janeiro 10, 2008

Nem ao pior inimigo se deseja

Quando o meu pior inimigo se virou para mim depois de uma luta intensa por cima dos telhados do Bairro do Bom Pastor e disse que se ia casar, eu dei-lhe os meus sinceros pêsames.
Ele pousou a cabeça no meu ombro e chorou.

Crédito para uma morte feliz

Há dias em que me apetece dar um tiro na cabeça!
Como não tenho arma, deparo-me com um dilema:
Mesmo que consiga juntar dinheiro para comprar uma arma,
Nunca chegarei a ter dinheiro suficiente para comprar munições.

dezembro 28, 2007

Anjo Mortal

Mataste-me naquela festa, onde te encontrei passados uns anos. Naquele momento em que os meus olhos pousaram em ti e sorri, tu retribuíste-me um sorriso sincero, mas os teus olhos traziam amargura. Foi nesse exacto momento que morri.
Recordava-me de ti com um sorriso aberto, os teus olhos vibravam ao sabor dos teus cabelos e eras eléctrica como uma formiguinha que tinha encontrado um doce.
Via-te como um anjo alegre com quem tinha partilhado alguns bons momentos, que retive saudosamente no meu baú da memória. Mas naquela noite tudo mudou.
Mataste-me sem saberes, espetaste-me uma faca no coração e entristeceste-me as entranhas. Nesse momento as imagens idílicas que se encontravam no baú entraram em combustão e carbonizaram-se. A cor do teu cabelo, o teu cheiro, o teu rosto e todos os teus sorrisos, deram lugar a uma imagem triste e melancólica.
Morri naquele momento exacto em que me apercebi que o tempo tinha passado por nós, cobrindo a nossa curta e breve relação, que a vida tinha sido tão dura para ti como foi para mim, que tu tinhas amadurecido (quiçá envelhecido) e já não eras o anjo alegre e inocente que jazia no meu baú das memórias. O anjo do baú deu lugar a um ser humano, as imagens alegres transfiguraram-se em dias de tempestade, da felicidade para a agonia, a esperança virou-se para o desespero, o sonho diluiu-se com tudo o resto.
Morri exactamente por isso. Ao perceber que já não poderíamos voltar a repetir o passado, que já não éramos iguais, que a vida nos separou cruelmente.
E tu mataste-me ao mostrar que afinal não eras um anjo, mas um simples ser humano, mortal, como todos nós.

dezembro 02, 2007

Confettis

O espectáculo tinha acabado. Os miúdos rompiam furiosamente pelo o palco a convite dos palhaços. A anarquia estava lançada. Correrias, gritos estridentes e empurrões, reinavam naquela barafunda de miúdos eléctricos que pulavam pelo palco como se estivessem a ser electrocutados. Todos queriam brincar com o Urso Bob, o carro com luzes que piscam e a boneca que lança confettis.

Marlene, de 6 anos, apreciava esta cena de longe. Tinha ido ao teatro acompanhada pelos pais, enquanto todos os outros miúdos tinham sido levados pelo colégio que frequentavam. Era a única criança que tinha ido “sozinha” ao teatro, ou pelo menos era assim que se sentia. Apreciava a saudável anarquia que se passava à sua frente e olhava de vez em quando para a boneca que lança confettis.

Era uma boneca grande, muito engraçada que de vez em quando “cuspia” confettis enfeitando o palco com pequenas fitas que desciam lentamente como se de neve se tratasse. Era sem dúvida a atracção preferida dos miúdos. Os olhos de Marlene entristeciam. Também ela gostaria de ir brincar com a boneca. “Mas nunca com aqueles selvagens!”, pensava, “Estou muito melhor aqui ao pé dos meus pais, que gostam de mim e me protegem.”

De repente o mais inesperado aconteceu. Os pais de Marlene perguntaram-lhe se ela não queria ir brincar para o palco. Marlene ficou aterrorizada, branca, as suas feições transfiguraram-se, as suas pernas tremiam enquanto se encolhia lentamente no pequeno degrau onde estava sentada.

Não! Isso nunca!, pensava, Ir ali para o meio daqueles selvagens, que não conhecia de lado nenhum, para aquelas bestas que só sabem gritar, saltar e correr como loucos, empurrando tudo e todos os que tivessem à sua frente. Não! Ainda se podia magoar. Não! Não queria saltar para o palco e ser espezinhada por um grupo de miúdos raivosos, que além de lhe baterem (e talvez a matarem à paulada) ainda a cortariam em postas para ser devorada pelo Urso Bob. Não! Isso Nunca!

Os pais estranhando este tipo de comportamento vindo de Marlene, tentavam perguntar o porquê daquela súbita atitude. Tentavam convencê-la a ir para o palco com palavras mas a pequena Marlene limitava-se a abanar furiosamente a cabeça e a encolher-se mais no seu pequeno degrau. Não! Já tinha dito que não. Olhou mais uma vez para a boneca. Era uma boneca linda e no fundo do seu coração Marlene queria ir brincar com ela e dançar no meio da chuva de confettis, mas nunca com aqueles animais ali aos saltos. Feito isto, pequenas lágrimas escorreram pelo pequenos rosto de Marlene. Um sensação muito confusa passava-se dentro de si; por um lado queria ir brincar, mas por outro sentia medo daqueles estranhos que não conhecia de lado nenhum. Preferia ficar ali ao pé dos seus pais, pois assim estaria protegida, mas os pais não pareciam querer isso. Afinal queriam que ela fosse para o meu daqueles loucos. Levantaram-se calmamente e perguntaram mais uma vez se ela não queria ir brincar para o palco.

Se pequenas lágrimas escorriam pelo rosto de Marlene, agora corriam ininterruptamente. Marlene não queria acreditar no que os seus próprios olhos estavam a ver: os seus próprios pais, que a deviam proteger e amar, queriam forçá-la aquilo que do seu ponto de vista inocente lhe parecia ser a morte certa. Não! Não queria ver o seu sangue a escorrer pelo palco, enquanto os outros miúdos se deliciavam naquilo que bem podia ser uma cabidela de Marlene. Não queria ser degolada pelo carro com luzes que piscam atirado ao ar por um puto raivoso. Não queria ser esquartejada pelo Urso Bob enquanto os seus pais se riam sadicamente de tudo o que se estava a passar. Não! Não podia ser verdade. Os seus próprios pais não lhe podiam estar a pedir para ir brincar para o palco! Não!

Os pais apercebendo-se do pânico de Marlene, voltaram a sentar-se, conversaram um pouco com ela e disseram que estava tudo bem, se ela não queria ir, também não era obrigada. Marlene sentiu-se um pouco mais confortada, afinal os seus pais já não a queriam comer cozida no seu próprio sangue, afinal eles ainda gostavam dela. Mas aparte disso ela ainda queria ir brincar com a boneca, mas nunca com aquele bando de canibais ali e sabia que eles tão cedo não sairiam de lá . “Haviam de morrer todos”, pensou, “Haviam de morrer todos queimados. Devia haver um incêndio e eles morrerem todos carbonizados.”

Um pequeno sorriso brotou na face de Marlene. Imaginando a boneca a cuspir confettis de fogo, fez um sinal aos pais de que queria ir embora e levantou-se calmamente vendo os confettis a arder, caindo lentamente sobre os miúdos que corriam e gritavam em pânico com as costas em fogo. Sim, continuavam a correr e a gritar, mas desta vez não era de contentamento, mas sim de dor e desespero, caminhando para uma lenta e agoniante morte.

Calmante Marlene abandonou a sala levando um sorriso estampado na cara, que muito intrigou os seus pais. No palco a cabeça do Urso Bob, despregada do seu corpo em chamas, caía sobres os pequenos corpos em chamas que jaziam agora num silêncio dourado.

outubro 10, 2007

Olhos Azuis

I


António Joaquim tinha acabado de chegar a casa. Entrou calmamente pela cozinha adentro, o seu cão Nero veio ter aos seus pés abanando a cauda com contentamento enquanto Maria Josefina, sua mulher, estava na banca a trabalhar, manuseando cuidadosamente um grande prato de barro. Ele aproximou-se sorrateiramente dela e passou-lhe a mão pelo corpo, mas ela assustou-se, deixando descair o prato de barro. Os dois ficaram frente a frente impávidos com aquela estúpida situação. António Joaquim tentou fazer uma leve festa no rosto de Josefina, como que a pedir desculpas, mas esta afastou bruscamente qualquer tipo de aproximação de António, não queria qualquer tipo de piedade naquele momento. O seu melhor prato de cozinha estava estragado e a situação não estava favorável para comprar louça nova, ainda por cima de barro.
Maria Josefina pegou lentamente no prato, examinando-o ao pormenor. Sim, estava rachado. Lentamente dirigiu-se para a porta e, sem olhar para trás, saiu deixando António Joaquim abandonado.


II


Os anos passaram. O casal tinha agora uma filha de 8 anos. Maria Josefina estava na cozinha a limpar o seu lindo prato de barro com um enorme pano azul. Levantava-o, revirava-o e tornava a puxar-lhe o lustre. Era um ritual quase diário.
António Joaquim estava sentado junto à lareira e olhava fixamente para a sua filha, Kátia Banessa, que se encontrava no sofá a ler um livro de quadradinhos com o Nero a descansar aos seus pés. Tinha abandonado o emprego à quatro anos atrás e raramente ausentava-se de casa. Havia algo naquela menina que o hipnotizava. Eram aqueles grandes e brilhantes olhos azuis. Uns olhos azuis tão claros como o céu aberto e tão profundos como o mar calmo. Joaquim quase não se mexia, limitava-se a olhar fixamente para a menina. Kátia Banessa levantou os olhos e sorriu para o pai. Um sorriso puro e inocente como só uma criança o pode fazer.


III


Maria Josefina tinha acabado de pôr a comida na mesa, Kátia Banessa comia calmamente a sua sopa e António Joaquim, sentado no canto da mesa, apreciava lentamente este cenário. Olhou distraidamente para Josefina, lá estava ela novamente a endireitar o prato de barro, já quase não falava com ele, aliás, desde que aquele prato se tinha rachado uns anos atrás que ela nunca mais foi a mesma para com ele. Suspirou e volveu o olhar para a menina, paralisando de repente como se tivesse sido hipnotizado, ficando a colher da sopa a meio caminho entre o prato e a boca, gotejando lentamente.
Kátia Banessa continuava a sorver lentamente a sua sopa, mas aqueles olhos azuis… aquele azul contrastava com o castanho da sopa, de tal maneira que parecia um acto de magia. Uns olhos azuis tão claros como o céu aberto e tão profundos como o mar calmo.


IV


António Joaquim estava de frente para o espelho e examinava atentamente as suas feições. Passava a mão pela cara e pelo cabelo, aproximando-se de vez em quando do espelho como se quisesse ver para além dos olhos.
Procurava algo, alguma explicação. Havia algo de errado, algo de estranho, algo de mágico, algo de inexplicável. Desde que aquele prato se tinha rachado aquela casa nunca mais fora a mesma, Josefina nunca mais foi a mesma. E aquela menina? Aquele pequeno anjo que raramente abria a boca, mas que enchia qualquer lugar com a sua simples presença. António Joaquim nunca mais foi o mesmo desde que aquela menina nasceu.


V


Kátia Banessa brincava cá fora com o Nero, simulava que lhe atirava a bola, enervando o cachorro que saltava, ladrava e resmungava com toda aquela brincadeira, mas quando ela soltou finalmente a bola, o cão saiu disparado como uma bala, galgando pelo jardim fora.
Maria Josefina encontrava-se à janela da cozinha a limpar o famoso prato de barro. Virava-o e revirava-o, suspirando de quando a quando.
António Joaquim estava sentado na mesa do jardim, olhava fixamente para Kátia Banessa, o cigarro queimava-se na sua mão imóvel, a cinza ia caindo em pequenas parcelas sobre a mesa. Aqueles olhos azuis, tão claros como o céu aberto e tão profundos como o mar calmo, hipnotizavam-no. Hipnotizavam-no desde o primeiro dia em que os viu. Tinham passado uns meses largos desde que o prato se tinha rachado quando Kátia Banessa nasceu, a sua relação com Josefina era estranha mas estável e estavam ambos ansiosos com o facto de irem ser pais, mas quando a bebé começou a abrir os olhos e mostrou todo aquele azul reluzente, o casal ficou surpreendido. António Joaquim ainda pensou ao início que se tinha dado um milagre e que deus lhe tinha enviado um anjo para a sua guarda. Maria Josefina ficou assustada e desde esse dia tornou-se uma mulher cabisbaixa, mal dirigia a palavra a António Joaquim e passava o tempo todo agarrada àquele prato, suspirando.
Com o passar do tempo a ideia do milagre tornava-se cada vez mais idiota na cabeça de António Joaquim e a imagem de anjo da menina tornava-se cada vez mais numa imagem de demónio. Quatro anos depois abandonou o seu emprego.


VI


O prato de barro encontrava-se no chão dividido em duas partes no meio das batatas fritas que se tinham espalhado pelo chão. Kátia Banessa olhava tristemente para o pai, com o prato aos seus pés. António Joaquim olhava para o chão, incrédulo. O prato preferido de Josefina estava partido! Maria Josefina apareceu de repente, sem ninguém dar conta e, quando se deparou com o prato partido, as lágrimas quase lhe saltaram aos olhos, olhou para a sua filha e passou-lhe a mão pela cabeça. Kátia Banessa olhava para ela quase a soluçar, aqueles olhos azuis tornaram-se num símbolo de piedade. Josefina baixou-se rapidamente e apanhou as duas partes do prato, levantou-se tentando juntar as partes e dirigiu-se para a porta sem tirar os olhos do prato. António Joaquim puxou Kátia para a sua beira e esta agarrou-se fortemente a uma das suas pernas. Era a primeira vez que Joaquim a abraçava e soube-lhe bem.


VII


António Joaquim estava novamente sentado no jardim a fumar um cigarro quando a campainha tocou. Quem seria àquela hora, pensava enquanto se dirigia à porta, já não se lembrava da última vez que tinha ouvido a campainha a tocar. Abriu a porta e do outro lado estava um rapaz que lhe estendia um prato de barro. Era o restaurador que trazia o prato arranjado. António Joaquim olhou atentamente para o prato, era um trabalho de restauro perfeito, não se via nenhuma racha, nenhuma folga, nenhum indício que aquele prato se tinha partido. Olhava admirado para tal obra de arte, Maria Josefina iria ficar contente com aquele trabalho, pode ser que a voltasse a ver sorrir.
Joaquim voltou-se para agradecer ao restaurador, quando, de repente, o seu rosto fica visivelmente transtornado. O grande prato de barro estilhaçou-se ruidosamente no chão em mil e um pedaços, o corpo de António Joaquim tremia compulsivamente, a cabeça transpirava pequenas cascatas de água, os olhos transportavam o horror, o seu rosto ganhou contornos cadavéricos. Os olhos…. Aqueles olhos… Os olhos do restaurador eram azuis. Uns olhos azuis tão claros como o céu aberto e tão profundos como o mar calmo.

março 27, 2006

Aqui não há inocentes!

Esta reflexão foi publicada no blog do Clube dos Pinguins, porque achei pertinente, na altura, desabafar algumas ideias e reflectir sobre isso.
Acabei por gostar do resultado final e por isso publico-o aqui também, até porque é muito raro eu escrever criticas de cinema, apesar de ser uma das minhas grandes paixões.

Há já muito tempo que não via um filme tão bom como o Crash e devo admitir que dei pulos de alegria quando soube que este tinha ganho o Óscar® de melhor filme. Raros são os filmes que me deixam a pensar e ficam a remoer durante bastante tempo.
Crash é um filme intenso com uma enorme carga dramática, mas sem ser demasiado lamechas ou profundamente intelectual. Podemos dizer que a carga dramática está no ponto. Conta com o apoio de um excelente elenco (Sandra Bullock forever!!) que por sua vez é superado por um fantástico e suberbo Matt Dillon, que, permitam-me a expressão, "Puta que o Pariu!!!" (Não é que o Philip Seymour Hoffman não merecesse o Óscar®, muito pelo contrário! Só que Matt Dillon não lhe fica atrás...)
Crash trata de um tema tão emergente e perigoso como a xenofobia numa cidade sob tensão que é Los Angeles (Não podemos esquecer o caso de Rodney King em 1992).
Com o passar do filme começei a ficar com a sensação de que a xenofobia só existe porque nós a permitimos. Com os nossos medos, as nossas fobias, os estéreotipos e os falsos preconceitos que nos são incutidos deste muito novos. Temos tendencia logo à partir de tirar juizos de valor das pessoas, muitas vezes nem sempre são correctos e se olhamos para uma pessoa e a julgamos uma marginal e essa pessoa está inocente, então o culpado somos nós! Assim seremos nós os xenófobos e a pior xenofobia é a inconsciente (e a inconsequente...)! Sim, é verdade! Todos nós somos xenófobos, conscientes ou não... Estamos sempre a pensar no nosso prórpio umbigo, sentados no nosso sofá, a ver a nossa televisão, na nossa casa que sempre que encontramos alguém que não tenha essa sorte a descriminamos, desprezamos ou, ainda pior, gozamos com a situação dela, sem pensarmos nos sentimentos, nos problemas e na dor que essa pessoa pode estar a sentir. Depois quando essa pessoa se farta e vira-se para nós, leva tudo à frente, culpados e inocentes, nessa altura nós chamos-lhe xenófoba ou doida ou seja lá o que for... Mas quem começou fomos nós! (Volto a lembrar o caso de Rodney King...)
Crash passa-se em Los Angeles, mas podia passar-se em qualquer outro lugar. Os medos e os preconceitos lá latentes estão em qualquer parte do mundo e é bom que, de vez emquando, apareçam filmes assim para nos chamar de volta para a realidade e para, de vez em quando, olharmos para nós próprios e perceber que neste mundo todos somos culpados. Se não é pelo que fazemos, é pelo que não fazemos.

janeiro 07, 2005

Barks

BARKS


I


Morbid é uma vila calma, situada à beira mar, a 10 km de Nowhere City. Os seus habitantes vivem sossegadamente a sua pequena rotina fechada, sem grandes ambições e sem nunca terem saído muito da sua pequena vila.
Morbid vivia, basicamente, do turismo e da pesca. Durante o verão ocupavam-se em alugar casas, montar barracas de comes e bebes, animações e tudo o que pudesse interessar aos turistas. No resto do ano pescavam e tratavam das suas pequenas hortas, não só para ocuparem o tempo, mas também para terem alguma comida, pois o dinheiro que a vila ganhava no Verão dava-lhes subsistência suficiente para o resto do ano.
Madame Delacroix era um travesti, uma daquelas personagens que toda a vila conhecia. Ninguém gostava muito dela, era uma pessoa má e mesquinha, que estava sempre a meter-se na vida dos outros. Trabalhava à noite num bar de travestis e raramente era vista durante a luz do dia, tirando algumas vezes que aparecia na janela de sua casa. Vivia num belo edifício mesmo em frente ao castelo, no centro costeiro da vila. Sabia tudo sobre todos, sabia os segredos mais secretos da vila e à custa disso já tinha “queimado” muito boa gente de Morbid.
Mas Madame Delacroix não era a única personagem estranha na vila, havia uma outra personagem ainda mais estranha, muito mais enigmática e de quem muitas pessoas tinham medo: Robert Barks. Ninguém sabia onde Barks trabalhava, nem sequer o que fazia, mas sabia-se que vivia sozinho, saía de casa todos os dias às onze horas da manhã, passava pela tabacaria, comprava o jornal e um maço de tabaco, entrava no café “Royal Break”, tomava o seu café e lia o jornal. Isto tudo num espaço de 30 minutos exactos. Às onze e meia abandonava o café em direcção ao seu carro e às onze horas e cinquenta e dois minutos exactos passava a portagem de Morbid em direcção a Nowhere City. Não se sabia mais nada a respeito de Barks, a não ser que chegava todos os dias às sete da tarde, entrava em casa e só voltaria a sair às dez da noite para dar um passeio perto do castelo. Normalmente regressava a casa por volta das onze menos um quarto, o tempo de dar a volta ao castelo, olhar o horizonte e fumar dois cigarros. Sim, Barks era de uma exactidão horária tal, que Nicholas, seu vizinho, acertava os seus relógios por ele. Às vezes demorava um pouco mais, sentava-se num banco perto do castelo a pensar e a fumar mais um cigarro, regressando a casa às onze horas e doze minutos exactos.
Poucas pessoas cruzavam-se com Barks nessa altura. Madame Delacroix era uma delas, costumava sair de casa por volta das onze horas e às vezes ainda apanhava Barks, quando este resolvia dar um passeio mais longo.
“Sempre com o seu andar vagaroso, pensativo, mas com um olhar tenebroso, sempre que olha para mim arrepio-me. Aquele homem mete medo. Ninguém sabe o que ele faz, nem quem ele é. Acreditem em mim, não se metam com ele, é uma pessoa perigosa!” dizia Madame Delacroix às pessoas, que raramente lhe davam ouvidos, mas todas concordavam que Barks era uma pessoa estranha.
Barks também não gostava de Madame Delacroix. Achava-a asquerosa, mesquinha e intrometida. O facto de ela estar sempre a meter-se na vida dos outros era, para ele, repugnante. Por isso, sempre que se cruzava com ela, lançava-lhe um olhar aterrador e divertia-se imenso, sem o demonstrar, quando ela reparava no seu olhar e começava a tremer. Gostaria de pensar que Barks dava, às vezes, o seu passeio mais longo, só para se cruzar com Madame Delacroix e lhe deitar os seus olhos de fogo e com isso regressar mais alegre a casa.
II
Numa noite, como de costume, às dez horas da noite, Barks saiu para o seu passeio habitual. Dirigiu-se para o castelo e acendeu um cigarro. Subitamente algo fez despertar a sua atenção. Um pequeno ruído que vinha perto do castelo. Barks desviou-se ligeiramente da sua rota habitual para investigar um pouco melhor aquele ruído. Qual não é a sua surpresa ao reparar que é um pequeno grupo de cães que se encontrava ali. Barks estava farto de saber que aquele grupo de cães estava sempre ali, passava por eles todos os dias e normalmente faziam-lhe companhia quando se sentava no banco a apreciar o horizonte, mas mesmo assim ficou surpreendido por ter reparado neles e disso o ter desviado ligeiramente do seu curso habitual. O que seria de tão estranho para ter desperto a sua atenção, naqueles cães, pensava Barks. Pareciam famintos, mas eles costumavam alimentar-se dos restos que sobravam da feira e das pequenas coisas que as pessoas caridosas lhes davam enquanto passeavam e viam as bancas. Pois, mas naquele dia de tarde tinha despertado um temporal e provavelmente não houve feira, pensava Barks, as pessoas também não devem ter passado muito por ali. Desgraçados dos bichos…
Então, pela primeira vez em Morbid, aconteceu algo de inacreditável. Barks quebrou toda a sua rotina e regressou rapidamente a casa, recolheu os restos de arroz que haviam sobrado do seu jantar e voltou para o castelo.
*
Nicholas, o seu vizinho, sentiu algo de estranho. Passavam pouco das dez e meia e já sentia Barks a entrar em casa. Correu velozmente para a janela e viu Barks a entrar em casa. “Tão cedo..., pensou, Isto não é bom sinal. Vem aí algo de desagradável.”
Ainda estava Nicholas a perguntar-se o porquê desta mudança súbdita e a pensar como é que haveria de acertar os seus relógios se Barks começasse a mudar de hábitos, quando este volta a sair de casa, desta vez com um saco de comida, dirigindo-se rapidamente para o castelo. “Isto é muito estranho! Isto não me agrada nada! Um dia de temporal, noite de lua cheia! Isto não me agrada nada!” Fechou as janelas a correr e voltou-se a sentar no sofá, rezando para que não se passasse nada.
*
Barks regressava ao castelo. Chegou à beira dos cães e começou a abrir o saco de comida quando se sentiu observado. Olhou à sua volta rapidamente parando o seu olhar no prédio de Madame Delacroix. Ali estava ela no seu terceiro andar, olhando fixamente para Barks. Envergava um enorme vestido vermelho, esguio, cheio de plumas e folhos. Provavelmente também ela tinha estranhado a atitude de Barks e, curiosa como era, estaria atenta ao que se passava e receosa do que poderia sair daquela pessoa.
Barks parou e ficou a olhar fixamente para Madame Delacroix. O seu primeiro instinto foi pegar nas coisas e seguir caminho. Aquela vaca não precisava de saber o que ele ia ali fazer, pensara ele. Conteve-se, virou costas e forneceu a comida aos cães que, num ápice de gula, fome e contentamento correram em sua direcção, devorando cobiçosamente o regalo dos deuses. Barks sorriu. Era raro sorrir, salvo quando fazia cara feia a Madame Delacroix, coisa que lhe dava um enorme prazer. Acendeu um cigarro e olhou novamente para o prédio de Madame Delacroix. Ela continuava ali a olhar fixamente para ele, parecia que nem se tinha movido, estava precisamente na mesma posição e com o mesmo olhar. Barks torceu o nariz, aquela mulher não era de confiança, mas não lhe podia mostrar apreensão, isso seria a glória de Madame Delacroix. Olhou para o relógio e reparou que já eram quase onze horas, só tinha mais doze minutos para o seu passeio. Com um aceno suave e um sorriso amarelo de orelha a orelha despediu-se de Madame Delacroix, a qual também não fraquejou e ficou rigorosamente na mesma posição, sem qualquer reacção. Parecia uma morta, pensou Barks enquanto retomava a sua rota habitual. Sentou-se um pouco no banco para apreciar o horizonte enquanto fumava mais um cigarro.
*
Nicholas ouviu Barks a regressar a casa. Eram exactamente onze horas e doze minutos. Suspirou de leve, visto Barks permanecer a sua exactidão horária, mesmo assim aquela história continuava a não lhe agradar, mas não podia pensar mais nisso, já eram quase onze e vinte e ele tinha que se aprontar para fazer a recolha habitual do lixo.

outubro 24, 2004

O Drama de Um Editor

O Drama de Um Editor (de Vídeo)


Que raio de profissão eu fui arranjar….
Ninguém imagina os trabalhos que se passa quando alguém pergunta a nossa profissão. Já é complicado de explicar e depois ainda é mais complicado de compreender. Porque é que eu não fui para um, trabalho mais simples? Tipo fotógrafo? Ou DJ? Toda a gente sabe e ninguém faz perguntas.

Eu sou o responsável pelas montagens de filmes, anúncios e tudo o que me chegar às mãos. Ok! Se o meu trabalho é a montagem então eu sou montador. Montador?

- Olá, eu sou montador!
- Andas a cavalo, é isso?
- Montas em quem?
- Isso tem alguma coisa a haver com cabras, ou zoofilia???

Não! Eu não posso chegar à beira das pessoas e dizer que sou montador. Hmmm… Eu trabalho numa mesa de edição e num software de edição de vídeo. Em Inglês Montagem aparece como Editing. Então sou editor, será o mais justo.
Agora imaginem eu sossegado, num bar, a beber um copo e aparece uma rapariga a meter conversa. A conversa começa bem até que chega ao ponto em que ela pergunta:

Ela: O que fazes?

Eu: Sou editor de vídeo.

Ela: Isso é interessante. Então deves ter montes de filmes. E para que editora trabalhas? Para a Prisvídeo? Para a Lusomundo?

Eu: Não. Eu não sou editor de publicações. Sou editor de vídeo. Faço montagens.

Ela: Montagens?? Ahhh… Montas os vídeos! Então também fazes reparações? É que eu tenho o meu vídeo de casa avariado e…

Eu: Não, não! Não é nada disso. Eu não faço a montagem física dos leitores de vídeo. Eu pego nas imagens todas, selecciono-as, corto-as e colo-as umas às outras. Trabalho de pós-produção, sabes? É isso que eu faço, pós-produção.

Ela: Ah! Produtor de vídeo. Mas não me disseste que eras editor?

Ok! Podemos ficar por aqui, porque a conversa vai durar e durar. Vou ter de explicar tintim por tintim a técnica do “corta e cose” para depois no final ela ficar com a ideia que eu passo os dias enrolado em fita magnética com uma tesoura na mão e fita-cola na outra, a “cortar e colar” fitas para depois enfiar tudo numa cassete para fazer um Master em Betacam.

Resolvi desistir de tentar explicar às pessoas o que é que eu faço. Agora tenho duas tácticas. Uma para despistar e mandar embora as melgas, sejam homens ou mulheres, resulta em ambos os casos, experimentem:

- … e então o que é que tu fazes?
- Eu? Sou actor.
- Actor? Porreiro, mas actor de quê? Teatro? Cinema? Novela??? – Perguntam de olhos esbugalhados e sorriso de orelha a orelha.
- Não! Sou actor pornográfico!

Fim de conversa. Sim, fim de conversa. Garantido. Os olhos arregalam-se as pupilas diminuem, o sorriso descai, engolem em seco e não abrem mais a boca a noite toda. Isto se não virarem logo costas…

Outra táctica serve para desviar a conversa para outro assunto. É muito simples, basta dizer uma profissão perfeitamente banal:

- Qual é a tua profissão?
- Trabalho no McDonald’s
- Ahh……….

Ainda há uma pequena possibilidade de perguntar, se for gajo (só para meter nojo…):

- E pagam bem?

Não tenham medo. Basta responder:

- Pagam da mesma maneira que são feitos os hambúrgueres…. Uma merda!

Fim de conversa.
Se for gajo, a conversa passa logo para motas e escapes.
Se for gaja, a conversa passa logo para o preço dos preservativos, se é melhor com ou sem preservativo, se a posição 76 é tão boa como dizem, se a pílula do dia seguinte é fiável, etc. Se tudo correr bem e passarmos esse teste existe uma forte possibilidade de no final se por em prática todo o que se esteve a falar.
Passar por uma farmácia, insultar o preço dos preservativos e cuspir no chão da farmácia. Experimentar com e sem preservativo a posição 76 e depois no dia seguinte tomar a “pílula maravilha” para ver se sempre resulta… (Começo a invejar os gajos que trabalham no McDonald’s)
Esta última é um pouco mais complicada, porque, normalmente, só passado um mês é que recebemos uma chamada telefónica do tipo:

- Olá, sou eu! Lembras-te? A da posição 76? Olha, lembras-te da conversa que a gente teve sobre a pílula do dia seguinte? Afinal, não era bem como tínhamos falado. Não é assim tão segura…

- Foda-se!

setembro 30, 2004

Dedicatória a Camões

Grande Camões, como poderias tu, naquela altura, saber tanto de mim???

O dia em que nasci morra e pereça,
Não o queira jamais o tempo dar;
Não torne mais ao Mundo, e, se tornar,
Eclipse nesse passo o Sol padeça.
A luz lhe falte, o Sol se [lhe] escureça,
Mostre o Mundo sinais de se acabar,
Nasçam-lhe monstros, sangue chova o ar,
A mãe ao próprio filho não conheça.
As pessoas pasmadas, de ignorantes,
As lágrimas no rosto, a cor perdida.
Cuidem que o mundo já se destruiu.
Ó gente temerosa, não te espantes,
Que este dia deitou ao Mundo a vida
Mais desgraçada que jamais se viu!

.....................................................

Os bons vi sempre passar
No Mundo graves tormentos;
E pera mais me espantar,
Os maus vi sempre nadar
Em mar de contentamentos.
Cuidando alcançar assim
O bem tão mal ordenado,
Fui mau, mas fui castigado.
Assim que, só para mim,
Anda o Mundo concertado.


Sim, é verdade. Antes de eu descobrir os "Doors" e o Jim Morrisson se tornar o meu deus, o meu Guru, a minha luz, eu tinha descoberto Luís Vaz de Camões.
Comecei por descobrir os pequenos textos, ditos Sonetos, que toda a gente conhece, "Amor é fogo que arde sem se ver", "Alma minha gentil, que te partiste" e Redondilhas, "Perdigão perdeu a pena/Não há mal que não lhe venha" e quanto mais o descobria mais me apaixonava por ele, mais me encontrava nos escritos dele.
Quando já me tinha rendido à sua magnitude, resolvi pegar nos Lusíadas (dá-se nas escolas, não sei se sabem). É claro que não o li todo, isso seria suicídio para um jovem, mas li as passagens mais importantes e rematei o conhecimento com a ajuda de livros, professores e uma cassete áudio, que me chegou ás mãos pela minha professora de Português Dália Dias, que continha excertos dos Lusíadas narrados com um toque teatral pela voz de João Cardoso, que proporcionava uma deliciosa viagem sobre esta grande epopeia (receio ter perdido o rastro a esta cassete).
Se eu já me tinha rendido à "magia" de Camões, quando tomei, finalmente, contacto com o "interior" dos Lusíadas fiquei completamente de rastos. Automaticamente Camões saltou para o meu pedestal dos deuses.
E quem é que pode esquecer aquela fabulosa cena do espectáculo "Vai no Batalha" do Teatro de Marionetas do Porto em que a marioneta/poeta entra magistralmente em palco pelas mãos do grande Rui Oliveira e diz:

"E agora um breve momento de poesia. (And now for something completely different, diria eu)
De Luís Vaz de Camões... Os Lusíadas.

As Armas e os barões assinalados
Que da Ocidental praia Lusitana
Por mares nunca dantes navegados....
"

Ahhh... Pudera o tempo parar para gozar em pleno estas pequenas relíquias que a história e o pó da memória vão cobrindo e apagando...

setembro 26, 2004

A Corda no Pescoço

Finalmente chegamos ao fim. O texto que deu origem a este blog.
O Teatro é um mundo complicado. Vive-se em constante pressão, sempre em contagem decrescente e o tempo que há nunca é suficiente. "Mais uma semana e isto ficava bem!" é sempre o cliché de uma estreia. É exactamente durante esse periodo que nasce este texto, a menos de uma semana de uma estreia, enquanto se acabam as ultimas alterações no vídeo de cena e o computador nos manda esperar quando nós temos tempo para tudo menos para esperar. A corda começa a apertar e não podem ocorrer erros. Este sofrimento é muito solitário e é dificil encontrar ou falar com alguém que compreenda esse desespero. Acho que este texto é suficientemente elucidativo nesse aspecto.


A Corda no Pescoço

Estou neste momento com a corda no pescoço. Sinto o chão a vibrar por baixo dos meus pés, a ranger, vai e vem...
Sinto um enorme aperto no coração, um aperto indescritível à espera do momento em que o chão me vai fugir dos pés e acabar com tudo.
Pum, Pum, Pum, Pum....
Às vezes peço para que o chão se abra e acabe com todo este desespero. A corda cada vez está mais apertada, já mal respiro. O coração bate cada vez mais depressa.
A espera... A expectativa... O stress... Os nervos... O coração.... O desespero...
Queria adormecer e só acordar quando tudo estivesse acabado, mas não consigo... Os dias passam uns a seguir aos outros e quando acordo reparo que já passou mais um dia e que a corda cada vez mais está apertada.
Às vezes peço para que o chão se abra e acabe com tudo isto.
Olho à minha volta e não vejo ninguém. Ninguém veio assistir ao meu enforcamento. A solidão...
Às vezes sonho com pessoas. Pessoas à minha volta a sorrirem e a abraçarem-me, mas nenhuma me tira a corda do pescoço. Talvez não a vejam, talvez não se importem, talvez não consigam, talvez eu não as deixe... Não sei! Acordo sempre a meio do sonho.
Já não me lembro como era o mundo lá fora. Já não me lembro de nada a não ser dos meus sonhos, mas tenho saudades... Queria voltar ao normal. Será possível? Haverá retorno??? Quanto tempo irá demorar isto???
Às vezes também sonho com o mar... O sol ao fundo alaranjado a desaparecer... O barulho da água... O ar fresco...
Não gosto de sonhar com o mar! Acordo sempre com a cara molhada e eu não gosto de chorar.
Continuo aqui pendurado. A corda já me rasga o pescoço. O chão continua a tremer e a ranger.... Continuo sozinho... Será que um dia isto vai acabar? Decerto que sim, ou o chão finalmente se abre ou o coração pára. Não sei quanto tempo mais ele vai aguentar este ritmo.....
Já perdi as esperanças que alguém apareça para me salvar... Aliás já perdi qualquer esperança... E esta espera mata-me. A espera... A expectativa... O stress... Os nervos... O coração.... O desespero... A solidão... Quanto tempo irá demorar isto???
Não me lembro de quem me pendurou aqui. Nem me lembro como aqui vim parar. Terei vindo sozinho? À força? De livre vontade? Não me recordo....
Tenho saudades de um cigarro a acompanhar uma cerveja. Tenho saudades de fazer festas ao meu cão. Às vezes lembro-me dele e sonho com ele de vez quando.

Tenho saudades dela... Sim, é verdade! Ainda me recordo dela... Tenho saudades dela...

Pergunto-me frequentemente se tudo não terá sido um sonho. Se não estive aqui sempre o tempo todo pendurado a sonhar. E se esta for realmente a realidade? E se tudo não passou de sonhos? O mar... O sol... Os cigarros com cerveja... O cão... e Ela??? Terá sido ela, também, um sonho?

Às vezes peço para que o chão se abra.... Devagar....
9 de Junho de 2003

Regresso

Isto é mais uma reflexão do que ficou para trás, do que um prefácio, mas foi pensado para o prefácio de mais uma história que tinha em mente. Nunca cheguei a escrever essa história e nunca cheguei a ter uma ideia concreta para a avançar, mas a ideia base ainda deambula na minha mente e sei que mais tarde ou mais cedo vou voltar a ela. É inevitável...


31 de Maio de 2001


São 2:16 da manhã. As ideias “flutuam” constantemente na minha cabeça. Tenho saudades de escrever e sinto-me mais uma vez tentado a escrever. Necessito de pôr as minhas ideias em prática e necessito mais do que nunca de descarregar a minha raiva, libertar todo o meu ódio e repulsa que tenho recalcado ao longo destes 2 anos sem escrever.....
Após Nowhere City e Morte e Salvação, sinto que vou continuar na mesma onda e que provavelmente vou voltar a Nowhere City pela terceira vez. Sim pela terceira vez porque cada vez mais acredito que a Morte e Salvação é passado em Nowhere City. Aliás tem todos os ingredientes para isso e o espaço físico é o ideal para a compreensão da história. Então não é em Nowhere City que a morte vive?? E não é ela própria que aparece In loco na Morte e Salvação?? Que dúvidas podem restar? Toda a raiva e morbidez da Morte e Salvação compactuam perfeitamente com Nowhere City.
Sendo assim acho que vou voltar a Nowhere. Mas desta vez será diferente, não vou ser como John em Nowhere City ou William em Morte e Salvação. Desta vez vou tentar conjugar a raiva que há em Nowhere City com a morbidez e o massacre sanguinário de Morte e Salvação e tentar juntá-las numa única pessoa, uma pessoa má, vingativa, sanguinária, tendo algumas parecenças com as personagens anteriores. Será uma pessoa romântica e ao mesmo tempo “desligada da vida” como John e sofredora a quem a vida nunca sorriu. É talvez esta ligação que faz com que esta nova personagem tenha um comportamento tão desumano e egoísta..... Não sei..... Esta será uma questão que eu provavelmente só irei solucionar quando começar a escrever e a criar esta nova personagem....

A Morte..... Mais uma vez a morte..... Sim, sem dúvida.... Ela tem de aparecer..... Como?? Não sei... Ainda tenho de arranjar uma maneira de a integrar. Mas acho que ela vai ser um pouco diferente da Morte de a Morte e Salvação. Desta vez ela, embora mantenha a mesma onda negra e fria, será talvez a femme fatal que dará origem a tudo. Uma mulher sensual... Sim.... Acho que será interessante ver a morte como uma mulher fatal, uma “boazona” e, como todas as “boazonas”, uma grandessíssima cabra.......

São ideias no ar que serão a rampa de lançamento para mais um texto......
2001

setembro 22, 2004

Tabacos

Uma nova tentativa de voltar a escrever um conto. Devido ao "falhanço" das "Crónicas" resolvi deixar o humor sarcástico de lado e voltar à velha formula de morbidez. A minha intenção era recriar alguns contos sórdidos que rondassem o tema do Tabaco, mas a ideia era fraca, faltavam-me temas e motivos, no fundo acho que me faltou a raiva e a fúria de outros textos anteriores, ou seja, a vontade de matar a torto e direito, por isso acabou por ficar só um capítulo completo e algumas ideias soltas....


Tabacos

É certo que o tabaco mata! Também é certo que mais tarde ou mais cedo vamos desta para melhor..... Mas quando se diz que o tabaco mata, pensa-se só nas doenças, nos cancros e noutras causas naturais. Ora, existem muitas outras causas que não são naturais, causas externas ou sobrenaturais, e são essas que eu vou tentar provar aqui. Vou tentar mostrar-vos várias maneiras de morrer por causa do tabaco sem ser por causas naturais....

I

Stephen era uma pessoa calma, sem grandes problemas a atormentá-lo. Tinha apenas um problema... fumava! Gostava de estar em casa, não saía muito. Passava as tardes a ver televisão ou a ler um livro enquanto fumava os seus cigarros.
Um certo dia estava Stephen em sua casa a ler um livro e reparou que não tinha tabaco. Não lhe apetecia sair de casa de propósito só para comprar tabaco, por isso conteve-se e continuou a ler. Passado umas horas Stephen já não conseguia aguentar mais, sentia a garganta seca, o seu corpo tremia sempre que pensava num cigarro e já via as coisas meias desfocadas. Estava mesmo a precisar de fumar um cigarro... Desesperado vai a carteira, confere se o dinheiro chega para o tabaco, veste o casaco e sai a correr de casa. Pára no cruzamento mais próximo, o semáforo está verde para os peões e Stephen atravessa a correr. Nesse preciso momento um carro da polícia, que vinha disparado e tinha passado no vermelho, vira para a esquerda e ouve um estrondo. Pequenas gotinhas de sangue salpicaram o pára-brisas, o carro travou a fundo. Dois polícias saíram a correr do carro, Stephen estava estendido no chão a poucos metros do carro, à sua volta estava uma grande poça de sangue, os seus olhos estavam abertos, mas o seu corpo estava inerte. Stephen morreu poucos minutos depois.....
2001

setembro 20, 2004

Crónicas do Porto

Este texto foi uma tentativa de voltar a escrever um conto. Tentar voltar a reencontrar os meus velhos devaneios e fazer uma história que não fosse mórbida nem rondasse o assunto da morte...
Após algumas ideias expostas, acabei por abandonar a ideia, devido ao "lugar-comum" em que a história se estava a formar. No fundo acho que me apercebi que tinha perdido o dom de criar devaneios que não fossem mórbidos.
De qualquer maneira fica aqui o princípio da história e o Prólogo...

Crónicas do Porto

Prefácio
A verdade é que, após dois anos de interrupção, já tinha saudades de me sentar atrás de um computador e escrever. Foram três anos consecutivos a escrever e de repente, de um momento para o outro, deixei de escrever. Digamos que depois da minha última ficção “Morte e Salvação” tive um certo receio de voltar a escrever. Talvez por ter atingido níveis “filosófico-suicídas” que nunca poderia imaginar atingir. Talvez por achar que dificilmente conseguiria escrever algo tão intenso e real outra vez. Talvez a minha mente, ao ir tão longe, me tenha assustado. Talvez....
Mas, passados dois anos, resolvi sentar-me outra vez em frente ao computador, mas desta vez não me apetece voltar às questões filosóficas, nem à incessante procura pela Morte (tema corrente nos meus últimos textos...). Desta vez resolvi reactivar o meu já saudoso lado negro e voltar ao meu humor destrutivo e critico.
No quotidiano do dia a dia acontecem sempre coisas bizarras e interessantes, algumas delas dignas de serem retractadas ou filmadas.
Foi exactamente esse quotidiano que me motivou a escrever estas crónicas. Tive de voltar aos meus tempos de escola para me lembrar de muitas situações. Tive de ir buscar ao meu “baú mental” recordações já esquecidas pelo pó e pelo tempo. Nunca tinha arriscado escrever crónicas, mas devo admitir que é um teste muito interessante. Nem que seja só pelo facto de voltar a passar por certas cenas já esquecidas....
Julho de 2001
Hugo Valter Moutinho
Capítulo I
Manhã
8:00
Era um dia como todos os outros. Os carros “correm” de um lado para o outro, atarefados para chegarem ao emprego a horas. Ouvem-se algumas buzinas de alguns apressados que tentam sempre passar por cima de todos porque vão sempre atrasados.
Nada de novo.
Ao fundo ouvem-se os gritos provenientes do bairro social:
— Oh José!!!! Joséééééééé!!! Anda cá, caralho!!! Anda cá!!!!!
— Já bou!!!! Calma mulher!! Não bês que eu estava a falar com a Sr.ª Maria?? Tem calma!!!
— Por isso mesmo! Já te disse que não te quero ver com essa vaca!!! Anda mas é para dentro antes que eu te foda a boca.
— Foda-se, mulher! É sempre a mesma merda! Não pode estar um homem a conbersar descansado que...
Fechei a janela. Não me apetecia estar ali a ouvir a conversa dos outros, até porque já sei o que ia acontecer a seguir: Vem a Sr.ª Maria a correr tirar satisfações: «Mas estás a chamar vaca a quem??? Minha grande puta!!! Pensas que toda a gente é como tu??? Que se deita com o primeiro que lhe aparece à frente??? E que já dormiu com todos os homens do bairro??? Eu até tenho pena do teu marido, que já tem que se abaixar para entrar em casa!! Qualquer dia já nem consegue entrar!!!» E depois continua a festa, a outra responde e passam a manhã toda a discutir uma com a outra, enquanto que o homem, aproveitando a deixa, foge para a cama da vizinha do 5º esquerdo.
Nada de novo.
Depois do banho fui tomar o pequeno almoço acompanhado pela minha fiel companheira que, excitada, bate furiosamente o rabo à espera de algum pedaço de comida que possa cair, chorando desalmadamente se, por acaso, não lhe dou um bocadinho de pão.
Nada de novo.
Preparei-me para ir ao banco levantar dinheiro, pois não me apetecia ir de carro e não tinha dinheiro para as senhas do autocarro.
Ao sair de casa reparei que as duas mulheres ainda continuavam a discutir, desta vez já com uma numerosa plateia a assistir e a intervir:
— É verdade! É verdade que eu bem vi!! — gritava energicamente um velhota rouca.
— Eu juro, pela saúde da minha querida mãezinha que está no hospital, que o que eu disse é verdade!!! Eu vi com este olhinhos que a terra há de comer!! — dizia uma rapariga que ainda estava de pijama e chinelos.

Capítulo II
Banco
Cheguei ao banco e, para variar, deparei-me com uma fila enorme. A maior parte era só idosos. Dirigi-me para o final da fila mais curta. Olhei atentamente para a frente. Devia ser mais ou menos um quarto de hora de espera. Tinha tempo...
Passado cinco minutos ainda não tinha saído do sítio! À minha frente encontrava-se um senhor de idade que mal se conseguia aguentar em pé. Apesar da sua frágil bengala o velho inclinava-se todo para trás tentando equilibrar-se, ficando eu a aguentar com todo aquele peso. Mesmo com alguns empurrões fortes o velho não saia de cima de mim.
Para melhorar a situação, mesmo por trás de mim estava outro senhor de idade que devia estar com uma pneumonia pois não parava de espirrar para cima de mim. Ao princípio nem me importei, mas depois comecei a ficar com o pescoço todo molhado........ Eu ainda perguntei ao homem se não tinha um lenço, mas o homem, que era surdo como uma porta, disse-me que só ia ao banco duas vezes por mês.
Ao meu lado esquerdo estava uma simpática senhora com os seus 150 anos. Ela mal conseguia andar e muito menos segurar na caderneta bancária. Já tinha deixado cair a caderneta umas três vezes e eu, muito simpaticamente, baixei-me as três vezes para apanhar a caderneta da senhora. Esta muito agradecida sorriu-me três vezes, mostrando a sua “linda” boca desdentada.
No balcão estava também uma velhinha a pedir informações sobre o Multibanco. A rapariga da caixa esforçava-se ao máximo para explicar, mas a velhinha continuava sem perceber nada.
— Mas... Eu meto o cartão lá dentro da máquina????
— Sim. Depois só tem que marcar o seu código pessoal e seleccionar a opção que quer.
— Mas se a máquina come o cartão como é que eu selecciono o que quero??
A rapariga desesperada voltava a repetir tudo.
Passado vinte minutos eu já tinha dado 12 pequenos passos. A velha continuava no balcão a pedir informações. Os passos que dei foram porque algumas pessoas desistiram de esperar e foram-se embora.
— Mas como é que a máquina sabe quanto dinheiro tenho de levantar?? — perguntava a velhinha, que cada vez percebia menos. A rapariga da caixa já estava completamente despenteada de tantas vezes passar a mão no cabelo. A sua voz já estava rouca e os seus olhos ficavam vermelhos de raiva sempre que olhava para a velha. Os olhos dela e os nossos. Apetecia-me ter ido lá e estrangular a velha ali mesmo em cima do balcão e depois voltar-me para trás para receber os aplausos efusivos de quem estava ali, como eu, à espera.
O velho da frente continuava apoiado em cima de mim. O de trás continuava a tossir, com mais frequência e mais energicamente. Já tinha o pescoço e parte das costas completamente ensopados. A simpática velhinha que continuava ao meu lado já tinha deixado cair mais umas 12 vezes a sua caderneta e eu já me tinha baixado 11 vezes para a apanhar. Sim, só 11 vezes porque uma das vezes foi o velho que se encontrava à minha frente que “tentou” apanhar a caderneta à simpática senhora. Eu digo “tentou” por quando se ia a baixar desequilibrou-se caindo para a frente e empurrando as pessoas que se encontravam à sua frente que por sua vez quase esmagavam as pessoas que estavam ao balcão. Caos total!! Finalmente acabou por ser um jovem que apanhou a caderneta do chão e ajudou-me a levantar o velho. Tanto eu como o jovem estava-mos completamente perdidos de riso, algumas pessoas tentavam conter o riso, outras deitavam olhares assassinos para o velho.
Após 23 passos pequenos, 5 passos médios, 2 passos grandes, 45 encostos do velho da frente (e 37 empurrões que eu lhe dei), 126 espirros do velho de trás, 15 cadernetas apanhadas do chão e 15 sorrisos desdentados, consegui, finalmente, chegar ao balcão. Tudo o que queria era um simples levantamento. Mas depois de tudo o que eu passei, aproveitei e pedi o cartão Multibanco, o cartão Visa, o cartão Mastercard, o acesso à conta via internet e tudo o mais que fosse preciso para eu poder movimentar a conta sem ter que voltar ao banco.
No final acabei por convidar a rapariga a almoçar comigo, já passava da 1h, eu estava cheio de fome e ela estava visivelmente a precisar de descansar um bocado. Ela aceitou prontamente.
No final ela agradeceu o convite para almoçar, trocamos números de telefone e cada um foi para seu lado. Ela outra vez para o banco e eu fui apanhar o autocarro.
2001

Feliz Aniversário...

Talvez influenciado pela carta anterior, resolvi novamente voltar a escrever uma carta de aniversário. Desta vez para uma pessoa diferente.
Uma carta muito menos alegre que a anterior com ideias muito fragmentadas, algum sofrimento na alma e uma saturação da rotina fatigada. É quase uma carta de despedida, na qual tento dizer algo que a minha boca não o conseguiria dizer.
A pessoa para a qual escrevi esta carta nunca a chegou a lêr.




Pois é....
Mais um ano....
Mais um ano que passou,
Mais um aniversário para celebrar.

É aqui que começam os problemas...
Que prenda dar a uma pessoa que não nos deu prenda de natal....
A uma pessoa que não nos deu prenda de anos....
E pior ainda, que não se lembrou dos nossos anos....

Pois é.... Que prenda dar a esta pessoa???
E será que ela merece uma prenda???
É claro que uma pessoa perdoa....
Aliás, perdoa TUDO...
Principalmente quando se gosta,
Uma pessoa perdoa até de mais!

Depois, é claro, toda a gente merece prendas...
TODA a gente!!!

Vistas as coisas por este lado seria injusto da minha parte não oferecer uma prenda....
Por mínimo que seja....
Aliás é uma coisa que já te tinha prometido há muito tempo,
Por isso, não será mais do que a minha obrigação....

Espero que gostes da minha prenda,
Espero que sempre que a ouças te lembres de mim,
É apenas uma lembrança,
Como tudo na vida....
Tudo são apenas lembranças...................

Algumas boas,
Outras más,
Como tudo na vida,
Altos e baixos.

É sempre bom termos algo de alguém
Que podemos sempre recordar.
Dar algo que nos identifique,
Que deixe sempre marcada a nossa presença.

No final,
Contas feitas,
O meu trabalho acabou.
Já nada tenho a fazer de relevante.
Já tens um emprego,
Já tens uma casa,
Já tens a tua privacidade,
Já tens a tua autonomia.

No meio disto tudo deixo de ter valor...
A minha luta acabou.
Quando tudo está bem,
Quando já não há ajuda precisa,
Quando já não há nada de útil a fazer,
Deixo de ter razões para continuar a trabalhar.

E, tal como tinha prometido,
Até as coisa estarem bem,
Eu não arredava o pé.
Mas quando as coisas estivessem bem,
Quando tudo estabilizasse,
Eu, quando muito bem entendesse,
Abandonaria o barco.

Ora, visto que o meu trabalho acabou,
Visto já não ter razões para lutar,
Visto estar tudo bem,
É chegada a minha hora!

É claro que custa
E é claro que nunca será um verdadeiro abandono,
Pois estarei sempre à deriva,
À espera de um ou outro naufrago que possa cair do barco
E necessite da minha ajuda...


Às vezes necessitamos de recuperar forças,
De pensar se realmente é aquilo que queremos,
Se estamos a agir bem ou mal,
E que consequências podem trazer essas acções para nós....

2000

Uma prenda de anos

Depois da morbidez toda, da procura pela Morte e, finalmente, o seu encontro, deixei de escrever com tanta regularidade.
Primeiro porque o nível a que eu cheguei em "Morte e Salvação" assustou-me um pouco, acho que fiquei um pouco obsecado pela aquela ideia e isso fez-me recear voltar a escrever com medo de voltar a entrar naquele mundo, principalmente sabendo que difícilmente chegaria a aquele nível novamente.
Segundo, começou o trabalho e, claro, deixei de ter tanto tempo para dedicar à escrita.
Este texto aparece quase um ano depois de ter deixado de escrever, numa altura em que já sentia saudades de escrever. Mistura um pouco dos meus devaneios com as minhas reflexões, o meu péssimismo negativista e o meu sentido de humor sarcástico...


Uma Prenda de Anos para um Pai

Quando se está mal financeiramente torna-se difícil comprar ou até pensar em prendas...
Mas o problema principal não reside aí. O grande problema está na escolha da prenda. O que se deve oferecer a uma pessoa nos anos?? É, e sempre será, um dos grandes problemas do Homem.
Quando se trata de uma prenda para uma mulher temos mais de metade dos nossos problemas resolvidos, pois a mínima coisa tem um significado enorme para elas. Podemos oferecer flores, bombons, perfumes, postais, uns bonecos, por mais pirosos que sejam e de preferência que incluam palavras de ordem como “I love You” “I can´t live without You” ou outras merdas do género, qualquer coisa... Qualquer penduricalho serve para elas fazerem uma enorme festa e cobrirem-nos de beijos e abraços.
O problema começa quando se trata de oferecer uma prenda a um homem. A um homem não vamos oferecer flores, nem chocolates, senão corremos o risco de passar por paneleiros, ou bichonas. Bonecos? Só se for daqueles bonecos borrachões com o “chico” de fora e com palavras de ordem como “Biba o Porto”, “Nós só queremos Lisboa a arder”, etc. Porque se for daqueles bonecos muito bonitos, cheios de flores e corações a dizer “I love You” e outras coisas, arriscamo-nos a receber em troca quatro socos, dois pontapés e três cabeçadas....
Perfumes ou postais? Talvez, mas não acho que seja a prenda mais indicada para um homem oferecer a outro homem.
Canetas??? Não! Acho que não! Já está muito batido e, além do mais, é uma prenda pirosa e de muito mau gosto...
Mas os problemas não acabam aqui. Muito pelo contrário só estão a começar.... Como se não bastasse ser difícil a escolha de uma prenda para um homem, a coisa torna-se ainda mais dramática se esse homem for nosso pai.......... Sim, porque pai é sempre pai e por muito que não se goste da ideia, por muitos problemas que hajam, somos obrigados a aturá-los para o resta da vida.
Quer dizer, já não basta termos de atura-los toda a vida, ter de viver com eles e ainda somos obrigados a dar-lhes prendas??????
Pois... Voltando à questão inicial, que prenda é que um filho pode dar a um pai? Ao contrário do que se pensa não é nada fácil.......
Um Livro??? Talvez.... Mas que livro se pode oferecer a um pai que tem uma gigantesca biblioteca com milhares de livros???
Uma bengala??? Genial! Assim os pais já tinham qualquer coisa em que se apoiar sem ser nos desgraçados dos filhos. Por outro lado podiam pensar que lhes estão a chamar velhos e correr-nos à bengalada....
Uma pistola???? Boa Ideia! Espectacular! Assim ele poderia dar um tiro na cabeça e deixar-nos em paz para o resta da vida. Eh! Eh! Eh..... Não! Não pode ser, isso seria uma prenda que nós daríamos a nós mesmos. Não somos nós que fazemos anos são eles, por isso será melhor guardar essa ideia para o nosso aniversário......
Porra!!! Realmente não é nada fácil pensar numa prenda para o nosso pai...
Espera.... Porque é que em vez de estarmos a foder o cérebro a pensar em prendas, não aproveitamos a ocasião para demonstrar-lhe o que realmente pensamos deles. Sim, em vez de estar-mos a gastar dinheiro em merdas que se calhar eles nem vão ligar nenhuma, não provamos através de outros meios que gostamos deles?
Há várias maneiras de fazer isso. Eu acho que o melhor que se devia fazer era deixar um recado a dizer: “Parabéns Pai! Gosto muito de ti! Não devo vir dormir a casa nos próximos dias. Um beijo!” e depois só aparecer em casa passados seis meses. Que melhor prenda pode ter um pai senão ver-se livre dos filhos durante seis meses??? Mas talvez isso ainda fosse agravar mais os conflitos de gerações já existentes....
A melhor maneira será talvez a mais dolorosa para nós. Dizer-lhes que apesar de tudo, apesar de serem uns chatos, de nos quererem controlar com algemas e correntes, de serem somíticos, retrógrados, ou o que quer que sejam, são acima de tudo nossos pais.... Que são os verdadeiros culpados da nossa maldita existência terrestre, que sem eles nunca tínhamos existido, nem estaríamos aqui neste momento..... Pensando melhor será que devíamos agradecer aos nossos pais e mães o facto de nos terem posto neste mundo???? Será que eles gostam tanto de nós a ponto de nos fazer nascer nesta selva egoísta e estúpida que é o mundo?? Bem, não estamos aqui para discutir isso. Mais tarde falaremos nesse assunto...
O que interessa dizer é que eles são nossos pais e que, com eles ou sem eles, ou seja, vivos ou mortos, estarão sempre connosco na nossa memória e, quiçá, talvez, lá no fundo do fundo, no nosso coração. Que apesar de tudo, nós gostamos deles, sejam eles como forem. Porque por mais frio e insensível que sejamos, por mais raiva que uma pessoa tenha, um pai é sempre um pai e nós gostamos sempre deles. Uns mais outros menos, mas gostamos sempre deles.
Um filho nunca deve demonstrar que gosta do pai ou da mãe, senão eles habituam-se mal, mas é nessas alturas (aniversários) que se deve mostrar o que realmente se sente pela pessoas....... (O que vale é que só é uma vez por ano! E mesmo assim não é nada fácil...)


P.S. - O grande problema dos pais e, principalmente, das mães é não quererem admitir que estão a ficar velhos, caquécticos e que os filhos já cresceram, que já não têm 12 anos..................
1999

setembro 18, 2004

I Don’t Belong Here

Hmmm... Realmente o ano de 1998 foi um ano complicado...


I Don’t Belong Here

Maybe dead, maybe awaked,
But I don’t know where I am.
I don’t feel anything,
I don’t taste anything.
All I want is to die!!!!!!!!
I want to feel the taste of Death,
I want to feel the love of Death.
I’m tired of this shit.
I’m tired of this world.
The only thing I want is to die!!!!!
I don’t belong here....


1998

The Meaning of World

Raiva, sofrimento, angústia, loucura... Não sei bem o que me levou a escrever isto, mas nota-se que foi uma descarga e uma coisa é verdade: The world has no meaning.



The Meaning of World


I’m tired of this shit
I don’t know the meaning of life,
But I don’t care,
Because I don’t like this life.

I wanna go to the other side
I wanna see the other side.
This world sucks,
And I don’t want to live anymore.

I don’t believe that life is good.
I don’t believe on everything I’ve heard.
The world is dying,
And I don’t like this life.

This life is made of pain.
This world is made of anger,
But I don’t care,
Because I don’t like this life.

I don’t care. The world has no meaning....

1998

setembro 14, 2004

Morte

A continuação (e obsessão) da procura de uma explicação para a Morte.
Gosto da inocência deste texto. Do naif e descontracção com que foi feito, sem raiva, sem fúria, sem vinganças. É quase um desabafo, ou uma procura, sobre o que se estava a passar em "Morte e Salvação".
Tenho pena de já não pensar assim. Gostaria de puder voltar a sonhar assim, inocentemente...


A Morte
Existe um grande enigma por trás da morte.
O que é? Quem é? Não sei! Mas sinto-me deveras interessado em descobrir.
Será que existe mesmo uma pessoa a quem chamam Morte? Será que existe vida depois da morte?
Do meu ponto de vista, acho que sim! Existe uma Morte, mas que não é visível como se pressupõe, é um ser invisível que anda de um lado para o outro. É um ser mais poderoso que Deus ou Cristo, cujas existências são duvidosas, pois é Ela que comanda a vida.
Mas Ela não trabalha sozinha, desde sempre teve a ajuda preciosa do Homem. O Homem mata-se a si próprio à procura de soluções e de respostas.
Já imaginaram quantas vezes, como invisível que Ela é, nos cruzamos com a morte? Quantas vezes não estará ela ao nosso lado, mesmo ao nosso lado? E nós nem damos conta disso....
Sim, também acredito que existe uma vida pós-terrena, tanto como extraterrena. Acho pouco provável que não haja nenhuma compensação para a puta de vida que aqui levamos.
Se vivemos para morrer, se viver significa sofrer, tem de haver uma compensação e essa será a vida após a morte.
Mas será uma vida onde haverá paz, onde não existe guerras, ódios, ciúmes, rancores...?
Não sei, acho pouco provável, mas gostaria de acreditar que sim....


1998

setembro 12, 2004

Morte e Salvação (V)

Epílogo
Este conto começou por ser um projecto onde iria escrever alguns factos da minha vida, dando-lhes, obviamente, uma ar macabro, trágico, mórbido e frio.
Desde o princípio que quis transmitir em toda a história uma frieza arrepiante, que fizesse as pessoas pensar no verdadeiro sentido da vida e a sua ligação com a morte.
Todo o enredo da história veio-se mudar numa noite em que travei uma grande luta com o sono e de repente veio-me à cabeça muitas histórias e a ideia de incluir a Morte no enredo. Rapidamente acendi a luz, peguei numa caneta e comecei as escrever, por tópicos, todas as minhas ideias e, por incrível que pareça, todos os diálogos (menos o grande diálogo da parte final) de William com a Morte.
Nessa noite ficou esquematizado todo o conto, todas as histórias, todas as ideias. Ainda o conto não tinha chegado a meio.
Curiosamente isto aconteceu poucas horas antes da morte do meu avô. Desde essa altura que me interrogo porque é que se realizou toda a minha história na minha cabeça, horas antes da morte do meu avô. Terá sido um prenúncio? Terá a Morte visitado-me antes de levar o meu avô? Estaria Ela ali ao meu lado a inspirar-me? E os diálogos? Terão sido aqueles que eu tive com Ela? Quanto mais penso neste assunto, mais acredito nele.
Dias mais tarde, fiz uma viagem a Évora, viagem esta que me viria a inspirar para uma parte, ou um conto, da história. A viagem a Orlando e a tragédia entre Kim, Chris, e Jackie. Como já disse, alguns destes acontecimentos retratam pedaços da minha vida, por isso resolvi integrar também a viagem a Évora.
Essa história foi escrita com tanta raiva, com tanta fúria, com tanto ódio, que eu ainda hoje não consigo perceber como é que escrevi aquilo. Para mim é a parte mais bem conseguida do conto porque é a parte onde todos os sentimentos sobre a morte e toda a raiva pelo ser humano estão genialmente implícitos. Também temos de ver que foi escrito algumas semanas depois da morte do meu avô, altura em que ainda estavam reminescentes toda a dor e todos os sentimentos ligados ao facto.
A partir dessa altura, decidi dar à Morte uma imagem parecida com aquela que Ingmar Bergman deu no seu filme O Sétimo Selo. E dar-lhe um ar supremo, uma ideia de deus, de senhora do universo. Por isso escrevi a Morte com letra grande, exactamente para Lhe dar uma imagem de deus.
Há quem tenha paixões pelo Diabo, por Lobisomens, por Vampiros e Dráculas ou mesmo por Deus, e faça filmes, livros ou séries sobre eles. Eu quis ir mais longe criando um novo mito e um novo deus, a Morte, assunto sobre o qual as pessoas têm medo de falar ou escrever.
Eliminei qualquer ligação religiosa, qualquer ligação a Deus ou ao Diabo, criando um único e só deus, um único e só ideal, a Morte.
Desde a primeira aparição da Morte que quis mostrar que a Morte sempre teve e sempre terá como braço direito o ser humano. O Homem sempre ajudou a Morte no seu trabalho, matando-se a si mesmo, e cada vez mais a Morte trabalha menos, pois o Homem inventa, cada vez mais, meios mortíferos.
A parte final da história, de pois da morte de William e o seu encontro final com a Morte, foi a parte que mais tempo demorou a ser realizada. Estive, mais ou menos, três meses a pensar como é que escreveria aquela parte. Não podia ser de qualquer maneira, tinha que transmitir uma certa mensagem, tinha que ter um certo sentimento, e para isso tinha que estar num dia cinzento...
Apesar de eu considerar que este final ainda não era bem o que eu queria transmitir, dou-me por satisfeito.
Acho que apesar de ser um conto mórbido, cinzento, macabro e também controverso, consegui transmitir alguns sentimentos e algumas questões sobre a vida e sobre a sua ligação com a Morte.
Espero que depois desta leitura as pessoas pensem mais na vida e na Morte!!!!
Porto, 7 de Março de 1998

setembro 11, 2004

Morte e Salvação (IV)

VII
Tenho a impressão de que voltei a sentir aquele cheiro a enxofre e humidade em casa de Emílio, quando Mary Ann morreu, mas no meio de tantos cheiros nauseabundos que pairavam aquela casa, que mais parecia um hospital, não tenho bem a certeza.
Num espaço de dois meses tinham ocorrido duas mortes, bastante significativas para mim. Mas isto não era nada, era só o princípio.
Meses depois reinava novamente a calma. Era a época morta da imprensa, parecia que todo o mundo andava em paz. Todos viviam as suas vidas com calma, todos menos Jack que, infelizmente, tinha muito trabalho na televisão. Jack andava cansado, tinha muito pouco tempo para descansar, chegava a dormir só duas horas por dia e às vezes passava três dias sem dormir.
Uma noite, eu e Emílio, convidámo-lo para ir ao cinema, mas ele rejeitou.
— Desculpem-me, mas hoje não estou com disposição para isso. Sinto-me mal. Não sei o que tenho. Fico cansado só de me levantar e ir até à cozinha, nunca me aconteceu isto.
— Não faz mal. — disse eu — Até te vai fazer bem ficar em casa a descansar.
— Eu vou ver se consigo dormir um bocado. De qualquer maneira passem por aqui no final do filme.
Emílio e eu fomos ver o filme O Inferno / L’Enfer de Claude Chabrol. No final do filme chovia torrencialmente por isso, ainda fomos até um café, onde ficamos a conversar um bocado.
De regresso a casa, passamos pela casa de Jack. Logo à porta da casa de Jack, Emílio encontrou uma colega dele.
— Emílio, — disse eu — eu vou subindo para ir falando com Jack.
— Está bem! Eu já lá vou ter, não me demoro nada.
Fui subindo devagar, enquanto me secava, as escadas que davam até à casa de Jack. Ao chegar lá cima, estranhei a porta estar aberta. Mal entrei senti, novamente, um forte cheiro a enxofre e a humidade. Assustado corri até à sala onde encontrei Jack caído no chão, morto. A sua cara não mostrava sofrimento, mas as suas mãos estavam angústiamente agarradas ao seu peito. Ajoelhei-me à beira dele e tentei ver se ele ainda estava vivo. Tinha ainda os olhos abertos, a sua boca tinha espuma e o seu corpo ainda estava quente. Quando me levantei, para chamar Emílio, olhei para um canto da sala e Vi-a. Ela estava mesmo ali à minha frente a olhar para mim. Nunca tinha visto a Morte de frente, ao princípio assustei-me, mas depois tive uma sensação de calmia e paz. Não Lhe conseguia ver o rosto, só quando Ela se aproximou de mim é que Lhe consegui ver o rosto. Não se pode dizer que era um rosto belo, muito pelo contrário, era um rosto soturno e sombrio.
— Estamo-nos sempre a cruzar. — disse Ela, numa voz arrepiante e cavernosa — Nunca te esqueças de que ando sempre ao teu lado.
Estava tão perplexo a olhar para Ela que não consegui dizer palavra, mas eu queria perguntar-lhe: «Porquê? porque é que foi Jack? Não podia ser outro? Porquê?». Não me saiu nada. A Morte deve ter lido o meu pensamento e respondeu:
— Ele foi porque assim estava destinado. — e, com um movimento da foice, desapareceu.
Nesse mesmo instante entrou Emílio na sala.
— O que é que foi? — perguntou ele, olhando, assustado, para o corpo de Jack — O que é que se passou? William? William? Acorda!! — acordei do meu transe e olhei para Emílio — Ele está morto?
— Está, Emílio. Está! — e, pela primeira vez, correram algumas lágrimas no meu rosto. Nunca tinha chorado pela morte de alguém — A Morte veio buscá-lo e já foi embora. Ele foi porque assim estava destinado.
Não sei muito bem porque é que disse aquilo, saiu-me.
Emílio foi, então, chamar uma ambulância, enquanto eu fui fechar os olhos de Jack. Quando a ambulância chegou ainda estava eu sentado no chão a olhar para Jack.
Três dias depois decorreu o funeral e o respectivo enterro de Jack. Após o funeral eu e Emílio decidimos tirar umas férias, para descontrair e reflectir sobre as nossas vidas. Tinham sido muitas mortes consecutivas e, tanto eu como Emílio, estávamos a precisar de um descanso moral.
...
Devo confessar que a morte de Jack me abalou muito. O mais estranho de tudo foi aquele encontro insólito com a Morte. Porque será que ela falou comigo? Porque é que fui incapaz de falar com Ela? Porque será que me senti calmo e sereno ao pé Dela, como se estivesse à beira de alguém com quem tenho uma grande amizade e afeição? Porquê?
Volto ao princípio, muitas perguntas, nenhuma resposta.
...
Logo na semana a seguir ao funeral de Jack, Emílio, Julie e eu fomos até ao México, local calmo onde podíamos relaxar calmamente. Tínhamos tirado um mês de férias, tempo suficiente para esquecermos os nossos problemas.
O México era uma terra bonita e os mexicanos eram muito simpáticos connosco. Ficamos instalados num hotel no centro da Cidade do México.
Emílio conhecia bem o México por isso, levou-nos a visitar os templos Incas, incluindo o famoso Templo do Sol, e todas as outras coisas fantásticas que o México proporciona e, rapidamente, esquecemos os problemas que nos tinham levado àquela viagem.
Quase no final das férias decidimos fazer umas compras no centro da cidade. A meio da tarde fomos até uma esplanada, onde ficamos a descansar.
— Compraste muita coisa Emílio? — perguntou Julie — Nós fartamo-nos de comprar.
— Ainda comprei algumas coisas. Uma pessoa perde-se no meu meio de tanta coisa bonita. Tenho sempre que me controlar para não comprar tudo.
— Pareces mesmo uma pessoa que eu conheço — disse eu, olhando de lado para Julie.
— Até parece... — disse Julie irritada.
— William, eu vou ao hotel buscar dinheiro. — disse Emílio — Eu apanho o autocarro e em dois minutos estou lá.
— Está bem! Não demores.
Eu e Julie ficamos a ver Emílio na paragem, que era mesmo em frente à esplanada. Como aquela paragem era a principal do centro da cidade estava bastante pessoal à espera do autocarro.
Quando o autocarro chegou, a confusão gerou-se. As pessoas passavam à frente umas das outras, empurravam, espezinhavam, chutavam, enfim, uma total anarquia. Emílio com algum custo lá conseguiu entrar.
O autocarro tinha andado poucos metros quando se deu um estrondo enorme! Olhei de repente para o autocarro e vi este a arder. Grandes labaredas saiam do autocarro, que se tinha transformado numa enorme bola de fogo.
O pânico gerou-se rapidamente, as pessoas fugiam, gritavam, desmaiavam. Eu fiquei estupefacto a olhar para o autocarro, Julie olhava, também, incrédula. Senti de repente um forte cheiro, que eu bem conhecia, olhei para o outro lado da rua e Vi-a. A Morte estava mesmo em frente a mim, olhou--me nos olhos e sorriu. Avançou em direcção ao autocarro e desapareceu no meio das chamas.
Logo de seguida chegaram os bombeiros e a polícia. Apagaram as chamas com alguma rapidez e procuraram ver se havia sobreviventes. Coisa que rapidamente declararam ser impossível. Todos os corpos encontravam-se carbonizados sendo impossível reconhecer algum deles.
A polícia pediu alguns testemunhos às pessoas e abriu um inquérito, alegando que possivelmente se tratava de um atentado.
Julie e eu afastámo-nos do local e fomos até ao hotel. Três dias depois fomos assistir à cerimónia fúnebre celebrada em nome de todos aqueles que morreram no atentado. E no dia seguinte deixamos o México.
VIII
Quando já pensava que tudo tinha acabado, a Morte apareceu novamente para levar mais um amigo meu. Porquê? Porque é que a Morte aparecia sempre ao meu lado? Porque é que Ela olhava sempre para mim? Porque é que tinha a sensação que já a conhecia?
Já está a anoitecer. Acendo as velas, releio aquilo que já escrevi e tento encontrar alguma explicação para tudo o que aconteceu. Por enquanto nada, mas sinto que estou perto. Sinto que falta muito pouco para descobrir tudo.
Passaram-se algumas semanas depois da morte de Emílio. O nosso país andava em revolução, a população tinha-se revoltado contra o presidente e gerou-se um motim. Toda a população estava em guerra com o governo e as forças policiais.
A mim coube-me fazer a reportagem da revolução. Andava de um lado para o outro procurando os sítios onde a guerra estava mais quente.
Esta revolução durou algumas semanas, sempre com grande vantagem para o povo. Eu, é claro, estava do lado do povo, mas como repórter, tinha de me abster e ser imparcial, não podia demonstrar os meus ideais.
Certo dia, já na recta final da revolução, estava eu no centro a fazer a reportagem, quando vi a Julie.
— Julie! — chamei — Que estás tu aqui a fazer?
— Sai agora do escritório. — disse Julie — Não me estou a sentir bem.
— Está bem, mas não podes ficar aqui muito tempo. Isto está muito instável pode estourar a qualquer momento.
— Não te preocupes. Eu vou-me já embora!
De repente, uma força policial entra na praça, a população, revoltada, começa a atirar contra a polícia, que responde também com balas. Bombas, gases, tiros, metralhadoras, passavam de um lado para o outro. Grande confusão foi gerada. Nesse instante a polícia, num ataque súbdito, disparou contra a população. Protegi-me entre os prédios para não ser atingido. Gritos de dor, de medo, de angústia e de raiva ecoavam por todo o lado.
De repente lembrei-me de Julie. Onde estaria ela? Olhei por entre os prédios e vi ela a fugir. Corria, perdida, sem saber para onde ia. A polícia disparava para todos os lados e com uma rajada de metralhadora atingiu Julie, que cai no chão de joelhos.
NÃÃÃÃÃÃOOOOO!!!!!!!!!! — gritei eu. — Filhos da puta!!!!
Corri desenfreadamente para ela. Amparei-a nos meus braços, ela ainda respirava, olhou para mim sorriu, disse-me que me amava e morreu. Furiosamente peguei numa arma que encontrei junto a um morto e disparei contra o polícia que tinha disparado contra Julie. Descarreguei todos os tiros que tinha na arma. Pouco depois, a polícia bateu em retirada, fugindo da população que tinha ganho esta batalha.
Fiquei ali à beira de Julie, olhando para ela, chorando. Chorava de dor, uma dor aguda que é inexplicável.
— Voltámo-nos a encontrar! — disse uma voz, por trás de mim.
Eu conhecia aquela voz, aquele cheiro a enxofre e humidade. Sim, era Ela! Voltei-me, a Morte estava mesmo ali, ao meu lado. Levantei-me e perguntei:
— Ainda não chega?? Quando é que acaba com estas mortes?? Quando é que acaba???
— Calma! Como tu sabes eu estou sempre ao teu lado, por onde quer que vás, aonde quer que vás. A tua missão está a chegar ao fim. Quando quiseres ir chama por mim e eu venho buscar-te.
— Missão?? Mas que missão?
Não obtive qualquer resposta. A Morte limitou-se a sorrir e desapareceu. Fiquei ali pensativo à beira de Julie. Só sai quando vieram buscar Julie.
...
Era incrível! Como era possível que a Morte leva-se Julie? Logo ela. Choro.
Ahhh, Julie! Se soubesses as saudades que tenho tuas. Será que eu tinha um trato com a Morte? Que missão era aquela que Ela me falou? Será que eu era o guia da Morte? Guiava-a até às suas vítimas? Esta ideia assusta-me!
Já é tarde. Vou dormir. Apago as velas e deito-me.
Amanhece. Acordo. Continuo rodeado de nuvens e silêncio. Um silêncio profundo.
...
Dias depois a revolução tinha acabado. O presidente tinha assumido a derrota demitindo-se. A população andava em festa. Toda a gente estava contente. Todos, menos eu, que andava com uma crise depressiva muito grave.
Deixei o jornal. Durante mês e meio não sai de casa. Depois, decidi-me e consultei um psiquiatra. Andei cerca de dois meses no psiquiatra, com algumas melhoras.
Ao princípio a psiquiatra não se acreditou muito na minha história e nos encontros com a Morte. Achava que eram ilusões minhas provocadas pela crise depressiva. Tentou que eu me esquece-se Dela, mas foi em vão.
Numa das sessões, na qual fui hipnotizado, o psiquiatra disse-me:
— Você não desiste da ideia da Morte. Até hipnotizado fala sobre ela.
— Falei, Sr. Doutor?
— Sim. E falou em mais uma coisa que me deixou intrigado.
— O quê, Sr. Doutor?
— Você falou numa missão. Disse que veio para cá realizar uma missão. Que missão é essa?
— Missão??? — disse surpreendido — Não sei de missão nenhuma. O que é que eu disse mais?
— Só isso que tinha uma missão para cumprir aqui. Mas aqui onde? Onde é que você tem de cumprir essa missão?
Tudo se tornou mais claro agora. Sim percebi na altura, que tinha sido incumbido de uma missão. Qual? Não sei! Mas sabia perfeitamente onde era.
— Aqui mesmo, Sr. Doutor. — respondi — Aqui na terra, juntos ao ser humano.
— Aqui? Bom, veremos isso numa outra sessão. Queria fazer agora um teste consigo para avaliar o seu comportamento. Quero saber se já melhorou mais alguma coisa desde o mês passado.
O psiquiatra sentou-se na sua secretária.
— Vou-lhe dizer algumas palavras e você tem de me dizer em 10 segundos o que significa para si, ou um sinónimo.
— Tudo bem, Sr. Doutor! Pode começar.
— Viver?
— Sofrer
— Vida?
— Inferno
— Morte?
— Salvação
— Porra! Assim não dá! Você não melhorou nada. Acho que até piorou. MORTE É SALVAÇÃO? Isto assim vai custar um bocado curar.
— Deixe estar, Sr. Doutor. Só me resta uma solução, e com certeza não é esta. Eu sei o que tenho de fazer.
Naquele momento tinha apercebido da minha situação no mundo. Já nada tinha lá a fazer. A minha missão tinha acabado.
Peguei no carro e meti pela estrada fora, sem destino, sem rumo. Sim, pela primeira vez chamei pela Morte. Sabia que era a única salvação para sair daquele inferno. Não me lembro muito bem do que se passou, só me lembro de ter sentido mais uma vez aquele cheiro a enxofre e humidade. Olhei para o lado e lá estava Ela.
— Chamaste-me a cá estou eu — disse Ela — O teu desejo será cumprido.
Sorriu. Depois só me lembro de ter ouvido uma buzina e de ter visto uma luzes enormes à minha frente. Ouvi um grande estrondo e não me lembro de mais nada, só de ter acordado aqui.
IX
Será mesmo verdade? Terei morrido? Agora torna-se tudo muito mais claro. Agora lembro-me de tudo. Eu era ( e se calhar ainda sou) o braço direito da Morte. Eu era o seu assessor. Fui enviado para a terra com a missão de guiar a Morte até às suas vitimas.
Sim, o meu maior medo tornou-se real. Eu sou o melhor amigo da Morte. Agora percebo porque é que aquele cheiro não me era estranho, porque é que me sentia calmo perante a Morte.
Não, eu, se soubesse, não teria aceitado este trabalho. O ser humano é muito complexo, difícil de entender. Se eu soubesse que para se ser ser humano é preciso sofrer, não teria aceitado nunca esta missão. Mas eu não sabia o que era ser humano... não sabia que se esquecia toda a nossa história quando se nasce, não sabia que tinha de viver.
Ahhh!!!! Como aqui se está bem. Sem a confusão humana que é o mundo. Sem a raiva, a inveja, o ódio, o pudor e todas as outras coisas que só os humanos são capazes de realizar.
Espera! Estou a sentir outra vez este cheiro, olho para o lado. É Ela que vem aí. Aproxima-se.
— Olá William! — diz Ela — Já sabes agora tudo?
— Já! Já sei tudo, menos uma coisa. Porque é que fiquei aqui durante 2 ou 3 dias? E porque é que sentia uma vontade insaciável de escrever tudo o que se passou?
— Ah! Ah! Ah! Sabes aqui é para onde vêm as pessoas depois de morrerem. São obrigadas a escrever o balanço da sua vida.
— E depois é arquivado no Arquivo Geral?
— Estás ver como já estás a perceber? Claro, é arquivado e depois as pessoas podem consultar todas as suas vidas passadas.
— Pois... Estou a ver. Mas eu não tenho lá nada, pois não?
— Não, mas também não precisas! Desempenhas-te uma boa missão. Fizeste muito bem o teu trabalho. Agora só voltas lá se quiseres.
— Não, não quero! Eu agora queria era estar com os meus amigos. Aqueles por quem eu sofri.
— Como te portas-te bem lá embaixo e como sofreste como ser humano, devo-te essa regalia. Anda comigo.
Sigo a Morte. Caminhamos lentamente.
— Vou-te levar para junto dos teus amigos, mas tens de me prometer, que continuas ao meu serviço. Fazes todos os trabalhos que te pedir.
— Desde que não seja para voltar à terra.
O Morte ri. É impressionante a imagem que o homem tem da morte, acho que nunca nenhum homem consegue imaginar a Morte a rir. Acham-Na um ser cruel sem piedade.
O homem tem medo da Morte. Pobres ignorantes.
Paramos. A Morte olha para mim, sorri e com um movimento da foice ambos desaparecemos.