receio. Vai correr tudo bem. Os testes vão começar no dia 12 às 9:30 da manhã.
— E vou ter que ficar internado? — perguntou James.
— Só nos primeiros três dias, depois, se quiseres, podes ir para casa. Mas tens de vir cá todos os dias.
— E os testes vão demorar quanto tempo?
— Devem demorar, sensivelmente, três a quatro meses. Mas isso vai-se vendo ao longo dos testes.
— Então dia 12 às 9:30 cá estou. — disse James, apertando a mão a Watson.
— Cá estarei à tua espera.

Dia 12 8:45
James estava nervosíssimo. Ia passar três meses no hospital a ser cobaia de médicos malucos.
Eram 9:00 quando James saiu de casa e se dirigiu para o hospital. Chegado ao hospital foi até ao consultório de Watson.
— Bom dia, Watson! — disse James, um tanto ou quanto nervoso — Estou atrasado?
— Não, — disse Watson, olhando para o relógio — até estás adiantado. Então? Muito nervoso?
— Um bocado
— Não te preocupes! — disse Watson passando as mãos pelos ombros de James — Vai correr tudo bem. Acompanha-me.
James seguiu Watson até uma sala de operações. Watson apresentou os médicos que iriam fazer parte do exame: Dr. Brie, Dr. Stone, Dr. Donald e Dr. Sheen.
— São estes — disse Watson, depois de ter apresentado os médicos — os médicos que te vão examinar. Eu tenho total confiança neles. Boa Sorte! — Watson despediu-se de James com um cumprimento de mão e saiu da sala.
— Nós vamos-lhe dar uma anastesia geral, — disse Dr. Donald — por isso só deve acordar lá para o fim da tarde.
— Deite-se aqui se faz favor! — disse Dr. Brie, apontando para uma cama. James deitou-se. Dr. Stone aplicou-lhe uma injecção e passado alguns segundos James adormeceu.
III

Quando acordou, James sentiu umas leves tonturas, tentou olhar à sua volta, mas não conseguia ver com muita nitidez as coisas.
— Devem ser os efeitos da anastesia. — pensou James. Passado pouco tempo já conseguia distinguir as coisas. Estava num quarto deitado numa cama bastante cómoda, tinha uma mesinha ao lado da cama, uma cómoda no canto, uma televisão à beira da janela e uma vista espantosa se espreitasse pela janela.
James sentia-se cansado e com uma leve dor no abdómen, por isso tentou dormir um bocado. Estava quase a adormecer, quando bateram à porta.
— Pode entrar — disse James.
Era Watson.
— Então, James? — perguntou Watson, alegremente — Como te estás a sentir? Bem?
— Acho que sim, — respondeu James, um bocado confuso — mas ainda me sinto um bocado tonto.
— Isso é natural! Precisas de descansar um bocado.
— Que horas são? — perguntou James, reparando que lhe tinham tirado o relógio.
— São 6:15. — respondeu Watson — O jantar é às 7:30, por isso aconselhava-te a dormir até lá.
Watson ia sair quando se lembrou de um recado:
— É verdade! Quase que me ia esquecendo de te dizer que a Christine telefonou a dizer que passava por cá às 8:30.
— Muito obrigado. — disse James — Já me sinto melhor só de saber isso.
Watson saiu e James adormeceu. Só acordou quando uma enfermeira lhe foi levar o jantar.
Mais tarde Watson voltou a entrar no quarto.
— Olá, doutor. — disse James, com um ar contente — Veio-me visitar?
— Já vi que estás com uma cara melhor do que a de há bocado. — disse Watson, sorrindo — Ainda bem. Sabes que estás com o melhor quarto do hospital? Este quarto é reservado para VIP’s.
— Não sabia que eu agora era um VIP. — respondeu James, piscando o olho a Watson — Viva o luxo!
— Já reparaste na casa de banho? — perguntou Watson, ironicamente — Isso sim, isso é que é um luxo. Quem me dera ter uma igual em casa. Imagina que até água quente tem.
— Cá para mim, — disse James, seriamente — vocês estão à espera da minha morte.
— Mas... — disse Watson, assustado — Mas de onde é que tiraste essa ideia?
— Para vocês estarem a tratar de mim tão seriamente e com tanto cuidado.... — respondeu ironicamente James — Até a um bacalhau cozido tive direito.
— Oh! — disse Watson, rindo-se — O que nós queremos é que tu te sintas bem e em plena forma. Precisamos de ti 100% operacional.
— Por falar nisso. — disse James, com um ar sério — Descobriram alguma coisa?
— Ainda não! Não precipites. Ainda é muito cedo.
— Então, muita boa noite para vocês. — disse Christine, que tinha entrado enquanto James e Watson estavam a falar — Como é que está o meu Jimmi, Watson?
— Melhor do que nunca. — respondeu Watson, sorrindo — Até já recuperou o seu sentido de humor.
— Ainda bem. — disse Christine, cumprimentando Watson — Cheguei a ficar preocupada com ele.
Christine aproximou-se de James e beijou-o na cara.
— Bem, — disse Watson, levantando-se — eu vou indo, porque tenho mais doentes à minha espera. Vou deixar-vos a sós.
Christine e James falaram até bastante tarde. Eram quase 0:30 quando Christine saiu do hospital.

setembro 01, 2004

A Terra Prometida

Gostaria de saber o que me levou a escrever isto e com que raiva eu a escrevi...
É estranho deparar-me com este texto numa altura em que o anti-americanismo está tanto na moda. Hoje acho que escreveria um texto ainda mais acutilante, muito mais (in)directo, mais frio e mais raivoso... Afinal é o país do mundo com o presidente mais burro à face da terra e o único país em que um actor estrangeiro de acção pode ser governador da Califórnia. Enfim, o eterno sonho americano.
God save América!
Please....

A TERRA PROMETIDA

América... a terra de todos os sonhos é para muitos o paraíso.
Mas será que a América merece esses méritos?
Uma terra onde o racismo é rei e os pretos lixo para se cuspir; uma terra onde em cada quatro horas morre uma pessoa, em cada três horas é violada uma pessoa, a cada minuto há ataques racistas.
Será que essa terra merece ser tratada como a terra prometida?
Alguém disse: «A América é o único país que passou da Barbaria ao Progresso, sem passar pela Civilização». Foi, provavelmente, a maior verdade já dita sobre a América.
Nenhum país, ou povo, consegue ser tão irracional, imoral, burro e absurdo do que a América.
Na América nem um, nem um só direito humanitário consegue prevalecer. Na América é a lei do mais forte. O conceito de «um por todos, todos por um», é-lhes desconhecido. Se alguém me pedisse um sinónimo de selva, eu diria, sem problemas, Estados Unidos da América.
É claro que a América não tem só coisas más, também tem coisas boas, só que as coisas más superam as coisas boas.
A América é capaz de ser o país mais desenvolvido, tecnologicamente, do mundo. Sim, tecnologicamente, porque moralmente, é um dos países mais subdesenvolvidos.
É na América que se encontra a maior rede de cinema do mundo. A América consegue biliões de dólares só com um filme.
Mas, voltando ao ponto inicial, será um paraíso um país que mata um presidente só porque não lhes convinha? O mais absurdo de tudo é que foi a própria “polícia”( CIA, FBI, etc.) que o mandou matar. Mas não foi só um presidente que eles mataram, foi também um preto que os andava a chatear com os seus sonhos estúpidos e que lutava pela liberdade dos pretos. Foi, também, uma rapariga, jovem, bonita, actriz de cinema, que eles, provavelmente, mataram, devido a ela ter umas ligações com o tal presidente. Será isto o paraíso? Se isto é o paraíso, eu prefiro o inferno.
Assaltos, roubos, mortes, assassínios acontecem de minuto em minuto. E ninguém parece ligar um caralho para o que se passa.

Enunciei aqui algumas mortes, mas essas mortes foram as que deram mais polémica, pelo mundo fora. Falta saber as muitas que houve sem ninguém saber de nada e que ficaram escondidas em ficheiros secretos.
América. A América é a maior mentira do mundo.
A América é o país de todos os sonhos, mas é preciso ter cuidado, o outro preto também sonhava, sonhava muito e mandaram-no matar.
A terra prometida, o paraíso, isto tudo são nomes “falsos” para enunciar um dos países mais perigosos do mundo: os Estados Unidos da América (USA).

1997

Carta ao Ex.mo. Presidente do Conselho Directivo

Mais um devaneio. Mais um delírio. Por favor não ponham mais moedinhas na máquina. Alguém que o faça parar, por favor.
Obrigado.


Carta ao Ex.mo. Presidente do Conselho Directivo


Ex.mo. Presidente do
Conselho Directivo


Nós, abaixo assinados, vimos por este meio informar-vos do nosso desagrado pela expulsão da professora Marlene da escola.
Sabemos que a professora em Outubro de 1996 andou a incentivar os outros professores a irem ver o filme “Crash”, que na altura estava a passar no cinema Nun’Alvares. É verdade que o filme não era um filme normal, era um filme violento e com cenas eventualmente chocantes, mas também não era caso para entrar em pânico.
Depois do acontecido a professora Marlene foi informada por um aluno, Stephen King Nº7 da turma B, que estava a passar um grande filme no Sá da Bandeira “Barafunda”. Então teve a ideia de levar todos os professores numa saída em conjunto para irem ver o tal filme, e assim limpar a sua imagem. Mas, mais uma vez, o filme não correspondia à ideia principal da professora Marlene, limpar a sua imagem, e, é claro, o filme provocou um novo pânico, a professora Doroteia ao ver filme teve um ataque e teve de ser internada durante 2 meses, o professor Neurestides foi encontrado no final do filme num estado um bocado estranho devido, talvez, à barafunda que se gerou na sala a meio do filme, outra professora desmaiou e teve de ir para o hospital para receber assistência médica.
A professora Marlene, entrou em depressão pois a sua imagem estava completamente arruinada nesta escola. Então a turma B quis fazer uma sessão especial no CineBota. A ideia principal era de duas em duas semanas às sextas-feiras à noite fazer uma sessão especial para pais e professores. Essas sessões tinham como título “Relembrar os velhos tempos...”. Na primeira sessão, e única, a CineBota passou o filme “O Capuchinho Vermelho e o Lobo Mau” versão Sex Hard-Core.
Ainda hoje não sabemos por que é que a meio do filme as pessoas ficaram malucas, eram pais a saírem da sala aos berros a dizer que aquilo era uma imoralidade, eram professores na sala a correrem uns atrás dos outros, alguns por cima de outros, bem uma indecência, nem os próprios alunos/filhos eram capaz de se portar tão mal.
Mas, esquecendo estes acontecimentos, nós somos contra a vossa decisão de expulsar a professora Marlene da Escola Secundária Deus nos Acuda e pedimos-lhe que retire as queixas que fez à PSP de Depravada Sexual, Tentativa de Pedofilia e de Inconsciente Mental.

Pedimos deferimento

_____________________

P. S. - Ainda gostaríamos de saber por que é que proibiu a continuação do projecto “Relembrar os velhos tempos...”, logo na primeira sessão.

1996

agosto 31, 2004

Um Segundo

Dezembro, 1996.
O tempo passa devagar. Tão devagar que eu consigo ver todos os segundos que passam. Os primeiros são muito rápidos, meros fragmentos. Depois, eles começam a ser maiores, mais lentos, permitindo já uma pequena reflexão. Finalmente começam outra vez a correr, formando assim um ciclo.
Continuo a adorar este texto. Dou por mim, muitas vezes, a pensar nisto, nos segundos. Acho que se eu quisese fazia um livro gigantesto assim, só de pequenos fragmentos apanhados dos segundos que vão passando por mim. (Os Lusíadas em segundos! Ah! Ah! Ah!)


UM SEGUNDO

Um segundo...

Um segundo não é nada.
Um segundo é muita coisa.
Um segundo pode ser fatal.
Um segundo pode ser glorioso.

Um segundo...

Um segundo pode matar um homem.
Um segundo pode salvar um homem.
Um segundo pode mudar a vida de um homem, para sempre.
Um segundo pode destruir a vida de um homem, para sempre.

Um segundo...

Num segundo pode-se morrer.
Num segundo pode-se viver.
Num segundo passam 25 frames num vídeo.
Num segundo passam 24 fotografias num cinema.

Num segundo...

Num segundo começa uma guerra.
Num segundo acaba uma guerra.
Num segundo morrem milhares de pessoas.
Num segundo nascem milhares de pessoas.

Num segundo...

Num segundo os nossos olhos captam milhares de cores.
Num segundo os nossos ouvidos captam milhares de sons.
Num segundo os nossos olhos captam vários movimentos.
Num segundo o nosso mundo pode ser destruído.

Num segundo...

Num segundo pode explodir uma bomba.
Num segundo pode deflagrar um incêndio.
Num segundo marca-se um golo.
Num segundo sofre-se um golo.

Num segundo...

Num segundo acontecem milhares de coisas no mundo.
Num segundo o mar pode inundar uma cidade.
Num segundo pode-se ser feliz.
Num segundo pode-se ser infeliz.

Num segundo...

Um segundo pode enriquecer uma pessoa.
Um segundo pode empobrecer uma pessoa.
Um segundo muda muita coisa.
Um segundo, somente um segundo, é Todo-Poderoso.

Um segundo...

Um segundo, somente....

Somente um segundo....

Um segundo... O que é um segundo na vida de um homem?
Muita coisa. Um segundo é muita coisa.
Para nós um segundo não é nada, mas para o nosso cérebro um segundo é um minuto.
Para nós um dia são 24 horas, ou melhor 86400 segundos, pois, para o nosso cérebro são 72 horas, ou seja 259200 segundos.
O que um segundo pode fazer....
Num segundo passam-se milhares e milhares de coisas pelo mundo fora.
Ora se num segundo se passa isto tudo, imaginem o que se passa num dia, que tem 86400 segundos....
Por esta altura já devem ter passado mais de dois minutos, e pode parecer um bocado estranho pensar que já passaram 120 segundos, enquanto se lia este texto que fala de um só segundo, na vida de um homem. Mas já pensaram o que é que aconteceu nesses 120 segundos....

Um segundo....

Um segundo, somente...

Somente um segundo....

Sabem o que é pior?

É que a seguir a um segundo vem logo outro....


1996

agosto 30, 2004

A Batalha de Alcácer Kiwi

Ah! Ah! Ah!
Mais um dos meus devaneios. Este, tenho que admitir, é qualquer coisa de suberbo. O verdadeiro perigo de deixar o meu cérebero à solta, sem quaisquer preocupações, nem preconceitos, simplesmente deixar as ideias mais absurdas correrem. É um excelente exercício. Tenho pena de não explorar mais este estilo. E também tenho pena de ter perdido este sentido de humor na escrita...
Este texto teve, por sua vez, um episódio ainda mais surreal. Resolvi, na altura, apresentar este texto à minha professora de Português (Ok! O gajo tem a lata de fazer este texto e depois ainda tem o desplante de o apresentar à professora de Português??? Cortem-lhe a cabeça!!!!!), a qual o guardou "para lêr mais logo". Poucas horas depois soube que o texto tinha rodado pela sala dos professores com relativo sucesso, chegando a haver algumas gargalhadas mais estridentes. (Ok! Já percebi, a professora ainda era pior do que ele. Com professoras assim como é que queriam que ele fosse normal???)
Eu??? Na altura não gostei muito da brincadeira, principalmente, quando vieram os professores darem-me os parabéns pelo meu "sentido de humor". Ah! Ah! Ah!


A BATALHA ENTRE ALCÁCER DO SAL E ALCÁCER KIWI
Por
Laranjeira de Cachos

Aqui vai ser relatada a única e verdadeira história da batalha que houve entre Alcácer do Sal e Alcácer Kiwi, durante o reinado de D. Sebestalimão.
Por volta de 1579/1580 Portugal estava em crise, pois o sal, sua especialidade, estava a vender muito pouco, porque a povoação sofria, na maior parte, de hipertensão e o kiwi estava a vender cada vez mais, pois a povoação tinha descoberto que o kiwi era bom para a prisão de ventre e como a maior parte sofria, também, de problemas de evacuação a venda de kiwis aumentou significativamente, enquanto a venda de sal descia.
Ora, perante esta situação, o Rei D. Sebestalimão não estava nada satisfeito e reuniu os seus súbditos para trocaram as idas à Índia, onde iam buscar caril e açafrão, por uma guerra em Alcácer Kiwi, que era a grande produtora e exportadora de kiwi em África.
Em 1980 o Rei D. Sebestalimão, parte com sua tropas para Alcácer Kiwi. O que o rei não sabia era que infiltrado nas suas tropas se encontrava um espião de Alcácer Kiwi.
Chegados a Alcácer Kiwi tiveram uma recepção nada calorosa, pois os Mouros, já conhecedores do nosso ataque, começaram a bombardear-nos com kiwis.
Apanhados de surpresa, os portugueses, ou melhor, a povoação de Alcácer do Sal, reagiu ao ataque com bombardeamentos de sal e, é claro, a confusão gerou-se.
Os portugueses atiravam sal para os olhos dos mouros, estes, por sua vez, atiravam com kiwis à cabeça dos portugueses.
É claro que durante a batalha se levantou uma grande poeira de sal, e passado quase uma hora de combate já estavam todos aflitos dos olhos e já não viam nada à sua frente, senão uma leve névoa. Já ninguém sabia com quem estava a combater, pois a confusão era indescritível.
No final da batalha estavam todos doentes, mouros e portugueses, pois os kiwis deram-lhes a volta aos intestinos e sofriam todos de uma caganeira incrível. Soube-se que passaram semanas e semanas sempre a correrem para o W. C. de cinco em cinco minutos.
Triste final tiveram, pois a caganeira foi o golpe fatal que matou todos os intervenientes da batalha, mesmo o nosso querido Rei D. Sebestalimão, que sofreu, durante um mês, com a caganeira, antes de morrer.
Alguns anos depois chegou aos ouvidos dos portugueses uma versão totalmente falsa da batalha de Alcácer Kiwi.
Dizia-se que os mouros tinham matado sem dó, nem piedade todos os portugueses e que o nosso Rei tinha morrido numa manhã de nevoeiro. Ora bem, isso é completamente absurdo; primeiro não foram os mouros que mataram os portugueses, foram os kiwis, que, inclusivamente, mataram, também, os mouros; segundo, o nosso rei não morreu em combate numa manhã de nevoeiro, pois a batalha deu-se às três da tarde e durou, só, até às quatro. O nevoeiro, fictício, era o modo como os portugueses e os mouros ficaram a ver depois de terem levado com umas mil toneladas de sal nos olhos, pois como já disse o sal cegou os combatentes, que já só viam uma leve névoa à sua frente
Por isso, essa história do nevoeiro é completamente falsa, o nosso Rei, por muito triste que seja, morreu de uma caganeira terrível.
Assim aconteceu a triste e vergonhosa batalha entre Alcácer dos Sal e Alcácer Kiwi.

Laranjeira de Cachos
1996

agosto 26, 2004

Nowhere City (II)

NOWHERE CITY

(Grande plano de John numa Camioneta)

Camionista: Next stop: Nowhere City.

(Chegada da camioneta e a saída de John)
(Grande plano de uma seta indicando o caminho para Nowhere City)
(Caminhada de John até Nowhere City)
(Plano geral da Elm Street)
(Grande Plano do Nightmare Hotel)

John entra no Hotel e reserva um quarto.

Recepcionista: A room? Yes, I think that we have one! How long would you stay here?
John: I don’t know!

John sai do Hotel e começa uma longa caminhada por Nowhere City.
(Desenvolvimentos de vários acontecimentos estranhos)

Acontecimento 1
SUPER-HOMEM

(Plano geral de um telhado com um puto mascarado de Super-homem.)
(Grande plano do puto mascarado de Super-homem.)

Puto: Up, up and away!!!

O puto atira-se vindo a esborrachar-se ao pé de John que estava a passar na altura.
John olha, indeferente, sem mostrar qualquer emoção e continua a sua caminhada.

Acontecimento 2
Assassinos Natos

(Plano geral de dois homens discutindo)
John passeando repara na cena que se estava a passar no outro lado da rua e para.
Eram dois homens: um forte e alto, o outro de estatura média e magro.
Os dois discutem alto. O mais alto parece ser, também, o mais irritado.
De repente o mais alto saca uma arma e dispara sobre o mais magro, que cai moribundo no chão. O mais alto nota a presença de John e interpela-o:

Assassino: What are you looking at, motherfucker? Do you want to die, sucker?

John segue o seu caminho sem qualquer problema, como se nada se tivesse passado.

Acontecimento 3
THE LONE RANGER

(Plano inteiro de um puto em cima de um cavalo com um pau a fazer de espada.)
(Plano inteiro de outro puto em cima de outro cavalo, também com um pau-espada.)
Os putos estão frente a frente a uma distância de 40 metros entre si.
Os putos olham-se entre si, enquanto fazem os últimos preparativos e preparam os paus para lutarem.

Puto 1: Are you ready?
Puto 2: Yes, I’m ready.
Puto 1: So, Let’s go!
Puto 2:Aioh! Silver!

(Começa a musica do Lone Ranger)
Dito isto os putos desatam a galgar a alta velocidade empenhando os seus paus-espadas.
Cruzam-se a alta velocidade, lutando com as suas “espadas”.
Dão meia volta e voltam a galgar em direcção ao outro. Mas, desta vez, a coisa não corre tão bem e acabam por espetar os paus um no outro.
Assustados olham um para o outro e caem no chão mortos.
John, que estava a passar ali naquela altura, vê a cena final e continua a caminhar abanando a cabeça.

John: This is a stupid town! They are crazy! Gosh!

Acontecimento 4
SENTIDO OPOSTO

(Fim da tarde)
John, na sua longa caminhada, chega à rua principal da cidade, a Suicide Street.
Na estrada vem um camião TIR na faixa contrária a grande velocidade.
John apercebe-se da cena e pára para ver o que irá acontecer.
O camião começa a embater em todos os carros que lhe vão aparecendo pela frente, parando, depois, a 10 metros de John. Ao todo foram 2 Km percorridos em sentido oposto pelo camião.
O camionista sai do camião completamente ileso, deixando atrás de si um cenário de caos, morte e terror.
John afasta-se do local sorrindo. Sempre estava num cidade completamente maluca.

Acontecimento 5
VERY-LIGHT

(Anoitecer)
John aproxima-se de uma loja de videos e televisões.
Na montra está um grande ecrã que está a trasmitir o Nowhere Horses - Mississippi Lambs, um jogo de futebol, ou soccer como lhe chamam os americanos. Ao lado do ecrã estão duas gigantescas colunas para transmitirem o som para o lado de fora da montra.
John pára para assistir ao jogo.

Comentador (Voz-off): It is a country derby in soccer Nowhere Horses is a good team, but very rebellious. Mississippi Lambs are a strong team with a powerful attack. Let’s see the game.

O jogo continua até se ouvir um grande estrondo no estádio.

Comentador (Voz-off): Oh my God!!! What was that??? (Pausa) Oh no!!! A fan of Nowhere Horses killed a Mississippi Lamb’s fan, throwing a bomb.

A televisão mostra um adpto do Mississippi Lambs morto, com uma grande abertura no peito e a escorrer sangue.

Comentador (Voz-off): The game will stop. The Crazy Stadium is in panic all people are running away. This is crazy. (Pausa) I have now more information, the bomb who killed a Mississippi fan was a very-light....

John continua o seu caminho enquanto o comentador continua a tentar esplicar o que se passou.

(Noite. Plano Geral da Sócrates Avenue.)
(Grande plano de John a entrar no bar “Drinks on the house”.)

John entra. O bar é grande e espaçoso, parece ser um sitio agradável e não está muito cheio.
John senta-se e pede uma bebida. Passado algum tempo uma rapariga, bonita, esbelta e simpática, vai na sua direcção.


Sandra: Hi there!
John: Hello!
Sandra: Can I seat here?
John: Yeah!
Sandra: What are you doing here?
John: Well... I came here to drink something, to see people... normal people.
Sandra: This is a strange city, did you know that?
John: (Sorrindo) Yeah, I know that!
Sandra: So... What a man like you are doing here, in this stupid town? Don’t you have family or friends?
John: No... They all died!!...
Sandra: Oh!! I’m very sorry!
John: ...in a plain crash. I was the only survivor! My friends, my girlfriend, my parents, everybody... died. I lost everything.
Sandra: Then you move to Nowhere City.
John: No, I lived two years in Paquistan, where the plain crashed.
Sandra: But why did you came here, to Nowhere?
John: I came here because I’ve heard that Death lives here.
Sandra: That’s for shure! So you came to meet death, huh?
John: That’s right. I don’t have nothing, this is my only friend.

John tira do bolso um maço de cigarros Marlboro! Saca um cigarro e mostra-o à Sandra, acendendo-o logo de seguida.

John: What’s your name?
Sandra: Bullock, Sandra Bullock. And you? What’s your name?
John: I don’t know my name and I don’t know who I am, but you can call me John.
Sandra: John???
John: Yes, John is a good name.
Sandra: I like it!
John: Do you want to dance?
Sandra: Why not?

John e Sandra começam a dançar e, mais tarde, beijam-se.

(À porta do “Drinks on the house”)

John: So, where do you live?
Sandra: I live at Ravanelli Street.
John: I take you there! My hotel is on the Elm Street.
Sandra: In witch hotel are you staying?
John: In the Nightmare Hotel.
Sandra: That’s funny....

Continuam caminhando passando por várias ruas. Tudo parece agora mais calmo.
(Chegada a Ravanelli Street).

John: We are on Ravanelli Street now. Where is your house?
Sandra: I live up there, after that yellow building.

(À porta da casa de Sandra).
Sandra: This is my house! Do you like it?
John: That’s a nice house... Can I come here tomorrow?
Sandra: Yes, of course! Whenever you want.
John: At 3 o’clock, that’s OK for you?
Sandra: Fine. I’m waiting for you!
John: OK! See you tomorrow.

John e Sandra beijam-se. Despedem-se. Sandra entra em casa e John segue o seu caminho para o hotel.
Já não era aquele John que tinha chegado à cidade. Era um John diferente, já não procurava a morte, tinha-se apaixonado, já tinha uma razão para viver.

John (Voz-off): I came here to meet Death, now I found life, love. I have, now, someone in my life, a reason to live for.

(Começa a musica The End dos Doors).
John acende um cigarro e continua caminhando até chegar a um cruzamento.
( Plano fixo dos pés de John a entrarem no cruzamento).
Ouve-se uma travagem brusca e um forte estrondo.
O cigarro aparece a rolar e apaga-se numa poça de água.


This is the end, beautiful friend, / this is the end, my only friend, / the end of our elaborated plan, / the end of everything that stands....I’ll never look into your eyes… again”.

1996

Nowhere City (I)

Nowhere City...
Finalmente a maior alegoria de todos os meus textos.
Finalmente a afirmação de um estilo.
Só por causa disso, acho que Nowhere City merece um prólogo.

Não me tinha apercebido de que o "Nowhere City" tinha aparecido tão cedo nos meus textos. Tinha ideia que tinha vindo mais tarde. Afinal de contas é só o meu 5º texto.
Já se passaram 8 anos desda a criação de "Nowhere City" e, visto agora, parece-me um pouco desactualizado, mas mesmo assim, ainda é a grande referência dos meus textos.
É em "Nowhere City" que o meu péssimismo negativista se afirma, criou-se uma estrutura "a cidade onde vive a Morte", a partir daqui tudo era possível, eu era rei e senhor do destino, a Morte funcionava a meu mando. Ah! Ah! Ah! Podia ser vitima ou heroi era só a minha mente querer.
É claro que só muito mais tarde (principalmente ao escrever "Morte e Salvação") é que reparei na influência deste texto nas minhas ideias e no meu modo de pensar. Até porque este texto está escrito ou pensado como um argumento. Foi uma tentativa de escrever argumentos, mas ficou uma coisa estranha porque a acção é escrita em Português, mas os diálogos são em Inglês, por isso, via sempre este texto como um filme, tal como ele tinha sido pensado, um delírio que tive naquela altura e não me tinha apercebido da grande alegoria que estava escondida por detrás de todas aquelas ideias...

É curioso reparar no humor subtil (sem ser o sádico!) que preenche todo este texto. É quase impossível eu voltar a escrever qualquer coisa com este tipo de humor. Todo o lugar comum que este texto feito de lugares comuns é, ajuda a dissimular e "esconder" inúmeras referências e gags.
Para começar John fica hospedado no Hotel Nightmare na Elm Street, ou seja, Nightmare on Elm Street. Na série de acontecimentos que se segue há referência de filmes, séries, histórias e, mesmo de notícias "que chocaram o mundo (Ah! Ah! Ah!)". Depois temos a Socrates Avenue, a Ravanelli street (para quem não se lembra, Ravanelli foi um grande jogador de futebol italiano), o bar que se chama "Drinks on the House" (As bebidas são à borla), a rapariga que é a Sandra Bullock (Ai, ai....) e, claro, o grande fantasma dos Doors que paira por todo o texto.

Apesar de já estar um pouco datado e de ser um lugar comum (se bem que a finalidade é mesmo essa), quanto mais me afasto deste texto, mais gosto dele. Já pensei em o adaptar para fazer uma curta-metragem, mas acaba por ser um texto demasiado Hugo Valter Moutinho, para ser eu próprio a adaptá-lo. Tem muito de mim ali dentro e tenho medo de me expôr a mim próprio na curta-metragem. Já o fiz uma vez, não sei se quero repetir a proeza...

2004

agosto 17, 2004

I DON’T KNOW MY NAME

A primeira reflexão.
A primeira tentativa de usar a escrita como forma de fuga, de exprimir os meus pensamentos, as minhas frustações e fúrias.
Começa a aparecer o péssimismo negativista que vinha a caracterizar o meu estilo e a minha meneira de pensar, tal como aparece pela primeira vez a palavra "Morte".
Apesar de ser um texto dos finais de 1996, continuo a pensar muito assim, o que significa que pouca coisa mudou para mim neste sentido.


I DON’T KNOW MY NAME
AND I DON’T KNOW WHO I AM EITHER

Não sei o que se passou comigo no ano passado. Sei que andei perdido, cheguei a estar desesperado, sem saber o que fazer.
O que ando aqui a fazer?
Porque é que tenho de viver se vou morrer?
Estas foram, talvez, as perguntas que me fizeram perder de mim mesmo. Se calhar perdi-me à procura das respostas dessas perguntas. Respostas que nunca cheguei a encontrar, talvez porque este mundo não tenha respostas para nada.
Procurei, também, encontrar uma fuga para estas questões, mas só serviu para me perder ainda mais. Cheguei a um ponto que já não sabia o meu nome, nem quem eu era. Precisava saber o que andava cá a fazer, eu não pertencia a este mundo ingrato, injusto e estranho.
Andei perdido e desligado de tudo que se passava à minha volta, tornei-me um verdadeiro zombie. Não sabia o que fazia, nem porque fazia. Cheguei a perguntar à morte porque é que me deixou naquele suplício e ainda não me tinha levado daqui embora. Queria morrer, pois este mundo não foi feito para mim.
Até que cheguei a uma conclusão: Sou um ser vivo!!! Eu posso pensar, andar, falar, etc. Terá sido nessa altura que acordei para o mundo, que me encontrei. Mas não estava contente comigo mesmo, alguma coisa estava errada, precisava de mudar.
Decidi mudar o meu visual, ser diferente dos outros, ser eu próprio, mostrar aos outros que estou vivo e que não sou nenhum burro, se calhar até mais espertos do que eles.
Furei a orelha, a esquerda para evitar qualquer problemas de tendências sexuais, mudei a minha atitude, apanhei o cabelo; precisava de me mudar, ser diferente do que era.
Posso ainda não saber quem sou, nem o meu nome, mas sei que sou diferente dos outros, sou único, não há ninguém igual a mim, nem nunca há-de haver.
Sou uma pessoa que não receia a morte, mas já não imploro que ela me venha buscar, quando morrer morri e já nada mais há a fazer. Agora só quero viver a minha vida sossegado e dedicar-me aquilo que gosto mais, fazer aquilo que sempre sonhei fazer.
Embora não haja paz neste mundo, que não é o meu, eu vivo em paz e não quero que ninguém me tire essa paz, essa solidão, essa tristeza, porque isso tudo sou eu, e se me tiram alguma dessas coisas, estão a tirar um pedaço de mim, isto é, a antecipar a minha morte.
Sei que tenho gostos esquisitos e que me acham maluco, e o que é que eu sou senão um maluco? Às vezes os malucos são mais inteligentes que as pessoas sadias. Eu sou o que sou e ninguém pode mudar isso.
Ainda não sei o que ando a fazer aqui, nem o que tenho de fazer aqui, mas sei que já me encontrei e já me dou por satisfeito.
Posso não ser uma pessoa feliz, mas também não quero, porque a felicidade só traz tristeza.
Não me resta mais nada, senão curtir a vida à espera que a Morte me faça a sua visita fatal.

I don’t know my name and I don’t know who I am either.
1996

agosto 16, 2004

Sombra

Na sequência de "Eco" nasce uma outra vertente da mesma metáfora.
É um bocado o explorar da mesma ideia, mas desta vez de um modo introspectivo... um ano mais tarde.


A SOMBRA
Eu andei sempre sozinho no mundo. Nunca tive muitos amigos e os que tive foram curtas amizades. Raramente falava com alguém e normalmente só falava em último recurso. Para comprar comida, por exemplo.
Mas, à uns tempos atrás reparei que alguma coisa me andava a seguir. Perseguia-me por todo o lado, em qualquer lado que ia sentia a sua presença. Mas às vezes de noite desaparecia, o que me deixava curioso.
Então aí reparei que afinal não andava sozinho no mundo e que tinha alguém que me seguia sempre. Alguém que se torna forte em dias de sol, mas também fraco à noite.
Desde então a minha vida mudou radicalmente e, hoje, já tenho alguns amigos. Mas o meu melhor amigo sempre foi, e sempre será, aquele que, embora não possa falar, sempre me acompanhou desde o principio e que me acordou para a vida.
Como ele não pode falar, sinto-me na obrigação de lhe dar um nome. Acho que lhe vou chamar.... — SOMBRA.
1996

Eco

Um dos meus primeiros ensaios na escrita.
Ah! Ah! Ah! Que naif!
De qualquer maneira é interessante reparar que a metáfora aparace desde os meus primeiros textos.


ECO

Eram 3:30 da manhã, ela ia sozinha pela rua. Antigamente não era perigoso, mas nos dias de hoje é preciso tomar todas as precauções.
Ela ia preocupada, receando sempre que alguém viesse por trás e a atacasse.
Subitamente ouviu passos por trás dela, virou-se e.... Nada, absolutamente ninguém. Continuou e os passos voltaram. Voltou-se novamente. Ninguém. Começou a correr e os passos acelararam. Desesperada parou e gritou: “Isto é uma brincadeira de mau gosto?”
Como resposta obteve só um eco.
Suspira! Afinal aquela perseguição e aqueles passos eram só um eco. Tinha-se preocupado à toa.
Prosseguiu o seu caminho calmamente.
Passado um bocado um grito estridente rompe o silêncio, um grito de dor, angústia, medo, susto.

Nada mais se soube sobre ela.
1995

agosto 15, 2004

Crime Ensanguentado (II)

Tal como todos os filmes de classe B, tinha de haver uma sequela (note-se que na altura as trilogias ainda não estavam na moda...), se possivel pior ou na continuação da anterior, mas nunca melhor. Ah! Claro! Tinha de haver mais litros de sangue, se não o Produtor não dava o dinheiro....


CRIME ENSANGUENTADO II
A Vingança

Dia: 18 de Novembro.
Depois do que aconteceu às 8:30 e de terem retirado o resto do corpo da Joana do corredor tudo parecia calmo e resolvido mas....
10:20 - Estávamos na aula de Filosofia tocou e fomos todos para o bufete. Estava cheio de gente até parecia que estavam a dar bolos de graça.
Espera. Estavam mesmo a dar bolos de graça!! Eu corri para o meio da confusão e depois fui uma luta terrível no meio de gritos, murros e pontapés. Azar do caraças, quando cheguei só lá estava um tabuleiro cheio de migalhas. Desolado sai do meio da confusão e fui ter com a Susana.
Íamos a sair do bufete quando demos de caras com a Inês. Esta empurrou a Susana para a parede e não é que a vi a sacar uma carabina. A Susana quando viu este "objecto" fugiu. A Inês foi logo atrás dela, se eu não soubesse que era a Inês teria dito que era o Schwarznegger, e consegue apanha-la. Susana desesperada tentou fugir novamente e como não conseguiu pegou num latão do lixo e atirou-o contra a cabeça da Inês.
Esta caiu no chão redondamente. Susana foi a correr para o gabinete da Médica Escolar. Lá falou com a médica e pediu-lhe um instrumento para curar uma pessoa que tivesse partido uma perna e passado uns momentos saiu do gabinete com uma moto-serra. Foi ter, então, com a Inês que continuava K.O. e tentou ligar a moto-serra, mas não conseguiu. Tentou, com sucesso, novamente e Susana, sem dó nem piedade cortou a Inês em quatro pedaços.
Acabado o serviço estava outra vez a escola toda à volta da Susana.

— Bravo!
— Parabéns!
— Que bela fotografia que isto dava.
— Até parecia real.

Susana conseguiu escapar viva desta, mas tinha um grave ferimento no braço. Eu ainda tentei tapá-lo para a médica escolar não o ver, mas já era tarde, pois já vinha a médica com uma poderosa faca "guinso" de aço inoxidável endurecida a lazer.
Susana fugiu e a médica foi atrás dela, mas eu passei-lhe uma rasteira fazendo-a cair. Por azar caiu mesmo por cima do facalhão, que lhe trespassou o coração.
Os professores e alunos ficaram tão contentes com a morte da médica que durante o dia todo não houve mais aulas.

Felizmente acabou tudo em sangue. Ah! Ah! Ah! Ah! Ah!
Não percam a próxima história deste vosso anfitrião...
1994

Crime Ensanguentado (I)

É estranho para mim deparar-me com esta pequena relíquia. É um verdadeiro exemplo dos meus devaneios sanguíneos. Escrevi a primeira parte numa manhã e a segunda parte na tarde seguinte, num dia em que duas colegas minhas se tinham chateado. Foi o mote de partida.
Embora já me pareça um pouco infantil, acho que não lhe alterava uma única vírgula, porque realmente ainda continuo a ver as coisas assim. Nota-se aqui perfeitamente a minha grande influencia dos filmes gore e dos grandes clássicos de terror. Obrigado Fantasporto!




CRIME ENSANGUENTADO


Estávamos a meio do mês de Novembro, era dia 18.
8:15 - Eu, como de costume, fui-me encontrar com a Susana.
A caminho da escola ela contou-me que estava zangada com a Joana, pois ela não a tinha convidado para os anos dela.
8:30 - Estávamos sentados à espera da "stôra" e então chega a Joana. A Susana levantou-se e foi ter com ela.
O principio da conversa não pude ouvir, mas quando a conversa ia a meio ouço a Joana a dizer:

— Ah! Sua cabra. Hipócrita és tu, minha puta.

E pega rapidamente numa picareta que estava dentro de um armário e vai em direcção à Susana, mas esta rápida como uma gazela consegue fugir e pega num machado que estava no mesmo armário. (Peço desculpa por esta interrupção mas é preciso salientar que aquele armário dizia: "Material da Médica Escolar"). Nesta altura Joana tenta atacar novamente, mas Susana, num rápido movimento consegue cortar-lhe a cabeça. Joana caiu inerte no chão jorrando sangue pelo pescoço. Estava morta.
Susana exausta vira-se e estava a escola toda a olhar para ela a aplaudir.

— Bravo!
— Bis!
— E eu que me esqueci da camcorder.

A "stôra" chegou entretanto e a aula começou.
A aula correu maravilhosamente, excepto para a Inês que jurou vingança. Mas isso é outra história.

Não percam o "Crime ensanguentado II"


1994

Prólogo (II)

Sobre a Morte

Curiosamente a Morte é uma presença muito constante nos meus textos. Houve alturas em que me preocupei sériamente com isso. Depois perguntei-me porquê, porque raio eu sismava com uma personagem tão sombria. Talvez influências do Sétimo Selo de Igmar Bergman, muito provavelmente, mas após grandes investigações introspectivas e algumas viagens ao baú das memórias (e com isto tudo alguns anos de amadurecimento) descobri que todos nós precisamos de acreditar numa salvação, algo que nos vai tirar da miséria do mundo em que vivemos. Há quem acredite no céu, na luz divina, no paraíso, em Deus... eu acredito na Morte, ela é o meu deus.
Descobri, depois, um facto muito curioso, a metáfora de morrer, ou seja, reparo que a procura da Morte nos meus textos está associada a vários factores, morrer significa: paz, silêncio, descanço e, acima de tudo, sossego. Isto pelo lado positivo, porque pelo lado negativo significa: solidão, desespero, abandono e claustrofobia.
A partir do momento em que consegui descodificar o significado da Morte nos meus textos, consegui respirar e descançar melhor mas, infelizmente, também deixei de escrever com tanta regularidade....