setembro 11, 2004

Morte e Salvação (III)

IV
Sinto cada vez mais uma vontade irresistível de escrever o passado. Mas porquê? Porquê? A única coisa que vejo à minha volta são nuvens, nada mais. Estarei eu no céu? Não, não pode ser, não me lembro de ter morrido e mesmo que tivesse, o céu não é deserto. Já não está tanto calor, sopra, agora, uma leve brisa que me refresca a cara enquanto escrevo. Relembro ainda Jerry, aquele que tinha capacidades de ser um grande jogador e que, por uma infelicidade, ficou incapacitado de jogar e de andar.
Pouco tempo depois, duas semanas antes do meu casamento com Julie, fizemos uma viagem de finalistas a Orlando, pouco antes de acabarem as aulas. Foi uma viagem de quatro dias, mas que deu para nos divertirmos bastante. Foi bastante pessoal, só Julie é que não pode ir, porque estava doente, mas foi Jack e Arthur, os meus melhores amigos.
Conheci Arthur no primeiro ano que fui para a faculdade, desde o primeiro dia que nos demos bem, mais tarde, fui eu quem lhe apresentou a Jackie, com quem ele namorava há já três anos.
Essa viagem foi espantosa, o pessoal era do melhor e toda a gente se dava bem. As noites em Orlando eram incríveis, era raro encontrar uma rua, ou um bar, sem ninguém, estava tudo a abarrotar. Mal se podia andar nas ruas.
No último dia que estivemos em Orlando, o terceiro dia da viagem, Arthur começou a “curtir” com a Kim. Não é que eu me importasse, mas quando os vi, ali, determinados e convictos assustei-me. Lembro-me de ter falado com Jack sobre o assunto.
— Não te preocupes. — disse Jack — Sabes como é o Arthur, ele anda chateado com a Jackie e agora está a curtir com a Kim só para lhe fazer ciúmes. Vais ver quando ele chegar, vai logo a correr para os braços da Jackie.
Não me fiei muito na conversa do Jack, fiquei na dúvida se era mesmo aquilo que Arthur queria. No dia seguinte tivemos de acordar cedo pois a viagem ia ser longa. Durante toda a viagem Arthur ia sempre agarrado nos braços de Kim, não se pode dizer que Arthur tivesse mau gosto, porque Kim era bastante bonita. Eu ainda andava intrigado com o tal casal.
— Não me digas — disse Jack, quando lhe falei outra vez no assunto — que estás com ciúmes da Kim? Ai, ai, ai, quando a Julie souber..... Vai ser bonito!!
— Não é nada disso, estúpido! — disse eu, que começava a ficar irritado — Quanto é que apostas comigo como Arthur, quando chegarmos à universidade, vai cortar o namoro com Jackie?
— Não!!! — disse Jack, espantado — Não, Arthur nunca teria coragem de fazer uma barbaridade dessas. Fazer isso com a Jackie?? Não.
Pois, pois!! Se eu me fosse a fiar em ti, o mundo era quadrado e cor-de-rosa. As minhas dúvidas foram resolvidas mal cheguei na segunda-feira à faculdade. Não se falava noutra coisa, a não ser que Arthur tinha acabado o namoro com Jackie. Quando soube da notícia virei-me para Jack e disse-lhe:
— Estás a ver???? O que é que eu te tinha dito, caralho?
Fui ter com Jackie. Jackie estava sentada num banco, triste e solitária. Sentei-me ao lado dela e fiquei a conversar com ela.
— Andam por aí a dizer que ele curtiu com uma tipa na viagem. — disse Jackie, quase a chorar — É verdade? Diz-me, por favor! Com quem? Com quem?
— Não sei de nada — disse eu — Se ele curtiu ou não, o problema é dele. Agora quem era a rapariga, eu não sei. — É verdade. Eu menti. Sim, sim, eu sei que não se deve mentir, mas o que é que vocês queriam???? Que eu lhe disse-se que Arthur tinha curtido com a melhor amiga dela?? Não! Eu não lhe podia dizer isso. — Mas não te preocupes, vais ver que o Arthur ainda volta para ti.
— Oh!! Tu também nunca mudas, sempre a tentar ver as pessoas felizes.
De nada valeu eu ter mentido, pois na hora seguinte Jackie viu Arthur e Kim em alto “marmelanço”.
— William. — disse Jack, com a voz a tremer — Diz-me, aquela não é a Kim?
— Onde? — fiz-me de despercebido — Não a vejo.
— Ali. Ali, aquela “gaja” que está aos beijos com o Arthur.
— Não! Não deve ser ela. Deve ser alguém parecida com ela.
— É ela!! É ela!!! Puta do caralho. Vou foder-lhe os cornos.
Assustei-me com a reacção de Jackie. Tinha a cara vermelha, os olhos raivosos e manobrava as mãos como se tivesse a estrangular alguém.
— Tem calma, Jackie. Vamos ver se resolvemos as coisas sem recorrer à violência.
Mas Jackie não me quis ouvir e fugiu. Durante o dia todo nunca mais a vi. Fui falar com Arthur.
— Por que é que acabaste o teu namoro com a Jackie? — perguntei-lhe.
— Já estava farto dela, já não gostávamos mais um do outro. — disse Arthur com um sorriso nos lábios. — E depois encontrei a grande paixão da minha vida. A Kim.
— Isso é tudo mentira, Arthur. Pensas que eu não te conheço? A Jackie ama-te, ela gosta de ti, ela é louca por ti. Ela era capaz de se matar por ti. — Mais tarde arrependi-me de lhe ter dito isto, mas eu não podia adivinhar — Tu é que te chateaste com ela e, para te vingares, falaste com a Kim e começaram a curtir só para fazer ciúmes à Jackie. Por azar a coisa caiu para o torto e vocês apaixonaram-se um pelo outro. Certo?
Arthur não disse nada, limitou-se a olhar para o infinito. O sorriso que tinha nos lábios tinha desaparecido.
— Estou certo, ou não estou? Foi, ou não foi isto que se passou? Responde, caralho!!!
— Foi! — disse ele, com uma voz sumida — Foi exactamente isso que aconteceu. Nunca pensei que numa brincadeira inocente me viesse a apaixonar pela Kim. Mas quando nós combinamos tudo e começamos a sair e curtir juntos, descobri que ela era exactamente tudo o que eu queria. Era a mulher ideal.
— E a ela aconteceu-lhe o mesmo. Não foi?
— Exacto. Foi uma espécie de amor à primeira vista. Um bocado diferente.
— Então, porque é que não explicaste tudo à Jackie. Tu e a Kim iam falar com ela e explicavam, calmamente, o que tinha acontecido. De certeza que ela iria perceber, podia demorar algum tempo, mas ela iria perceber.
— Não sei..... Talvez sim, talvez não. Ela ficou muito magoada, não ficou? Eu fui um bocado duro com ela, não fui?
Acenei-lhe afirmativamente.
— Amanhã, — disse Arthur, com convicção — sem receios, vou falar com ela. Eu e a Kim.
No dia seguinte, de manhã, quando cheguei à faculdade fui perguntar a Kim se já tinham falado com Jackie.
— Ainda não. — disse Kim — Estou à espera de Arthur para falarmos com ela.
Entretanto apareceu Jackie, mas não era aquela Jackie que toda a gente conhecia. Era uma Jackie que trazia raiva no rosto, fúria nos olhos e desgosto no coração. Jackie chega à beira de Kim e disse:
— Tu, minha linda, estás marcada. Hoje não sais daqui viva. — Jackie abre o casaco, mostrando a coronha de uma pistola. — Prepara-te.
— Mas, Jackie.... — disse Kim, apavorada — Eu e Arthur queremos falar contigo sobre o assunto.
— Tu e o Arthur! Tu e o Arthur! Pois eu quero que vocês se fodam!! Não há nada para discutir.
Quando acabou de falar, Jackie foi-se embora, sem mais palavras. Kim ficou assustada e com medo.
— Não te preocupes, Kim. Aquilo foi só para te intimidar. Só para te assustar. A Jackie era incapaz de fazer uma coisa dessas.
Na hora a seguir, Chris, um grande amigo de Jackie, estava com uma fita métrica a medir Kim.
— O que é que estás a fazer, Chris? — perguntou Kim, assustada.
— Cala-te!! — disse Chris num tom de brincadeira — Estou-te a tirar as medidas para o caixão.
Kim ficou apavorada, começou a chorar e desatou a correr. Eu ainda me ri um bocado com aquela cena, pensava que aquilo era tudo montado pela Jackie para assustar Kim. Se a verdade fosse essa ela tinha conseguido. Mas eu ainda andava preocupado com uma coisa: a arma que Jackie trazia no bolso. Seria verdadeira?
V
Está a ficar escuro e frio. Visto o meu casaco e acendo as velas. Sinto-me cansado, dói-me as costas. Vou continuar a escrever e depois vou dormir.
Horas mais tarde chega Arthur à Faculdade. Veio ter comigo e perguntou por Kim. Levei-o até ela. Estávamos os três a combinar o que iríamos dizer a Jackie e como o deveríamos dizer, quando Jackie apareceu. O seu rosto mostrava ainda mais raiva e os seus olhos mostravam uma fúria inexplicável. Senti nesse momento um leve cheiro a humidade e enxofre.
— Jackie, — disse Arthur, sorrindo — era mesmo contigo que nós queríamos falar.
— Já disse que não há nada a dizer!! — gritou Jackie.
— Mas, Jackie, — disse eu — Tenta pelo menos ouvir a explicação que eles têm para te dar.
— Não quero saber. Não quero saber de nada.
— Jackie, — disse Kim, assustada — tu és a minha melhor amiga. Eu gosto muito de ti e só te quero explicar o que aconteceu.
— Tu eras, eras, a minha melhor amiga. Antes de me apunhalar pelas costas.
Jackie tira o revólver do casaco e aponta para Jackie.
— Com amigas destas eu não preciso de inimigos.
Eu ainda corri para Jackie, mas não fui a tempo. Jackie descarregou dois tiros certeiros em Kim, que caiu no chão, inerte, morta. Arthur ajoelhou-se rapidamente olha para Kim e começa a chorar.
— Não!!!!!!!! — gritou Arthur — Não!!!!!
Jackie continuava com a arma apontada, mas desta vez para Arthur. Eu agarrei-lhe a mão com tanta força que a obriguei a largar a arma. Arthur continuava no chão a chorar. Eu fiquei durante um bocado agarrado à mão de Jackie, com medo que ela fizesse outra asneira. Arthur levantou-se, pegou na arma e apontou-a para Jackie.
— Sabes o que mereces agora, minha puta? — disse Arthur, com os olhos húmidos e a mão a tremer — Sabes? Tu merecias morrer. Mataste a Kim, aquela que seria, talvez, o maior amor da minha vida. Eu não merecia isto foste tu que quiseste.
Eu ainda tentei evitar que Arthur disparasse, mas mal me aproximei dele, levei um soco que me deitou ao chão.
— E ela? — disse Jackie — Sabes o que ela me roubou? Ela roubou-me aquilo que eu mais gostava neste mundo, toda a razão da minha existência, toda a fonte da minha alegria, isto é: TU!!
Arthur olhava para Jackie como se procurasse alguma razão para a não matar, como se procurasse alguma coisa lá dentro que ainda o fizesse gostar dela. Não deve ter encontrado nada, pois apontou a arma directa para a cabeça de Jackie.
— Deve haver mil e uma razões para não te matar. — disse Arthur, raivosamente — Neste exacto momento não encontro nenhuma.
— Não!! — gritei eu, ainda caído no chão, meio inconsciente — Arthur, não, por favor.
Mas Arthur não me ligou, ou não me ouviu, e disparou. Jackie caiu no chão atingida no peito.
— E-e-e-eu a-a-am-am-amava-te, A-A-Arthur!! — disse Jackie, antes de fechar os olhos e morrer.
Arthur ficou a olhar para Jackie, depois ajoelhou-se à beira de Kim. Eu levantei-me, ainda tonto, e fui ter com Arthur.
— Sabes, William, — disse Arthur — a Kim era rapariga espectacular. Eu amava-a.
— Anda embora. — disse eu, pegando-lhe na mão — Anda, antes que venha a polícia. Já acabou tudo. Nada mais há a fazer.
— Não! Ainda não acabou. — disse Arthur, levantando-se — Ainda falta uma coisa.
Arthur leva a arma à cabeça e diz:
— Eu não tenho nada a fazer aqui. Não posso viver sem a Kim.
Arthur olhou para mim, depois para Jack e Julie que tinham acabado de chegar, sorriu e disparou.
Eu não podia acreditar no que estava a ver. Julie veio ter comigo, aterrorizada, e abraçou-se a mim. Ficamos abraçados durante muito tempo, enquanto na faculdade o pânico era geral. Expliquei a Jack tudo o que tinha acontecido, tintim por tintim.
— Percebeste tudo? — perguntei eu. — Consegues explicar tudo o que aconteceu à Polícia?
— Acho que sim. — disse ­Jack — Vou tentar.
— Tenta. — disse eu — Eu não vou conseguir estar aqui por muito tempo. Vou para casa com a Julie.
Era incrível o cheiro a enxofre que se tinha espalhado pela Faculdade. A enxofre e a humidade.
Afastei-me, com Julie, da faculdade. Poucos minutos depois chegou a polícia e Jack contou tudo o que se tinha passado.
...
Aquele cheiro a enxofre e humidade intrigou-me muito. Não sabia o que era, nem de onde vinha. Mas sei que já tinha sentido aquele cheiro antes, mas onde? Quando? Aquele cheiro está ligado a alguma coisa, mas o quê?
Está de noite. Estou cansado. Ainda estou a pensar em Arthur, Kim e Jackie. Como foi possível que eu não tenha conseguido evitar aquela tragédia? Como é que não me apercebi logo do que iria acontecer? Ohh, destino, como foste capaz de matar a Kim e a Jackie? Porque é que te matas-te, Arthur? A Kim era tão bela, com os seus olhos azuis e o seu cabelo loiro, era uma deusa. Mas Jackie não lhe ficava atrás, os seus provocadores olhos castanhos, o cabelo castanho claro e a sua maneira exuberante de se vestir, tornavam-na um pólo de atracções dos olhares masculinos.
Vou dormir. Amanhã continuo a escrever.
Acordo! Continuo rodeado de nuvens e só, completamente só. Os dias começam a ficar mais frescos. Desconfio que se está a aproximar o Inverno. Levanto-me e sento-me na secretária. Não se ouve ruído algum. Silêncio, silêncio e mais silêncio. Começo a escrever, cada vez que escrevo recordo melhor o meu passado, sim, sinto que é a escrever que vou descobrir o que me aconteceu. Sinto que estou perto.
...
Depois de ter acabado a Faculdade e de ter casado com Julie, fui trabalhar para um jornal como repórter. Foi neste ofício que conheci Emilio, um mexicano que viria a ser um grande amigo meu, e Hughes.
Um ano depois, já Julie tinha conseguido concretizar o seu sonho e trabalhava numa revista de moda e Jack trabalhava na televisão como redactor e jornalista, começou, em queda livre, uma onda de desastres. Num curto espaço de tempo, cerca de um ano e meio, muita coisa aconteceu.
A primeira foi num dia em que reinava a calma no jornal, havia pouco trabalho a fazer, não se tinha passado nada de especial e as notícias mais importantes estavam já feitas.
Estava a conversar com Emílio, quando o telefone tocou.
— Redacção, boa tarde! — disse Emílio ao atender o telefone.
— Boa tarde! — disse uma voz grossa e rouca do outro lado — Com quem é que estou a falar?
— Está a falar com o Emílio, Sr. Fergunson.
— O William está por aí?
— Está aqui mesmo ao meu lado, Sr. Fergunson.
— Passa-lhe o telefone.
Emilio passou-me o telefone para as mãos.
— Ele que falar contigo. — disse Emílio, tapando o auscultador.
— Diga, Sr. Fergunson. — disse eu — O que é que se passa?
— Estou a estranhar o Hughes ainda não ter aparecido. — disse o Sr. Fergunson — Estás a fazer alguma coisa?
— Não, senhor. Neste momento não estou a fazer nada.
— Então, eu queria que tu e Emilio fossem até casa dele ver se está tudo bem.
— Deve estar. Ele não deve ter aparecido, porque como anda com alguns problemas com a mulher, e, como consequência disso, anda muito nervoso, deve ter ficado em casa a descansar, ou a reflectir.
— De qualquer maneira passem por lá. É que eu já tentei telefonar, mas ninguém atende.
Sorri para Emílio e desliguei o telefone. Fomos até à garagem a partimos em direcção à casa de Hughes. Pelo caminho íamos a falar sobre o assunto.
— Coitado. — disse eu — Ele está a passar uma fase muito má. Aliás, nem sei como é que ele tem conseguido aguentar.
— Mas afinal o que é que se passa? — disse Emílio — A mulher deixou-o, foi?
— Não foi só isso. Além de o ter deixado, fugiu com o “HungryCat”.
— O “HungryCat”, o pior “dealer” de todos os tempos? Aquele que a polícia anda à procura à mais de dois anos? Aquele que se supões ter ligações com a máfia?
— Esse mesmo. E o pior de tudo é que a mulher, antes de fugir, pediu-lhe uma grande quantia de dinheiro e Hughes recusou-se a pagar. Parece que a mulher telefona-lhe todos os dias a ameaçá-lo e a insultá-lo.
— Há quanto tempo anda isso a acontecer? — disse Emílio, impressionado com o que eu lhe tinha acabado de lhe dizer — Não deve ser assim há muito, porque senão eu já tinha sabido.
— Ele já anda nisto à três meses, só que não fala a ninguém sobre o assunto, excepto a mim.
— Já estamos a chegar!
Parei o carro mesmo em frente à casa de Hughes. Tocamos à porta, mas ninguém atendeu. Estranhei o facto de Hughes não estar em casa, nem ter aparecido ao trabalho, por isso resolvi dar uma volta à casa, alguma coisa não estava a correr bem. Sentia um arrepio pela espinha abaixo.
Espreitei por uma janela que dava para a sala, reparei que a luz estava acesa e chamei Emílio.
— Ele tem que estar em casa — disse eu — A luz da sala está acesa.
— Pode não estar ele.... — disse Emílio, com receio — Pode ser outra pessoa.
Tinha um pressentimento que as coisas não estavam a correr bem e continuei a volta pela casa. Descobri uma janela aberta, a janela do quarto. Tive de me apoiar nas costas de Emílio para poder chegar à janela. Mal me apoiei no parapeito da janela e espreitei para dentro do quarto, fiquei paralisado.
— Foda-se — disse eu, completamente desacreditado naquilo que os meus olhos estavam a ver.
Hughes estava pendurado com uma corda no pescoço, o rosto pálido ainda transmitia algum sofrimento, mas o pior de tudo era o cheiro que estava no quarto, Hughes já devia estar morto há mais de 24 horas.
— O que é? — perguntou Emílio, enquanto eu descia das suas costas— O que é que se passa?
Eu não consegui dizer nada, só apontava para a janela. Emílio intrigado com o que se estava a passar, subiu para as minhas costas e espreitou pela janela.
—Foda-se — disse Emílio.
— Isso já eu tinha dito.
— Ajuda-me a entrar no quarto, que eu vou-te abrir a porta.
Após algum custo, Emílio conseguiu entrar no quarto. Dirigi-me para a porta principal da casa e passado alguns minutos Emílio abriu a porta.
— Está um cheiro insuportável lá dentro. — disse Emílio.
Tapámos a cara com um lenço e fomos até ao quarto de Hughes. Revistámos o quarto à procura de alguma carta que Hughes tivesse deixado. De repente reparei que Hughes tinha alguma coisa na mão. Só com a ajuda de Emílio é que consegui tirar os papais que Hughes tinha na mão. Eram duas cartas. Uma era da mulher, a outra era dele.
Abri a carta da mulher. Dizia mais ou menos isto:

Meu grandessíssimo Cabrão:
Ou pagas aquilo que nós queremos ou seremos
obrigados a torturar-te até à morte? Mas não esperes que seja uma tortura leve,
não... vai ser uma tortura bastante demorada, para que sofras durante muitos
anos até à morte.

Muitas Felicidades,
dos teus queridos e
adorados:
Erika & HungryCat.

VI

Após ter lido a carta em voz alta, olhei para Emílio. Emílio pegou na outra carta e passou-ma para a mão.
— Prefiro que sejas tu a ler. — disse Emílio — Eu não tenho coragem.
Na carta estava escrito: «A William, a Emílio e a quem mais possa interessar...». Estremeci de medo antes de começar a ler a carta.

«Poucos sabem o sofrimento que passei nestes últimos meses. Ameaças, telefonemas a altas horas da noite, contribuíram muito para esse sofrimento.
Perdi toda a liberdade que tinha. Não podia sair de casa sem que uma pessoa anónima viesse à minha beira para me insultar ou ameaçar. Tentei mudar de casa e mesmo assim as ameaças não pararam, sentia-me observado, sentia-me seguido.
Não, não dava para continuar assim. Preferi morrer do que andar a viver com todo esse sofrimento.
Que me perdoem todos os meus amigos, que vão sofrer bastante com a minha morte, mas espero que percebam a minha situação.

Adeus.
Adeus mundo estúpido.
Adeus humanidade rancorosa.
Adeus Homem burro.
Adeus Mulher tentadora.
Adeus, Adeus, Adeus.................»

Ao ler a carta senti uma certa angústia e, também, uma profunda raiva. Desconfio que se Erika aparecesse à minha frente, eu não me controlaria e seria capaz de a matar.
Telefonei para a polícia e expliquei-lhes o caso. Pouco tempo depois já a casa estava cheia de fotógrafos e polícias.
— Então, — perguntou um polícia a Emílio — ele era ameaçado pela mulher e pelo seu amante?
— Era sim, Sr. Guarda. — respondeu Emílio — E temos aqui uma carta que prova muito bem isso.
Emílio entregou ao polícia as cartas que Hughes tinha guardado na mão.
— E não há mais cartas da sua mulher? — perguntou o polícia.
— Da minha mulher? — indignou-se Emílio — Mas eu não sou casado Sr. Guarda. Por acaso já tenho data de casamento marcada, mas.....
— Não é nada disso!! — interrompeu o polícia — Peço desculpa se fiz mal a pergunta, mas o que eu queria dizer era se não encontraram, ou não têm conhecimento, de mais cartas enviadas pela mulher do Sr. Hughes.
— Deve haver mais. — disse eu — Porque Hughes falou na sua carta de várias cartas. Mas, se calhar, ardeu-as ou rasgou-as.
— Sr. Dreed!! — disse outro polícia, ao entrar no quarto — Encontrei no escritório uma data de cartas enviadas pela Sr.ª Erika.
Enquanto polícia foi continuando as suas investigações, e depois de eu e Emílio termos deixado os nossos dados identificativos, eu e Emílio saímos daquela casa e fomos até ao jornal dar a notícia. Emílio ficou encarregado de fazer a cobertura da notícia, primeiro tinham pensado em mim, mas eu rejeitei.

...

Fiquei muito sensibilizado com a morte de Hughes. Era um dos meus melhores amigos que tinha morrido, e tudo devido à estupidez gananciosa da sua mulher. Ela própria não devia desconfiar que Hughes se fosse matar, aliás, ninguém esperava.
Tenho reparado que já estou aqui há alguns dias e ainda não comi nada, nem tenho fome.
Já é uma da tarde! O tempo passa depressa enquanto escrevo, também não se passa nada de especial aqui. Silêncio e solidão é só o que há. As únicas coisas que quebram este silêncio é a minha respiração e o barulho da minha caneta a escrever.

...

Tempos depois Jack disse-me que “HungryCat” tinha sido preso perpetuamente e que Erika tinha-se matado enquanto fugia da polícia. Ao que parece atirou-se de um prédio de dez andares. Devo dizer que fiquei, de certa forma, aliviado com esta notícia.
Uns dias mais tarde vim a saber que Mary Ann, que iria ser a futura mulher de Emílio, estava gravemente doente. Emílio andava a faltar ao trabalho, por isso já não falava com ele havia algum tempo e, obviamente, nada sabia acerca de Mary Ann.
Nesse mesmo dia, ao final da tarde, fui visitá-los. Emílio atendeu-me à porta. Tinha um ar esgotado e gasto. Parecia muito mais velho. Parecia que tinha envelhecido dez anos. Ao princípio não me deixou visitar Mary Ann, mas depois lá cedeu.
Mary Ann estava deitada na cama, pálida. Essa sim, essa tinha um ar bastante esgotado. Estava velha, muito mais velha do que ela era. Apresentava um ar de doença bastante grave.
— O que é que ela têm? — perguntei. — É algo grave?
— É e não é. — disse Emílio — Trata-se de uma gripe asiática.
— Uma gripe asiática? — perguntei, desconfiado — Tu não me fodas Emílio!! Eu sei que a gripe asiática é bastante forte, mas não põem uma pessoa assim.
Emílio chamou-me à parte e fomos até à sala de estar.
— Ela têm é uma gripe asiática.
— Lá estás tu Emílio. Porque é que não me dizes a verdade?
— É o que eu te estou a dizer. Ela está com uma gripe asiática, só que ela não tem anticorpos para a combater.
— Não têm anticorpos? Mas então ela....
— Ela está com SIDA, percebes? Ela está sem mecanismos de defesa. Ela está a morrer...
Devo dizer que fiquei bastante surpreendido com a calma com que Emílio me disse isso. Era preciso ter bastante coragem e força interior para dizer ao seu melhor amigo que aquela que será, ou poderá vir a ser, a sua mulher está a morrer.
Emílio disse-me que estava cansado, trabalhava o dia todo e não parava um segundo. Ou fazia chás, ou cafés, ou estava à beira de Mary Ann a fazer-lhe companhia. Perguntei-lhe se precisava de ajuda e Emílio ficou bastante grato com a proposta. Logo no dia seguinte fui para casa dele ajudá-lo a tratar de Mary Ann.
Essa ajuda demorou pouco tempo, pois poucos dias depois Mary Ann faleceu. Morreu abraçada a Emílio. Emílio demorou algum tempo a recompor-se. Eu queria falar-lhe de um assunto importante, mas nem me atrevi a falar disso nos primeiros tempos.
Poucos meses depois, já Emílio se encontrava recomposto, falei-lhe do assunto que me andava a incomodar.
— Sabes, Emílio, eu acho que devias fazer um teste.
— Um teste de quê?
— Um teste da SIDA. A SIDA pega-se facilmente e a Mary Ann pode ter passado para ti uma carga de vírus.
— Achas? Não sei, nós tivemos poucas relações sexuais e tivemos sempre precauções.
— Mesmo assim deves fazer o teste. Porque se der positivo ainda podes ter a hipótese de te salvares.
— Está bem. Eu vou lá esta semana.
Felizmente o teste deu negativo e libertei-me das preocupações que carregava durante alguns meses.

Morte e Salvação (II)

I


Sento-me aqui, numa tarde de verão, a escrever, lembrando-me do passado. Não sei muito bem onde estou. Sei que estou numa secretária a escrever sozinho, deserto.
Não me lembro muito bem o que se passou antes de ter vindo aqui parar. Lembro-me das coisas passadas já algum tempo atrás. Nem sei que dia é hoje, que horas são, nem em que ano estamos, só sei que estou em pleno verão.
Não sei muito bem porquê, mas só me consigo lembrar de coisas tristes e, raramente, me vem à ideia alguma lembrança de alegria. Terei vivido só de tristeza? Será que não houve nada alegre na minha vida? Porque é que só me lembro de desastres e mortes? Não! Alguma felicidade deve ter havido. Não me consigo lembrar qual, mas deve ter havido. Nem que tenha sido curta.

A primeira coisa que me lembro, da minha infância, é da morte de James. Andávamos no quarto ano da primária, se não me engano. Sei que estávamos a brincar junto a uma linha de comboios. A jogar futebol. Já era tarde, talvez umas 7:00. Estafados, cansados, íamos para casa descansar, mas para irmos para casa tínhamos que atravessar a linha férrea. Primeiro passou Carl, depois foi Jack, depois eu e Mick e, por fim, foi Eddie. James tinha-se atrasado, porque ainda estava a apertar os cordões, que se tinham desapertado durante o jogo. Lembro-me de ver James a correr para nós com a sua mochilinha às costas. A meio da linha deixou cair a mochila. Ficamos assustados, pois vinha um comboio, ao fundo, na trilha onde James tinha deixado cair a mochila.
— Cuidado!!! — gritamos nós — Deixa para lá a mochila.
Mas James nem nos ouviu. Voltou para trás para buscar a mochila. O comboio estava cada vez mais perto. Estava quase a atropelar James quando este saltou para a outra linha, já com a mochila. Azar dos azares!!!! Na outra linha vinha outro comboio, acabado de sair do túnel, em sentido contrário. James foi apanhado pelo segundo comboio, ficando partido em dois. Nem ele nem nós iríamos adivinhar que ia haver ali, naquela zona, justo naquela zona, um cruzamento de comboios.
É claro que se torna impossível explicar o que sentimos naquele momento e o que se passou a seguir. Só me lembro de, passado uns dias, ter ido à missa de enterro de James.
Pessoas, já com alguma idade, a chorar e a berrarem desalmadamente. Lembro-me de ver alguns colegas meus a chorar, a chorar muito. Eu? Eu? Não, eu não chorei. Não verti uma única lágrima. Exteriormente, é claro. Porque interiormente eu sentia-me magoado, perdido, sem saber o que se tinha passado e nem o que estava eu ali a fazer.
Mas depressa esqueci o assunto. Quer dizer, eu não me esqueci do assunto, pois recordo-me perfeitamente o que se passou. Só que não me diz nada. Não mexe comigo.
Engraçado!! Já em criança a morte não me surpreendia.
Recordo-me também dos meus 5º e 6º anos escolares. Era um miúdo sossegado, não muito inteligente, perdido de mim mesmo, sem saber nada de nada. Curiosamente, a cena que recordo claramente desses anos foi quando numa aula de madeiras quase ia matando um professor. Coisa que me valeu três dias de suspensão.
Estava no final do meu quinto ano. As aulas de madeira eram uma completa selva. Salve-se quem puder. Toda a gente andava atarefada a querer fazer tudo mais depressa que os outros.
A meio de uma aula, ouço alguém a chamar-me:
— William! — gritou Stephen — William!
— Diz! — respondi eu. — O que é que queres?
— Tens aí uma serra?
— Tenho!
— Então atira-ma.
Stephen estava a uns 50 metros de mim. Olhei para o professor. Ele não estava a olhar. Ainda bem! Assim não precisava de me levantar para entregar a serra. Virei-me e atirei a serra a Stephen. O professor virou-se entretanto e ZÁS. A serra espetou-se, mesmo em cheio, na anca do professor. O professor caiu ao chão e deu um grito agudo. Os meus colegas entraram em pânico. As raparigas gritavam, berravam e algumas chegaram mesmo a desmaiar. Os rapazes aos berros olhando atentamente para o professor. Eu fiquei completamente aterrado, olhando o professor, sem conseguir dizer uma palavra.
Entretanto, entrou uma funcionária na sala e levou o professor até ao médico da escola, que, mais tarde, o levaria até ao Hospital. Eu e Stephen fomos dirigidos até ao Conselho Directivo, onde nos interrogaram. No final, pediram-me para, no dia seguinte, passar por lá.
No dia seguinte, quando cheguei à escola, recebi a notícia de que o professor tinha levado 4 pontos e iria ficar uma semana no hospital. Dirigi-me ao Conselho Directivo, como me tinham solicitado no dia anterior, e pedi para falar com o presidente. Bati à porta.
— Entre! — disse uma voz lá de dentro.
Entrei. Numa grande secretária castanha estava sentado o presidente do Conselho Directivo, o Sr. Grismy.
— Bom dia, William! — saudou-me Grismy. — Como é que estás? Hoje estás com melhor cara. Ontem apareceste, aqui, branco como a cal.
— Já estou melhor, Sr. Grismy. — respondi eu — Obrigado.
O Sr. Grismy endireitou-se na sua cadeira, acendeu um cigarro e disse:
— Pois bem! Tu ontem fizeste uma coisa muito má. Nós sabemos que foi sem intenção e que nem te passava pela cabeça, a ti e ao teu colega, que aquilo poderia alguma vez acontecer. Mas o certo é que aconteceu e nós, o Conselho Directivo, estivemos, ontem, aqui a conversar até bastante tarde a tentar decidir o que deveríamos fazer. E chegamos a uma conclusão. Agora, eu quero que tu saibas que isto não é um castigo, nem que te estamos a culpar do que aconteceu. O que te vamos fazer é só uma espécie de aviso, para que, o que tu e o teu amigo fizeram, não volte a acontecer, certo?
Eu abanei afirmativamente a cabeça. Perguntei:
— E qual foi a sentença a que chegaram?
O Sr. Grismy sorriu:
— Não lhe chames sentença. Fica muito forte. Até parece que te vão matar. Chama-lhe antes interrupção das aulas, ou melhor, férias forçadas.
— Férias forçadas, Sr. Grismy?
— É um modo mais simpático de dizer suspensão.
— Suspensão? — disse eu, assustado — De quantas semanas?
— Não, não. — riu-se o Sr. Grismy — Não são semanas. Isso é para quem se porta mal. E tu não te portas-te mal, pois não? São só três dias.
— Três dias?
— Sim. Mas não te preocupes, porque não é nada de grave. São só umas curtas férias para que penses bem no que fizeste e para que não voltes a repetir. Agora vai para as aulas.
Levantei-me. Ia a sair quando o Sr. Grismy me chamou:
— William!
— Sim?
— Chame-me, já agora, o seu colega Stephen. Quero falar com ele, também.
— Ele vai ser suspenso?
— Vai, mas não lhe digas nada. Quero ser eu próprio a dar-lhe a notícia.
— Mas, Sr. Grismy, ele não fez nada. Ele está inocente.
— Não. Inocente ele não está. Foi ele que te disse para atirares a serra. Foi dele que veio a ideia. Se calhar se ele não tivesse dito nada, tu não tinhas atirado a serra. Vai. Vai lá chamá-lo.
Foi. Stephen apanhou, também, três dias de suspensão. Coitado. Tive pena dele na altura. O pai dele nunca chegou, nem nunca quis, perceber porque é que o filho foi suspenso. Na cabeça do pai dele a suspensão significa que o aluno se portou mal, ou fez alguma merda que não devia. A suspensão ser um modo de ensinar, de prevenir, ou até como forma de aviso, para que não aconteçam mais acidentes, era demais para a cabeça dele. Por isso toca de bater no miúdo porque este foi suspenso, mesmo não sabendo as razões.
Quando Stephen apareceu, na escola, passado os três dias de suspensão, parecia que tinha passado um autocarro por cima dele. Coitado! Ainda me lembro da carinha tristonha que ele tinha quando voltou para a escola.

II


Encontro-me, aqui, a escrever, sem saber onde estou. Sozinho, deserto, recordo-me do passado. Um passado onde poucas são as recordações alegres. mortes, desastres, sofrimentos, isso tudo pertence à minha vida. A felicidade, a alegria, o entusiasmo, ou passaram-me ao lado, ou, então, não tiveram qualquer significado para mim, pois não me lembro delas.

Por exemplo nos meus 8º e 9º anos escolares. Na altura em que eu acordei de um sono profundo que vinha dormindo há já vários anos. Tenho algumas boas recordações desses anos. É certo que também fiz algumas asneiras, mas isso toda a gente faz.
O 9º ano, principalmente, foi o ano mais incrível para a minha turma. Era uma turma bastante unida. Quando um tinha problemas, os outros ajudavam. E se um fazia asneiras, os outros também faziam, aliás, estávamos sempre a fazer asneiras. As empregadas da escola nem nos podiam ver à frente. Se havia qualquer problema na escola as primeiras suspeitas caiam na nossa turma.
Só tínhamos um pequeno problema: é que a escola ficava situada no centro de um bairro, que era muito mal frequentado. Brigas, lutas, pancadarias, boxe ao ar livre, eram frequentes naquela escola. Era raro o dia em que não houvesse, à hora do almoço, uma grande espera, à porta da escola, com paus, navalhas, facas e até armas. Era muito perigoso ir para aquela escola. Não nos podíamos meter com ninguém na rua, se não, corríamos o risco de levar com uma navalha.
Recordo um dia em que Michael teve a infelicidade de se meter com um cigano da zona. Nós tinhamo-lo avisado de que era perigoso meter-se com as pessoas que iam a passar na rua, podia passar alguém do bairro e aí haveria sérios problemas. Mas ele não nos quis ouvir. Um dia lá teve a infelicidade de acertar com um apagador num cigano. Ainda por cima num cigano. Claro, é fácil de prever o que aconteceu a seguir. 43 gajos armados até aos dentes com pedras, facas e navalhas à porta da escola à espera do «gadjo que acertou no Piquito». Ninguém conseguiu sair da escola. Os empregados não deixavam. Era ao ultimo tempo da tarde, toda a gente queria ir para casa.
Michael tremia por todos os lados, estava escondido no bufete, que se situava na parte de trás da escola.
— Eles vão-me matar, William. — disse Michael, a chorar — Eu não quero morrer. Chama a polícia. Por favor!!!
— Tem calma. — disse eu — Tudo se resolve! Descansa que ninguém te vai matar.
Dirigi-me até porta onde estava o pessoal todo ensalsichado, implorando para sair. Perguntei ao Sr. Rosenberg se já tinham chamado a polícia.
— Já, meu filho! — disse o Sr. Rosenberg — Já lhes telefonei à um quarto de hora. Devem estar aí a chegar.
Pois sim!! Só passado meia hora é que apareceu a polícia e, ao princípio, os ânimos não acalmaram, muito pelo contrário, pioraram. Mas depois a polícia conseguiu dominar a situação e nós pudemos sair, com segurança, da escola. Michael foi para casa num carro da polícia, para evitar qualquer ataque, ou perseguição, por parte dos ciganos.
Tudo voltou, depois, à normalidade. Já ninguém se lembrava do assunto, até um dia. Tinha passado mais ao menos um mês. Michael estava a faltar. Estávamos a ter aulas com a nossa Directora de Turma, a professora de Matemática, quando uma empregada bateu à porta.
— Entre. — disse a professora — A porta está aberta.
A empregada entrou olhou para nós de soslaio e disse:
— Sr.ª Doutora, estão a chama-la ao telefone. Parece que é da polícia.
A professora saiu esbaforida da sala. Nós ficamos mudos, olhando uns para os outros. Passado um quarto de hora a professora entrou na sala a chorar.
— Era, — disse a professora, aos soluços — efectivamente, da polícia a dizer que o aluno Michael Grain tinha sido encontrado morto, esfaqueado, a poucos metros da escola. O principal culpado já foi apanhado. O funeral é daqui a uns dias.
Toda a turma ficou imóvel, estática, muda, sem dizer uma palavra. Choravam todos em silêncio. Alguns, como eu, nem chegaram a chorar, limitaram-se a olhar pensativamente para o infinito.
Desta vez não fui ao funeral. A escola era para fechar no dia do funeral, mas os professores não deixaram, porque assim ninguém, ou quase ninguém, ia ao funeral. Achavam que nós éramos demasiado jovens para assistir a uma carga emocional daquele tamanho. Mesmo assim fomos obrigados a fazer um minuto de silêncio, em todas as disciplinas.
Poucos meses depois acabou a escola e depressa esqueci aquele incidente.

...

Está a escurecer. Acendo duas velas para continuar e escrever. Um silêncio profundo rodeia-me, o único barulho é o da minha caneta a escrever. Gostava de saber onde estou. O que é que aconteceu? Tento recordar-me, mas só me lembro de coisas antigas. O que hei-de eu fazer? Só me resta escrever aquilo que vou recordando, talvez, assim, me lembre do que aconteceu antes de eu ter vindo para aqui.

...

Julie!!! Sim, lembro-me perfeitamente de ti. Os teus cabelos castanhos caindo pelos ombros, os teus olhos azuis, profundos e tristes olhando para o infinito, a tua boca desejosa de um beijo. Ahhh! Julie! Como sinto a tua falta.
Conheci-te no 11º ano. Andavas tu perdida no mundo e vieste-me pedir ajuda. Não nos conhecíamos, mas mal te vi senti uma forte sensação que nunca consegui explicar. Cruzavamo-nos muitas vezes nos corredores da escola, falávamos de vez em quando nos intervalos. Um dia vieste ter comigo a pedir ajuda. Não sabias o que fazer e eu ajudei-te. A partir desse dia a nossa vida nunca mais foi a mesma. Sim, acho que valeu a pena ter vivido só para ter passado aqueles maravilhosos momentos contigo. Foram raras as vezes em que nós nos zangámos. Raras eram as vezes em que estávamos tristes. Toda a nossa vida foi vivida em conjunto.
Mais tarde viríamos a casar. Tal como toda a gente faz, também nós fizemos a despedida de solteiro. Lembro-me, como se fosse ontem, da minha despedida de solteiro. Convidei todos os meus amigos e algumas amigas. Tínhamos reservado um bar só para nós. Eram 10 horas da noite quando a festa começou. Bebidas, comidas, coktails, digestivos, aperitivos, e muito mais. Nada faltava, até droga lá havia. Já a noite ia alta quando Miles começou a sentir-se mal. O pessoal já estava tão bêbado e pedrado que nem ligou muito ao assunto. Jack e eu ficamos preocupados com Miles e fomos com ele até à porta do bar apanhar ar. Passado uns minutos Miles desmaiou. Mandei imediatamente chamar uma ambulância, mas nem por eu ter dito que era uma emergência, a ambulância não veio mais depressa. Demorou três quartos de horas a chegar. Já Miles parecia um morto.
Seguimos, todos, a ambulância até ao hospital. No Hospital só deixavam entrar duas pessoas. Entrei eu e Jack.
Estivemos lá até às 8:30 da manhã. Miles estava em coma profundo com uma overdose. Telefonei a Julie, explicando o que se tinha sucedido. Chegamos mesmo a pensar em mudar a data do casamento, mas não mudamos. Por isso às 15:30 começou a missa.
Eram quase 17:00, quando saímos da igreja. Dirigimo-nos até ao restaurante onde se ia realizar o copo de água. A festa durou até às 3:00 do dia seguinte. Estava eu a arrumar as minhas coisas, quando Jack veio ter comigo.
— William. — disse Jack branco como a cal — Tens uma chamada para ti do hospital.
Empalideci. Fiquei imóvel durante uns segundos, receando o pior. De repente, corri para o telefone. Sim, era verdade Miles tinha morrido.
Tinha acabado de desligar o telefone quando Jack me perguntou:
— Então? O que era? Fala. Diz alguma coisa. O que é que aconteceu com Miles?
— Miles morreu, Jack. — disse eu, ainda confuso — Overdose. Morreu à dez minutos atrás.
— Mas..... — disse Julie, aterrada — Mas isso é terrível.
— Sim, é terrível. — disse eu — Mas foi o futuro que ele escolheu. Foi o rumo que ele seguiu. Foi ele que quis assim. Nunca nos deu ouvidos.
Não disse mais nada, virei costas e continuei a arrumar as minhas coisas. Despedi-me de Jack e, juntamente com Julie, fomos para nossa casa. Acho que nunca ninguém teve uma noite de núpcias como a nossa. O nosso casamento começava bem....
No dia seguinte recebemos a notícia de que Vincent e Tom tinham também entrado no hospital, mas com uma coma alcoólica. Felizmente já estava tudo bem e nenhum deles corria perigo. Julie e eu decidimos que deveríamos ir para Lua de Mel o mais cedo possível. Queríamos abstrair-nos de tudo o que estava a acontecer à nossa volta. Queríamos estar sós, sem que ninguém nos chateasse.

Já está escuro. Quase não vejo o que estou a escrever. Acho que vou dormir. É engraçado, mas não se ouve qualquer ruído. Onde estarei eu? Que estarei eu a fazer? Porque será que me dá para escrever tudo o que me lembro? O que será que aconteceu?

III


Acordo! Olho à minha volta e só vejo o deserto. Sinto-me só. O sol já vai alto, devem ser mais ou menos onze horas. Vou dar uma volta para ver se vejo alguma coisa. Vaguei-o, vaguei-o e nada. Não encontro ninguém, mas ontem à noite pareceu-me ter ouvido música para estes lados. Onde estarei eu? Não sei. Volto para a minha secretária. Agora me lembro: o que faz uma secretária no meio deste deserto? Tantas perguntas e nenhumas respostas.

Quando andava no secundário, eu fazia muito desporto e andava sempre em jogos. O jogo que me terá marcado mais nessa época, foi com certeza a final das Inter-Escolas de Futebol. Andava eu no 12º ano. A minha equipa era: O Mark como guarda-redes; o Jimmy e o Richard à defesa; o John a meio campo; o Jack e eu a avançados. Recordo que faltavam dez minutos para acabar o jogo e estávamos empatados 2-2. Os adversários só davam porrada, não sabiam jogar sem dar um pontapé ou um soco a alguém, por isso já havia alguns lesionadas na nossa equipa. John coxeava, Richard sangrava da perna e do nariz e Jimmy tinha sido substituído por Charles, devido a ter fracturado o pulso.
De repente o avançado nº5 dos adversários ia isolado para a baliza, Richard tenta tirar-lhe a bola, mas não consegue. Charles foi a correr e para lhe tirar a bola foi-lhe directo aos pés. O nº5 caiu, deu duas cambalhotas no chão e foi a escorregar até bater com a cabeça no poste da nossa baliza. Levantou-se, quase de seguida, e disse que estava tudo bem. O pessoal estava completamente aterrorizado desviando o olhar, ele tinha a cabeça totalmente aberta e o sangue escorria por todos os lados. Ele sem dar conta do seu estado perguntou:
— O que é que se passa? Eu estou bem, só estou um pouco tonto, mais nada.
Pouco depois caiu para o lado, desmaiou.
Corri a chamar uma ambulância. Uns minutos depois lá apareceu a ambulância e levou o jogador para o hospital. Vim a descobrir mais tarde que o jogador chamava-se Raúl e que tinha vindo da América Latina. Fui visitá-lo duas semanas depois do acontecido. Quando entrei o médico ainda estava no quarto a examiná-lo.
— Boa tarde! — disse eu em voz baixa — Como se encontra o Raúl.
— Boa tarde! — disse o médico — O Raúl teve sorte, sabes? Teve sorte porque não perdeu nenhuma massa encefálica, por isso não deve correr grandes riscos. Mas ele tem uma grande fractura cerebral, o que pode levar a um traumatismo bastante profundo. Ele, por enquanto, não pode falar, mas pode ouvir. Queres ficar a falar um bocado com ele?
— Se não se importar...
O médico saiu da sala, deixando-me sozinho com Raúl. Fiquei um bom bocado a conversar com ele. Ele, como não podia falar, respondia-me com acenos ou com gestos.
Dois meses depois Raúl saiu do hospital. Mas nunca mais foi o mesmo, tinha um traumatismo craniano muito profundo. Não se percebia o que ele dizia e nunca mais conseguiu andar direito. Tinha ido visitá-lo a casa. Devo dizer que fiquei bastante impressionado com o que vi. O que te fizeram, Raúl? O que é que te aconteceu? Eras um rapaz tão jovem, tão novo e de um momento para o outro ficaste perdido para sempre. Sim, Raúl, tive pena de ti, tive bastante pena de ti, embora não te conhecesse de lado nenhum.

...

Está calor. Um calor abrasador. Tiro a camisa, fico só em T-Shirt. Relembro ainda Raúl e o seu acidente. Não ouço um único barulho à minha volta. Sinto uma vontade irresistível de escrever à medida que me vou lembrando do passado. Ainda não sei onde estou, mas tenho uma leve impressão de que se continuar a escrever, vou-me lembrar do que aconteceu e como vim aqui parar.

...

Acabado o 12º ano, eu, Julie e Jack, fomos para a faculdade. Esses anos foram muito maçadores. As aulas eram chatas, não se fazia nada de excitante e tínhamos muito pouco tempo disponível. Lembro-me de, a meio do quarto e último ano, pouco antes do meu casamento com Julie, ter havido um torneio de futebol académico. A minha equipa tinha chegado à final. Na final tivemos que jogar com outra faculdade. Por azar as duas faculdades eram rivais, o que tornou o jogo muito competitivo e com muitas faltas.
Tinham só decorrido dez minutos e já tínhamos mais de metade da equipa lesionada. Eu tive de sair devido a uma grave lesão na perna esquerda, mas fiquei sentado no banco, junto ao treinador, a ver o jogo. Estávamos quase no intervalo quando os adversários atacam. Joseph, nosso guarda-redes, partiu em direcção à bola, atirou-se para cima do adversário e, ao cair, partiu uma perna. Eu tive de entrar outra vez em campo, porque já não tínhamos mais suplentes no banco, e substitui Joseph na baliza.
A segunda parte do jogo teve menos faltas. Lembro-me de olhar para o placar e ver que faltavam quinze minutos para acabar o jogo, olhei em frente e vi Tom a atacar. «Vai dar golo», pensei eu. Tom passou para Jerry, este foi direito à baliza, mas um defesa adversário tapou-lhe a jogada com um empurrão, Jerry caiu e foi a escorregar até ao poste esquerdo da baliza, onde bateu fortemente com as costas. O árbitro apitou para pénalti. Foi o descalabro total, os jogadores pegaram-se todos à pancada e os treinadores corriam atrás do arbitro para lhe foder o focinho. Eu fui ter com Jerry e perguntei-lhe se estava bem.
— Eu estou bem, — disse Jerry — só que não me consigo mexer.
Fiz um sinal ao médico e ele veio logo a correr. Examinou Jerry de alto a baixo, afastou-se um bocado e chamou-me. Fui.
— Ele tem a coluna partida. — disse o médico com um ar bastante sério — Temos de levá-lo urgentemente para o hospital, pode ser que ainda se salve de ficar paralítico.
Um quarto de hora depois, chegou a ambulância. Os jogadores continuavam todos à pancada e os enfermeiros tiveram de passar pelo meio deles. Pousaram Jerry na maca e rapidamente poseram-no na ambulância. Eu fui chamar Jack a casa.
— Jack!! — disse eu, mal Jack abriu a porta de casa — Anda comigo até ao hospital. O Jerry ficou gravemente ferido durante o jogo.
— Mas.... — disse Jack, aterrorizado — Mas o que é que ele tem? O que é que lhe aconteceu?
— Anda embora. — disse eu, apressado — Conto-te tudo pelo caminho.
Jack vestiu o casaco e entrou no meu carro. Pelo caminho fui-lhe explicando tudo o que tinha acontecido. Quando chegamos ao hospital, mandaram-nos esperar numa salinha apertada. Passado poucos minutos um médico veio ter comigo.
— É o Sr. William McGrow? — perguntou-me ele.
— Sou. — respondi eu, enquanto me levantava — Como está o Jerry?
— O Jerry está neste momento a ser examinado. — disse o médico — Ele partiu a coluna e fracturou mais alguns ossos. Mas as probabilidades de ele voltar a andar são muito reduzidas.
— Mas ele vai ficar totalmente paralítico? — perguntou Jack — Ou há possibilidades de ele se mexer em outras partes do corpo?
— É exactamente isso que estamos a ver. Ele deve ficar paralisado da cintura para baixo. Agora vamos ver se conseguimos salvá-lo da cintura para cima.
O médico retirou-se. Acendi um cigarro e fiquei à espera de mais notícias, Jack foi telefonar para casa de Jerry a informar a família do sucedido. Passado meia hora o médico voltou a aparecer.
— Tal como eu vos tinha dito, — disse ele, com um ar sério — o Jerry só ficou paralisado da cintura para baixo, de resto pode movimentar todos os membros.
— Então, quer dizer que.... — disse eu, hesitando — ...que ele vai ter que andar de cadeira de rodas para o resto da vida?
O médico olhou para mim, olhou para Jack e disse:
— Infelizmente sim.
— Podemos visitá-lo? — perguntou Jack.
— Claro que sim ele está no quarto 432.
Fomos até ao quarto e quando chegamos Jerry estava na cama ainda inconsciente.
— Ele deve estar quase a acordar. — disse o médico — O efeito da anastesia dura pouco tempo.
Efectivamente, passado pouco tempo Jerry acordou.
— Bem, — disse o médico — se me permitem eu vou-me retirar.
— Com certeza. — disse eu — Muito obrigado pela sua ajuda.
Eu e Jack ficamos um bocado a falar com Jerry. Quando íamos a sair, estavam a chegar o pai e a mãe. Tivemos um bocado a falar à porta do hospital. Parece incrível que a universidade não os tivesse contactado, eles só souberam o sucedido quando Jack lhes telefonou.
Durante quase um mês Jerry não apareceu na universidade. Eu abandonei o desporto, tinha acontecido muita coisa, Raúl tinha ficado incapacitado de pensar e mal conseguia falar e depois foi Jerry que ficou paralítico.

Morte e Salvação (I)

Entre o início de 1997 e o início de 1998, passou-se muita coisa. É exactamente nesse periodo que escrevo a "Morte e Salvação". Um ano atribulado com muitas alegrias e tristezas. Depois do "ano louco" de 1997 (até Setembro) era óbvio que viria a "ressaca" e do final de 1997 até meados de 1998 foi um período de grande angústia, onde o tempo passava devagar, não havia luzes ao fundo do horizonte, não havia certezas em relação ao futuro. Este "alto e baixo" veio influenciar radicalmente este conto.
Este conto marca definitivamente o meu estilo. Finalmente, após algumas tentativas, consegui chegar ao ponto que queria, atingi o meu objectivo. É sem dúvida alguma um dos textos mais importantes da minha obra, o mais marcante, o mais feroz, o mais violento, o mais raivoso, o mais sofredor e, sim, o mais suicida...
Acho que o prólogo e, principalmente, o epílogo transmitem tudo sobre o conto e fazem a sua própria reflexão, por isso escuso de me estar aqui a repetir.


Prólogo

Este conto deve ser visto como uma série de contos ligados por um fio lógico, que é a vida de William. Ou como uma recordação de coisas passadas, vividas intensamente, e das quais jamais esquecera-mos, mesmo depois da morte.
Este conto teve como primeiro título Morbidez, título que ainda consta na disquete, devido a toda a história ser macabra e mórbida. Mas depressa abandonei este título, alterando-o para Morte e Ressurreição, mas com a continuidade da história decidi mudar para o título actual.
Título este que se pode ler de duas maneiras: Morte e Salvação ou Morte é Salvação.
Durante a realização deste conto, fui mudando muito, quer na maneira de pensar, quer na de agir, o que veio modificar o rumo da história.
Esta história é, fundamentalmente, uma grande reflexão sobre a morte, e sobre a sua ligação eterna com o ser humano. Sei que esta reflexão e esta maneira de ver a Morte pode levantar grandes dúvidas e grandes polémicas, mas retracta o meu ponto de vista sobre o homem e sobre a Morte.

Porto 6 de Março de 1998

setembro 08, 2004

Balanço 1997

Reflexão sobre, talvez, o ano mais importante da minha vida. Acho interessante chegarmos ao final do ano e fazermos uma pequena reflexão sobre o que se passou nesse mesmo ano. Tenho pena de nunca mais o ter feito, ou pelo menos de o deixar escrito.
Gostava de voltar a sentir a energia que senti neste ano. Gostava de voltar a sentir as coisas daquela maneira. Gostava de deixar de ser péssimista e ser "inocentemente" feliz. Aliás, se eu pudesse, tinha congelado o tempo naquela altura, pelo menos antes da morte do meu avô!
Balanço do ano de 1997

Com eu digo, várias vezes, a vida é difícil de compreender. Acontece sempre alguma coisa que no deixa ou perplexos, ou contentes.
Agora dizer que um ano onde aconteceram alguns desastres, foi um ano bom, talvez o melhor da minha vida, pode parecer estúpido. Mas não é, estúpido é este mundo e a humanidade que o governa.
Este foi um ano que ficará sempre e para sempre no meu coração!
Foi um ano em que consegui realizar a maior parte dos meus desejos e durante o qual aconteceram-me as coisas mais fantásticas.
Um ano em que consegui finalmente criar, juntamente com alguns colegas, um mini-cineclube. Se bem que esse cineclube provocasse algumas dúvidas em relação à suas estrutura. Esse cineclube teve desde o princípio vários problemas, o maior deles todos foi a falta de espectadores. Problemas esse que só conseguimos vencer na recta final, quando já nos declarávamos vencidos e que, perante a ideia de uma professora e o empenhamento de alguns alunos, incluindo eu, conseguimos fazer duas últimas sessões com lotação quase esgotada.
Foi um ano em que conseguimos publicar uma revista multimédia, de seu nome CA2, que provocou algumas reacções na imprensa pública.
Foi, também, um ano em que fiz uma viagem paradisíaca a Paris, onde ficaram para sempre na minha memória uma Marlene, uma Filipa, uma Ana, uma Dália Dias e todas as outras pessoas que partilharam comigo aquele momento. Viagem esta que me mostrou, além da linda cidade que é Paris, que a vida às vezes, e só às vezes, tem momentos belos. Para mim, “Eles terão sempre Paris” (In Casablanca de Michael Curtiz), tal como Rick (Humphrey Bogart) e Ilsa (Ingrid Bergman), viveram momentos inesquecíveis em Paris, também eu os vivi no mesmo local.
Foi, igualmente, um ano em que fiz uma viagem alucinante a Évora, onde ficaram para sempre na minha memória um Freitas, um Rui Almeida, uma Dália Dias (mais uma vez), uma Patrícia e uma Bárbara, estas últimas que tiveram, também, o prazer de partilhar comigo a paradisíaca viagem a Paris. Foi nesta viagem que descobri que não vale a pena ficar parado à espera da morte, e que vale a pena viver a vida, mas vivê-la com intensidade, e que por mais dissabores e desgostos que ela traga, devemos procurar passar por cima, ultrapassá-los, porque afinal a vida é boa e vale a pena vivê-la.
Foi, mais uma vez, um ano em que finalmente consegui ouvir de uma professora que era o melhor aluno da turma, e que consegui comprová-lo. Foi um ano em que consegui provar, e descobrir, que não era burro nenhum e que conseguia ser superior a outros. Foi um ano em que dei uma lição de moral aos meus colegas, mostrando-lhes que a visão que eles tinham da vida e do futuro estava errada.
Foi um ano onde fiz uma grande viagem pela Europa, onde ficaram na minha memória uma Veneza fantástica, uma Florença assombrosamente espectacular, uma Verona por descobrir e uma Barcelona absolutamente alucinante. Foi, também, nessa viagem que descobri o quão chatos são os meus pais, tanto a mãe, que eu já conhecia essa faceta, como o pai, o qual me surpreendeu, pois nunca pensei que ele conseguisse ser mais chato que a minha mãe, coisa difícil de se concretizar.
Foi um ano em que eu tive algumas aventuras e desventuras. Algumas aventuras que se calhar gostaria que tivessem sido algo mais de concreto, outras as quais não me importei que fossem só aventuras.
Mas, principalmente, em primeiro lugar, em primeiríssimo lugar, muito acima das coisas que já foram descritas, este foi um ano que me provocou uma grande tristeza, levando embora uma pessoa de quem eu muito gostava e que ficará para sempre e sempre, não na memória, mas no coração. Essa pessoa que infelizmente, ou felizmente, a morte decidiu visitar, foi uma pessoa que me ensinou muitas coisas, mesmo na sua recta final. Foi uma pessoa que com a sua ida me levantou uma tremenda raiva pela vida, mas que, depressa se dissipou e que, com a qual, aprendi o que é viver, o que significa viver, o que custa viver, mas, principalmente, a viver. Foi uma pessoa a que devo tudo pelo que fez por mim, pelo carinho que deu por mim, por tudo..... Nunca, mas nunca, esquecerei tudo o que aprendi com ela antes e depois da sua ida, para o outro lado. Foi talvez toda essa tristeza, toda essa fúria, raiva, ódio, pudor, que fizeram a viagem a Évora, realizada poucos dias depois da sua ida, uma viagem completamente alucinante.
Resumindo todas estas coisas e outras que não estão aqui reveladas, contribuíram para que este fosse o melhor ano da minha vida. Foi um ano em que eu consegui provar que o meu pensamento, a felicidade só traz tristeza, é verdadeiro e perfeitamente aplicado à raça humana, da qual eu não quero pertencer (a visita da morte). Mas, consegui, também, dar a volta a esse pensamento e contrariá-lo, vivendo, logo após essa tristeza, um dos momentos mais belos da minha vida (a viagem a Évora).
Foi um ano em que suei e sofri muito, mas foi um ano em que eu, finalmente, consegui por momentos ser feliz, coisa rara nos dias de hoje. Vivi mais neste ano, do que certas pessoas em dois anos. Aprendi muito sobre a vida e, consegui descobrir, que a vida é bela e vale a pena lutar e procurar pelo que de belo ela nos oferece, nem que para isso tenhamos que suar, sofrer, ou até mesmo cair.
Este ano ficará no meu coração.
Hugo Valter Moutinho

P.S. - Vivi muito este ano, poderia chegar ao exagero de dizer que nada mais me resta viver depois disto. É verdade que depois de tudo o que se passou neste ano, tudo o resto é banal, mas eu vou continuar a viver a minha vida intensivamente, sempre que for possível, porque ainda tenho muito que aprender e viver.
Posso não aceitar bem a raça humana, posso não gostar deste mundo, mas eu não pedi para vir para cá, e já que cá estou quero procurar o que de belo cá há. Mesmo que seja difícil, num mundo tão ingrato.
1997

A Missa

Mais um delírio. (Hmm...! Começo a reparar que afinal tenho mais delírios e devaneios do que pensava. Tinha uma ideia muito mais obscura dos meus textos.)
Este texto é pura loucura. Parte de uma conversa de amigos sobre um padre que dava a missa perto de um campo de futebol, o qual às vezes se distraía, ou dava a missa a correr, em dias de jogos mais importantes. Depois foi só dar asas à imaginação e juntar um pouco de loucura...
No fundo deste texto esconde-se uma luta entre o bem e o mal. Acho que se consegue ver um anjinho e um diabinho a pairar sobre a cabeça do padre, manipulando-o cada um para seu lado.
(Depois deste texto, acho que posso esquecer o meu lugar no céu...)


A Missa

Eu nem estava muito disposto a ir à missa. Aliás, raramente vou à missa, mas naquele dia a minha família pediu para eu ir. A nossa aldeia estava em festa e era indecente não ir à igreja no dia da festa.
Por azar, ou sorte, naquele dia havia, também, um jogo de futebol: o Moreirense contra o Tireirense a contar para a final da Taça Inter-Distrital da 15ª Divisão. O estádio, ou melhor, o campo de futebol do Moreirense ficava mesmo ao lado da Igreja.
Conclusão na Igreja estavam todas as mulheres da aldeia e no campo de futebol estavam todos os homens da aldeia, todos não, haviam dois desgraçados que não estavam no campo, eu e o Padre.
A muito custo lá fui para a Igreja, ainda pensei que da Igreja se podesse ver alguma coisa do jogo, mas não, o único sítio de onde se poderia ver alguma coisa era do altar. O Padre chegou pouco depois, com cara de poucos amigos, amuado, via-se mesmo que, como eu, preferia estar a ver o jogo, do que estar ali.
A missa começou às três horas, quase ao mesmo tempo que o jogo de futebol. O que se passou a seguir fui completamente insólito, uma coisa inacreditável à qual eu nunca vi igual e que nunca esquecerei.
O Padre começou a dar a missa sempre a olhar para o lado, ou seja, para o jogo de futebol e dava a missa a correr, como se quem esta com pressa ou tem pouco tempo para explicar.
O jogo tornou-se emocionante demais e o padre entrou em paranóia e já não conseguia dizer coisa com coisa.
E, um dia, os 12 Apóstolos estavam a brincar e a conversarPassa, filho da puta, olha o Mateus isolado, caralho! Passa para o João Baptista.
As pessoas ficaram a olhar espantadas para o padre. Este vendo que tinha metido água, ficou vermelho e não sabia o que dizer. A mim deu-me vontade de rir, mas com medo que a minha família leva-se a mal mantive-me sossegado.
Jesus foi ter com Judas, enfrentou-o cara a cara e disse-lhe:Cartão Vermelho? Filho da puta, gatuno, ladrão, paneleiro.... — o padre, atrapalhado tentou emendar o que tinha dito — Ahhh... Quero dizer....... Não fui muito bem isto que ele disse, mas vai dar quase ao mesmo.
Eu estava perdido de riso, tive de fazer um grande esforço para não desatar à gargalhada.
Jesus, antes de morrer, levantou-se e disse:PENALTI!!!!!! É Pénalti! Ohhhh!! Ohhh!! Ehhhh!!!!
Ao ver o padre aos saltos e às voltas, como os índios na Dança da Chuva, não me consegui aguentar e desatei à gargalhada. As velhotas resmungaram qualquer coisa como: «Se tem algum jeito, que pouca vergonha!!». O padre quando voltou a cair em si ficou mais vermelho do que nunca e ficou ainda mais vermelho quando viu que o Moreirense tinha falhado o pénalti.
Entretanto ouvi o apito do arbitro para o intervalo.
— Bem, — pensei eu — segundo os meus cálculos, o padre vai-se acalmar um bocado e a missa, por uns momentos, deve correr sem problemas.
E correu, pelos menos até à segunda parte do jogo.
E Jesus desceu à Terra e disse:GOLO!!!!! GOLLLOOOOOOOOO!!!!
As velhas já não estavam a gostar muito da brincadeira. Resmungavam para dentro, como se estivessem a blasfemar. Eu achava aquilo hilariante e espantoso
O padre sentou-se, pediu desculpas e ficou durante um bocado em silêncio. Pouco depois levantou-se e continuou a cerimónia.
Jesus enquanto passeava pela Galileia viu um cego a chorar e a andar de um lado para o outro. Fui ter com o cego e perguntou-lhe:Fora de jogo!!! Está fora de jogo, está fora de jogo!! Até um cego via isso, caralho...
Mais uma vez desatei à gargalhada. As pessoas começaram a abandonar a igreja, furiosas.
A missa estava quase a acabar e o padre estava nervoso.
Peço desculpa. Eu hoje não me sinto muito bem. Peço desculpa por todas as asneiras que fiz aqui. Só vos quero dizer que.....GOOOOOLOOOO!!!! Caralho, Foda-se. Puta que vos pariu, chupai aqui que a taça já é nossa!!!Quer dizer..... não era bem isso que eu queria dizer.... Bem... A missa acabou. Podem sair e ide com deus. Eu nome do Pai, do Filho, e do Espírito Santo, que foi quem marcou agora o golo.
E dito isto levantou-se e foi embora.
Nunca mais me esquecerei deste dia tão insólito, além disso o Moreirense ganhou ao Tireirense por 3-1 e pela primeira vez ganhou a Taça Inter-Distrital da 15ª Divisão.
1997

setembro 06, 2004

O Meu Mundo

Texto muito confuso... tal como o meu mundo.
Contradição, devaneio, raiva e asco pelo Ser Humano. A minha personalidade começa a ficar magoada, farta, saturada de todos os jogos e brincadeiras dos seres humanos, de todas as suas injustiças e julgamentos, de toda a sua supra-macia ignorante.
Basicamente, aqui, estou chateado com o mundo, se bem que de uma forma um pouco perdida...


O Meu Mundo

Dizem que eu ando deslocado, que sou uma pessoa estranha e que, de vez em quando, sou solitário.
Eu não sou nada disso. O que se passa é que eu vivo num mundo diferente, no meu mundo. Talvez por isso é que as pessoas achem que eu ando deslocado da vida, mas não, apesar de viver num mundo diferente, sinto-me inteiramente integrado nele.
Estranho??? Não acho que seja, apenas vejo as coisas de outro modo, enquanto vocês são indiferentes ao que se passa à vossa volta e só pensam em vocês mesmos, sem ajudar os outros; eu não!! Eu vejo tudo, sei tudo e, principalmente, sei olhar de frente para os outros e ajudá-los.
A vantagem de viver num mundo próprio é que se pode ver tudo, tudo o que se passa no outro mundo (o vosso mundo).
Solitário, dizem vocês!!! Talvez o seja, de vez em quando, mas isso deve-se ao facto de o meu mundo ser pouco habitado e de não me conseguir adaptar ao vosso mundo. Mas eu não me preocupo muito com isso, pois sinto-me muito bem sozinho.
“Mais vale só do que mal acompanhado”, não é o que dizem? E qual é a pior companhia do que a do Homem?
Não!!! Prefiro o meu mundo, o vosso é muito agitado, as pessoas passam a vida a correr de um lado para o outro, não têm tempo para se divertirem, nem para gozar a vida. O meu mundo é pacato, sossegado, há tempo para tudo: para pensar, para nos divertirmos, para trabalhar, enfim, para tudo... sem pressas, nem correrias.
Enjoy the life and “Seize the day”.
Digam o que disserem, eu prefiro o meu mundo, não é estúpido, injusto e imoral como o vosso.
Não me interessam o que os outros dizem, ou pensam, eu sou como sou e o meu mundo é como é e ninguém tem nada com isso.
1997

Pensamento...

A grande reflexão. Finalmente a coragem de pesquisar o forro introspectivo, de gritar os pensamentos mais obscuros. Finalmente a grande entrada no mundo obscuro que paira na minha cabeça e a afirmação de um estilo. A sombra da Morte abre-se, deixa de ser uma linha ténue para se afirmar definitivamente.
Curiosamente, o remate deste texto traduz toda a metáfora da minha vida.



Às vezes apetece-me viver.
Às vezes apetece-me morrer.
O sofrimento é maior do que a alegria,
Mas a vida continua e
O mundo não pára........
Num segundo.


O mundo, às vezes, é difícil de compreender.
O ser humano é difícil de entender.
Sabem o que dá uma junção de um mundo incompreensível
Com um ser humano difícil de entender?
Dá um planeta chamado terra,
Onde todos estão juntos,
Mas ninguém se entende
E cujo lema é: «Salve-se quem puder».


Às vezes pergunto-me porque é que ainda estou aqui.
Às vezes pergunto-me se não será melhor o outro lado.
Às vezes preferia estar do outro lado do que aqui, mas,
Às vezes, tenho medo do outro lado e,
Às vezes, gosto de estar aqui.
Às vezes fico indeciso sobre qual dos dois será melhor.
Às vezes pergunto: «E se o outro lado é pior do que aqui?»
Às vezes respondo. «Não!! É impossível! Nada é pior do que isto...»
Não sei....... mas acho que ainda vou ficar aqui mais algum tempo e,
Quando me fartar, dou um salto na obscuridade e viajo para o outro lado.

Nasci para morrer
Quando morrer viverei

setembro 02, 2004

AIDS No More (III)

VII
Passado uns dias James recebeu um telefonema. Era Watson a dizer-lhe que a operação era para o dia 13 de Maio. James tinha dois meses pela frente antes da operação.
Esses dois meses passaram bastante depressa, no ponto de vista de James, mas, mesmo assim, James não recuou na sua resposta.
No dia 10 de Maio James telefonou para Watson.
— Estou? — perguntou Watson — Quem fala? Ahh! És tu James. Então como te sentes?
— Mais ou menos. — respondeu James, com a voz seca — Os meus nervos é que estão um bocado descontrolados.
— Isso é normal, não te preocupes. — disse Watson, que tentava ser o mais natural possível.
— A que horas é que tenho que estar aí? — perguntou James.
— Quando? Para a operação? Às 9:30 da manhã. Pode ser?
— Sim. Por mim tudo bem.
James despediu-se de Watson e desligou o telefone. Foi ter com Christine e disse-lhe a que horas é que tinha que estar no hospital.
Christine chorou, chorou muito antes de lhe perguntar:
— Jim? Porque é que as pessoas têm de morrer?
— Essa sempre foi e sempre será a grande questão no mundo. — disse James, pensativo — Um homem vive para morrer e ninguém sabe porquê. Eu, pelo menos, tenho uma boa razão para morrer. Posso morrer, mas, ao menos, salvo milhares de pessoas da morte. Morro de consciência tranquila, sei que fiz, ou tentei fazer, uma grande coisa para a humanidade. Tal como disse Armstrong ao pisar a lua: «Um pequeno passo para o homem, mas um grande passo para a humanidade».
— Mas, Jim — disse Christine, tristemente — Eu não quero que tu morras. O que é que eu vou dizer ao nosso filho, que pode vir a nascer órfão de pai?
— Diz-lhe — disse James, abraçando-se a Christine — que tenha orgulho do pai. Porque ele salvou milhares de pessoas e, provavelmente, será o herói da década de 90, ou até do séc. XX.
James e Christine começaram a chorar. Faltavam só dois dias para a maldita operação e havia grandes possibilidades de James morrer. Tanto James como Christine receavam essa operação. Na última semana antes da operação andavam nervosíssimos, não conseguiam dizer coisa com coisa.
Mas era Christine que sofria mais, James aparentava calmia e tranquilidade.
No dia anterior à operação a casa de James parecia a Casa dos Macacos no Jardim Zoológico. James tinha convidado Watson para passar lá a tarde. Mas ninguém se conseguia entender, o nervosismo era tanto que ninguém dizia coisa com coisa. Enquanto Watson falava sobre carros, Christine estava a falar sobre bolos e James sobre desporto.
Ao final da tarde, quando Watson ia a sair da casa de James, estavam todos a chorar.
— Então, James, amanhã às 9:30. — disse Watson limpando as lágrimas.
— Às 9:30 estarei lá.— disse James, abraçando-se, novamente, a Watson — Não te preocupes.
VIII

No dia seguinte, às 9:30, já James se encontrava no hospital. Estava a falar com os Drs. Brie, Limbourguer, Donald, Stone e Watson. Os Drs. Brie, Donald, Limbourguer e Stone eram os médicos que iam fazer a operação, Watson só estava lá para ver James.
Christine estava sentada no quarto onde, provavelmente, James iria ficar depois da operação. Watson entrou no quarto e Christine, levantando-se, perguntou-lhe:
— Então? O James como é que está?
— Calma — disse Watson, nervoso — estavam agora a dar-lhe o sedativo. Vão começar com a operação. Agora temos de esperar por algumas notícias.
— Quanto tempo — perguntou Christine — vai demorar a operação?
— O Dr. Donald — disse Watson — disse-me que deveria demorar, mais ou menos, duas horas.
Christine sentou-se na beira da cama. Watson puxou uma cadeira e sentou-se ao seu lado. Durante alguns momentos ficaram ali sentados sem dizerem uma única palavra. Foi Christine quem interrompeu o pesado silêncio.
— Já sabe que o nosso filho vai ser um rapaz?
— Já, — disse Watson — já sabia. Foi o James que me disse ontem.
— E, — disse Christine, pausadamente — também lhe disse como se irá chamar?
— Não, — disse Watson, surpreendido — não me disse.
— O seu nome será Erik Douglas Thomson Cooper.
— E porquê — perguntou Watson, comovido — o nome de Erik?
— James — disse Christine — disse que lhe queria pôr o seu nome Erik Watson, porque era o seu melhor amigo, mas depois decidiu-se pôr só Erik em sua homenagem.
Começaram a escorrer lágrimas na face de Watson. Christine ficou a vê-lo chorar. Era tão bom ter uma amizade assim, James e Watson conheciam-se desde os dez anos e, a partir daí, nunca mais se separaram. James gostava muito de Watson, mais do que qualquer coisa no mundo, é claro que também gostava de Christine, mas de maneira diferente. Nem o próprio Watson se tinha apercebido do quanto James gostava dele, até à altura.

Passado uma hora entra no quarto o Dr. Stone. Christine e Watson levantaram-se numa euforia incrível.
— Então doutor, — perguntou Christine, eufórica — como é que está a correr a operação?
— Tenham calma, — disse o Dr. Stone, sorridente — que está tudo a correr bem. James está a aguentar-se bem.
— Ahhh! — disse Watson, mais calmo — Ainda bem.
— Doutor, — perguntou Christine, ainda nervosa — quanto tempo falta para acabar a operação?
— Dentro de meia hora já devemos ter acabado. Mantenham-se calmos ate lá.
Dr. Stone saiu. Christine voltou-se a sentar.
— Sabes, Watson, — disse Christine, nervosa — estou com um mau pressentimento disto tudo.
— Também eu. — disse Watson — Mas agora não podemos pensar nisso. Temos de manter a cabeça fria.
Christine e Watson ficaram ansiosos à espera de mais notícias. Só passado meia hora é que vieram mais notícias.
— Já está tudo terminado. — disse Dr. Brie, ao entrar no quarto — Correu tudo bem.
— E James? — perguntou Christine, ansiosa — Está bem?
— Por enquanto sim. — respondeu Dr. Brie, seriamente — Já deve estar a chegar.
— E... — disse Watson, com receio — Não há perigo de ele....
— Isso só o tempo dirá. Se dentro de meia hora ele não sentir nada, está fora de perigo.

IX
Logo de seguida entra no quarto James deitado numa cama, empurrada por uma enfermeira. James vinha sorridente e confiante.
— Jim, — disse Christine, começando a chorar — Jim estás bem?
— Mais ou menos. — respondeu James, com a voz trémula — E vocês como é que estão?
— Super-preocupados, — disse Watson — como podes imaginar.
— Não precisam de estar, — disse James — correu tudo bem. Eles já têm o ANM e a mim só me resta morrer.
— Oh! Jim. — disse Christine, apavorada — Não digas asneiras. Ainda podes sobreviver.
— Não. — disse James, confiante — Sei que tenho pouco tempo de vida. Cheguei a um ponto onde já não tenho nada a fazer neste mundo. Sei que chegou a minha hora. Já fiz o meu trabalho, agora a morte só tem que me vir buscar.
— Mas James, — disse Watson, escorrendo as lágrimas pela face — nós não queremos que tu morras. Nós amamos-te. Tu és a nossa família, sem ti não somos ninguém.
— Eu também vos amo. — disse James, seriamente — Mais do que qualquer outra coisa no mundo. Mas é o destino que me chama. Descobri que vim ao mundo para salvar milhares de pessoas. Era o meu destino e já o concretizei. Eu também queria ficar ao vosso lado, ver o meu filho crescer, mas não posso. Cada vez mais sinto que chegou a minha hora. Este mundo é estúpido. Um homem vive para morrer. Neste mundo só há ganância, rivalidade, desprezo. É um mundo onde não há paz, onde não há felicidade, onde há desgostos e pobreza. Não! Não, este mundo não me merece. Agora sou um herói, fiz qualquer coisa para mudar este mundo cruel e, por isso, já não tenho lugar neste mundo. A morte é a minha única solução, pelo menos vou partir para um mundo muito melhor que este, onde há paz, amizade, amor... Vou-vos deixar, mas antes quero-vos dizer que vos adoro. Christine, toma conta do meu filho, não tomas? — Christine respondeu com um aceno de cabeça, depois virando-se para Watson, James disse — Watson, toma conta da Christine, nunca a deixes sozinha, cuida bem dela.
James pegou na mão de Crsitine e beijou-a, chamou Watson e pegou-lhe, também, na mão. Endireitou-se na cama, fechou os olhos e morreu. Christine e Watson ficaram durante muito tempo a chorar agarrados às mãos de James.
James? Esse foi enterrado no Cemitério de Los Angeles, dois dias depois da sua morte.
Na sua campa estava escrito:

R. I. P.

Aqui jaze
James Douglas Cooper
Aquele que sacrificou a sua vida para salvar a humanidade do vírus HIV.
Não fiz nada de especial, apenas fiz o que o meu destino me mandou

THE END
1997

AIDS No More (II)

IV

Todos os dias era a mesma coisa: ao final da tarde Watson ia ter com James ao quarto para falarem um bocado e à noite aparecia Christine que ficava sempre até tarde a conversar com James.
James tinha decidido ficar no hospital até os testes terem acabado. «Dá-me mais jeito» foi o que ele disse acerca do assunto.
Passado três meses e meio, Watson foi ter com James com o resultado dos testes.
— Pois é, James! — disse Watson, com um ar muito sério — Já descobrimos a substância que combate o HIV no teu organismo.
— E qual é, Watson? — perguntou James, que começava a ficar inquieto com a conversa.
— Bem.... — disse Watson — Os teus glóbulos vermelhos uniram-se aos glóbulos brancos produzindo uma substância, a que chama-mos de ANM. ( [1] )
— ANM? — perguntou James, confuso — O que é que isso quer dizer?
— AIDS No More. — respondeu Watson — Descobrimos que a ANM combate fortemente o HIV, mas há um pequeno problema.
— O quê, Watson? — perguntou James, com um certo receio.
— Como sabes, — disse Watson, que começava a ficar nervoso — até hoje só tu é que tens um sistema de combate à SIDA. Ora bem, nós vamos ter que te tirar alguma ANM, para vermos a sua composição, a sua fórmula química, etc.
— E há perigo de correr algum risco? — perguntou James.
— Era isso mesmo que eu te queria dizer, — disse Watson, muito seriamente. Ficou a olhar para James um bocado antes de continuar — há um grande risco de tu morreres ou ficares gravemente doente se te tiramos a ANM. Isto é assim: a ANM é fruto da junção dos glóbulos vermelhos com os brancos, segundo os testes é a ANM que os faz sobreviver em conjunto. Ora os médicos acham, acham não, têm quase absoluta certeza de que se te tirarmos alguma ANM, tanto os glóbulos brancos, como os vermelhos, são capazes de morrer.
Quando Watson acabou de falar caiu um silêncio profundo no quarto. Um silêncio pensativo, mas, ao mesmo tempo, sufocante.
— E tu querias-me perguntar se eu autorizo que me tirem ANM? — perguntou James, olhando de lado para Watson, que lhe respondeu com um aceno de cabeça. James ficou vermelho de raiva e chateado — Autorizo o caralho!! Se vocês pensam que vos vou deixar tirar uma merda de uma substância para salvar milhares de paneleiros e putas, para depois eu morrer? Pois estão muito enganados. Ide-vos foder!! Arranjem a ANM do vosso cú, porque do meu vocês não vão ter nada.
Watson durante todo o discurso exaltado de James ficou estupefacto. Não estava à espera de uma reacção tão bruta de James ao assunto.
— James? — disse Watson, que ainda estava boquiaberto — Nunca te vi assim. O que é que se passa contigo?
— Achas que eu não tenho razão? — perguntou James, um bocado mais calmo — Põe-te no meu lugar. O que é que fazias? Assinavas um contrato com a morte? Era isso que fazias?
— Bem... — disse Watson, pensativamente — Se fosse para bem da humanidade, acho que sim, que aceitava.
— Que se foda a humanidade! — disse James, irritado com a conversa de Watson — Eu bem tinha razão. Vocês queriam-me ver morto.
Houve, depois, um breve silêncio. Tanto Watson como James reflectiam no que haveriam de fazer para resolver este caso.
— Então, — disse Watson, calmamente — quer dizer que tu não autorizas a operação?
— Não autorizo, — disse James, olhando para Watson — nem nunca hei-de autorizar.
— Tu é que sabes. O ANM é teu, és tu que comandas tudo. Sem a tua autorização, não podemos fazer nada. — disse Watson, desiludido.
— O problema é vosso. — disse James, seriamente — Da minha parte já sabem que não levam nada.
— Amanhã, se quiseres, já podes ir para tua casa. — disse Watson, tristemente — De qualquer maneira, obrigado por toda a ajuda que nos destes.
— De nada, Watson. — disse James — Eu agi de boa vontade, agora a vossa proposta é que é completamente absurda. Nunca na vida eu ia aceitá-la.
— Até logo, James — disse Watson, saindo do quarto.
— Até logo, Watson.

V

Passaram-se vários dias, depois de James ter saído do hospital. James andava inseguro, não conseguia fazer certas coisas, já não era o mesmo James que era há meses atrás.
Watson nunca mais tinha visto James, mas pensava sempre nele. Pensava no que ele estaria a fazer ou a pensar.
James raramente saiu de casa. Passava os dias a ver televisão e a ler livros, mas sem saber porquê, nunca se sentia feliz, havia sempre alguma coisa que o incomodava; e essa coisa era o ANM. Um dia Christine disse-lhe:
— James. Tu não podes continuar assim. Tu tens de fazer alguma coisa, ou vais acabar em maluco.
— O que é que queres que eu faça? — disse James, irritado — Me entregue à morte?
— Watson disse que tinhas 30% de chances de te salvares. Porque é que não tentas?
— O quê!!!?? — respondeu James, admirado — E os 70% de chances de eu morrer, não contam? Foda-se!!! Parece que toda a gente quer-me ver morto.
— Então, James — disse Christine, irritada —, se não queres fazer a operação, esquece de uma vez por todas o assunto, porque estou farta de te ver assim.
Alguns dias depois James estava a ler o jornal, quando viu uma noticia acerca da SIDA.
SIDA: CADA VEZ MAIS

O vírus HIV, causador da SIDA, está a provocar, cada vez mais, seropositivos. Os números são assustadores, do ano passado para este ano, os infectados pelo HIV, aumentaram para o dobro.
Cientistas prevêem que no final do ano mais de 250 mil pessoas devem morrer de SIDA, e para daqui a dois anos, se isto continuar assim, devem morrer mais de um milhão de seropositivos.


James pousou o jornal e ficou durante algum tempo sem se mexer. Parecia que estava morto. Christine, entretanto, chegou à sala e viu James muito quieto.
— Passa-se alguma coisa, Jim? — perguntou Christine, assustada — Estás-te a sentir bem? — James continuou quieto sem dizer palavra nenhuma.
— Jim? — perguntou novamente Christine — James? Estás-me a ouvir?
— O quê? — disse James, atarantado como se tivesse acordado de repente — Ah! És tu Christine.
— Tu estás bem, James?
— Estou, — disse James, calmamente — porquê?
— Estavas com um ar um bocado estranho. — disse Christine, assustada — Parecia até que tinhas ficado paralítico. O que é que se passa?
— Nada. — disse James, fechando o jornal e pondo-o na mesa — Não se passa nada.
James levantou-se e foi até ao quarto. Aí ficou até serem horas de jantar.
VI

Cristine e James estavam a ver o telejornal enquanto jantavam.
Uma das notícias do telejornal era sobre a SIDA e o número de mortos e afectados por esta. James, num acto reflexo, mudou de canal. Christine ficou intrigada com aquilo e quando olhou para James viu que estava um bocado nervoso.
— Diz-me o que é que se passa, James. — disse Christine, intrigada.
— Não se passa nada! — disse James, irritado — Já te disse que não se passa nada.
— Eu vi a notícia no jornal, James — disse Christine, ternamente — Eu sei o que é que deves estar a pensar. Tens nas tuas mãos a possibilidade de salvar aquelas pessoas, não é?
— É — disse James, que começara a chorar —, mas eu também não quero morrer. Mas também não quero que milhares de pessoas morram por causa do meu egoísmo. Oh, Deus, que hei-de eu fazer?
— Tem calma, Jim — disse Christine, abraçando-o. Ficaram assim durante algum tempo, abraçados. James soluçava, enquanto Christine afagava-lhe o cabelo.
Alguns dias depois James foi até ao consultório de Watson. Ao chegar lá disse a Watson a sua decisão final.
— Mas... — disse Watson, assustado — Tens a certeza disso?
— A certeza absoluta! — disse James, sorrindo. Watson estava a olhar para ele com a boca aberta.
— O que é que te levou a tomar essa decisão? — perguntou Watson, curioso. James olhou para os lados para ter a certeza de que ninguém estava a ouvir e disse:
— É que a Christine está grávida de dois meses. — disse James, baixinho. Watson ainda ficou com a boca mais aberta.
— O-os m-m-meus p-p-parabéns. — gaguejou Watson — Por essa eu não contava.
— E... — disse James, com convicção —, não sei se estás a perceber, mas eu não queria que o meu filho nascesse num mundo com SIDA. — James fez uma pausa, para molhar os lábios, antes de continuar — Imagina o que seria de mim se daqui a uns 17 ou 18 anos o meu filho viesse ter comigo a dizer que tinha SIDA. Com que cara é que eu ficava? Não, eu não quero viver sempre com este remorso, com este medo, com esta responsabilidade nas mãos.
Watson tinha ouvido atentamente os argumentos de James e depois de ter reflectido neles disse:
— Eu não sei o que faria na tua situação, mas acho que se o meu filho me viesse dizer que estava com SIDA, eu suicidava-me!!
— Pois é justamente isso que eu quero evitar. — disse James, comovido — Eu quero que o meu filho viva a vida sem problemas, quero que ele tenha liberdade de acção, quero que ele tenha paz, embora seja difícil na merda deste mundo.
— Mas, James — disse Watson, seriamente —, já pensaste que tens graves possibilidades de morrer?
— Já, Watson. — disse James, olhando de frente para Watson com um ar sério — Já! Já pensei nisso tudo e não ligo um caralho para isso. Pelo menos se morrer posso ter o orgulho de ter salvo a vida de milhares de pessoas. Posso ter o orgulho de ter escrito na minha campa «Aqui jaze aquele que sacrificou a sua vida para salvar milhares de pessoas».
Watson estava comovido com aquela conversa toda. As lágrimas corriam-lhe pela face, a voz já lhe fugia, mas mesmo assim ainda conseguiu dizer:
— Aconteça o que acontecer só te quero dizer uma coisa: Tu foste sempre o meu melhor amigo e sempre te admirei pela tua coragem.
Incapazes de dizer mais alguma palavra, James e Watson abraçaram-se e choraram. Ficaram assim bastante tempo, até que Watson perguntou:
— E Christine? O que é que ela achou da tua decisão?
— Oh! Nem me lembres. — disse James, limpando as lágrimas e voltando-se a sentar — Ela ficou tristíssima, mas estava de acordo comigo. Concordou sempre comigo.
— Vai ser um choque para ela. Coitada. — disse Watson, tristemente — Quando é que queres fazer a operação?
— Isso agora depende de vocês. — disse James — Quando quiserem eu vou.
— Muito bem! Eu depois digo-te alguma coisa. — disse Watson olhando para o calendário.
( [1] ) N. A. - Estes dados médicos são puramente fictícios. Não existe nenhuma substância chamada ANM (AIDS No More) e era completamente impossível os glóbulos brancos juntarem-se aos glóbulos vermelhos, pois era a morte certa do indivíduo.

AIDS No More (I)

Este conto é muito confuso para mim. Não sei que raio é que me deu para escrever este conto ainda por cima com a Sida como pano de fundo.
Eu agora acho-o um pouco estúpido, "elementar, meu caro Watson", não me diz nada, mas não deixa de ser importante, pois não deixa de ser o meu primeiro conto, a minha primeira experiência numa história longa, a minha primeira grande ficção e, tal como eu disse no "Prólogo (I)", bons ou maus, os meus textos seriam publicados neste blog.
Além disso é a primeira história em que a Morte aparece como salvação, algo que eu já andava a perseguir por uns tempos e isso é igualmente importante, se bem que aqui, a meu ver, a ideia não é muito bem sucedida, talvez por isso eu não fiquei por aqui e resolvi explorar o tema por outro lado no meu segundo conto "Morte e Salvação" e, muito mais tarde, em "A Corda no Pescoço".


AIDS NO MORE


I

Consultório de um hospital. James encontrava-se sentado em frente a um médico

— Então, doutor? — perguntou James, já impaciente — O que se passa? Quais foram os resultados dos testes?
— Tenho que lhe dizer duas coisas, — disse Watson, com um ar muito sério — uma boa, outra má.
— Comece pela má noticia, doutor.
— Os testes deram positivos.
— Então quer dizer que eu.... — disse James, faltando-lhe a voz de tão nervoso que estava.
— ...Que tu tens a SIDA!! — interrompeu Watson, mostrando também um certo nervosismo.
Houve um certo momento de silêncio, enquanto os dois se olhavam mutuamente.
— E qual é... — disse James com um certo receio — a boa notícia?
Watson tomando um ar sério para disfarçar o seu nervosismo disse:
— Por incrível que pareça, o teu organismo tem um sistema de combate super-poderoso que não deixa o vírus da SIDA, o HIV, actuar. Isto é: estás completamente fora de risco de morreres através deste vírus.
— Quer dizer.... Não corro qualquer risco de este vírus me afectar?
— Sim, és o único caso no mundo que está nessa situação. Mas... queria-te pôr uma questão.
— Diga. Não tenha qualquer receio. Afinal, já somos amigos à 12 anos. — disse James, aliviado do susto que tinha apanhado.
— Bem... — disse Watson, pausadamente —Eu queria-te perguntar se não te importavas de fazer uns testes para percebermos em que consiste esse sistema de combate, e, talvez, encontrar uma cura para a SIDA.
James ficou, durante alguns momentos, estático, sem mover músculo algum. As suas feições mostravam algum receio, medo. Suspirou algumas vezes, depois respirou fundo e perguntou:
— E não há qualquer perigo?
— Não, não! — respondeu rapidamente Watson — Não há qualquer tipo de perigo. São uns testes normalíssimos.
— Watson... — disse James, ainda pensativo — dá-me um tempo para pensar. Eu depois dou-te uma resposta..
— Tens todo o tempo para pensares. Quando quiseres vem cá, ou , se preferires, telefona-me.
James cumprimentou Watson e dirigiu-se para a porta:
— Até à próxima, Watson.
— Adeus, James. Pensa bem no assunto antes de dares uma resposta.
James apanhou um Taxi e foi para casa.
Aquilo era demais para a vida sossegada que levava. De um momento para o outro torna-se o único homem à face da terra portador de um sistema de combate ao vírus da SIDA.
Depois de ter pago o táxi, dirigiu-se para casa. Entrou e chamou a sua mulher, Christine:
— Christine! Christine!
— És tu Jim? — perguntou uma voz vinda da sala — Estou aqui na sala.
James dirigiu-se para a sala. Christine estava a ver televisão.
— Então como correram os testes? — perguntou Christine.
— Deram positivo... — respondeu James, inquieto — Sou portador do vírus HIV.
— Mas então... — exclamou Christine apavorada.
— Não te preocupes. — respondeu James e, na tentativa de a acalmar, explicou-lhe tudo o que se tinha passado naquele consultório.
Christine ouviu tudo com muita atenção e no final já se encontrava mais calma.
— Mas tu vais fazer esses testes?
— Não sei!.... — disse James, ainda pensativo — Fiquei de dar uma resposta. Tenho nas minhas mãos uma responsabilidade enorme. São milhares e milhares de pessoas que eu posso salvar.
James passou os dias seguintes bastante pensativo. Tinha medo de ser a “cobaia” de médicos curiosos, de estar a ser inspeccionado como se fosse um extraterrestre.
II

Quando James, finalmente, chegou a uma conclusão foi até ao consultório de Watson. Foi o caminho todo a reflectir na sua decisão.
Entrou no hospital, dirigiu-se ao consultório e bateu à porta.
— Entre — disse Watson, que estava a estudar uma fichas médicas.
James entrou e sentou-se.
— Ah! És tu. — disse Watson, que não tinha reparado que era James que tinha entrado — Estava a pensar em te telefonar. — Watson fez uma breve pausa antes de continuar a falar — Já chegaste a alguma conclusão?
— Já! — respondeu James com voz seca — Estou disposto a fazer os testes.
— Ainda bem que tomaste essa atitude. Não é por nós, é por aquilo que podes fazer a milhões de pessoas com SIDA.
— Essa foi a razão que me levou a aceitar a proposta.
Watson pegou no telefone, falou com uma rapariga e marcou os testes.
— Dia 12. Pode ser? — perguntou Watson a James.
— Por mim pode ser — respondeu James, olhando para o calendário que estava na parede.
Watson pousa o telefone, escreve umas anotações no caderno e, depois, olha para James e disse-lhe:
— Não tenhas receio. Vai correr tudo bem. Os testes vão começar no dia 12 às 9:30 da manhã.
— E vou ter que ficar internado? — perguntou James.
— Só nos primeiros três dias, depois, se quiseres, podes ir para casa. Mas tens de vir cá todos os dias.
— E os testes vão demorar quanto tempo?
— Devem demorar, sensivelmente, três a quatro meses. Mas isso vai-se vendo ao longo dos testes.
— Então dia 12 às 9:30 cá estou. — disse James, apertando a mão a Watson.
— Cá estarei à tua espera.

Dia 12 8:45
James estava nervosíssimo. Ia passar três meses no hospital a ser cobaia de médicos malucos.
Eram 9:00 quando James saiu de casa e se dirigiu para o hospital. Chegado ao hospital foi até ao consultório de Watson.
— Bom dia, Watson! — disse James, um tanto ou quanto nervoso — Estou atrasado?
— Não, — disse Watson, olhando para o relógio — até estás adiantado. Então? Muito nervoso?
— Um bocado
— Não te preocupes! — disse Watson passando as mãos pelos ombros de James — Vai correr tudo bem. Acompanha-me.
James seguiu Watson até uma sala de operações. Watson apresentou os médicos que iriam fazer parte do exame: Dr. Brie, Dr. Stone, Dr. Donald e Dr. Sheen.
— São estes — disse Watson, depois de ter apresentado os médicos — os médicos que te vão examinar. Eu tenho total confiança neles. Boa Sorte! — Watson despediu-se de James com um cumprimento de mão e saiu da sala.
— Nós vamos-lhe dar uma anastesia geral, — disse Dr. Donald — por isso só deve acordar lá para o fim da tarde.
— Deite-se aqui se faz favor! — disse Dr. Brie, apontando para uma cama. James deitou-se. Dr. Stone aplicou-lhe uma injecção e passado alguns segundos James adormeceu.
III

Quando acordou, James sentiu umas leves tonturas, tentou olhar à sua volta, mas não conseguia ver com muita nitidez as coisas.
— Devem ser os efeitos da anastesia. — pensou James. Passado pouco tempo já conseguia distinguir as coisas. Estava num quarto deitado numa cama bastante cómoda, tinha uma mesinha ao lado da cama, uma cómoda no canto, uma televisão à beira da janela e uma vista espantosa se espreitasse pela janela.
James sentia-se cansado e com uma leve dor no abdómen, por isso tentou dormir um bocado. Estava quase a adormecer, quando bateram à porta.
— Pode entrar — disse James.
Era Watson.
— Então, James? — perguntou Watson, alegremente — Como te estás a sentir? Bem?
— Acho que sim, — respondeu James, um bocado confuso — mas ainda me sinto um bocado tonto.
— Isso é natural! Precisas de descansar um bocado.
— Que horas são? — perguntou James, reparando que lhe tinham tirado o relógio.
— São 6:15. — respondeu Watson — O jantar é às 7:30, por isso aconselhava-te a dormir até lá.
Watson ia sair quando se lembrou de um recado:
— É verdade! Quase que me ia esquecendo de te dizer que a Christine telefonou a dizer que passava por cá às 8:30.
— Muito obrigado. — disse James — Já me sinto melhor só de saber isso.
Watson saiu e James adormeceu. Só acordou quando uma enfermeira lhe foi levar o jantar.
Mais tarde Watson voltou a entrar no quarto.
— Olá, doutor. — disse James, com um ar contente — Veio-me visitar?
— Já vi que estás com uma cara melhor do que a de há bocado. — disse Watson, sorrindo — Ainda bem. Sabes que estás com o melhor quarto do hospital? Este quarto é reservado para VIP’s.
— Não sabia que eu agora era um VIP. — respondeu James, piscando o olho a Watson — Viva o luxo!
— Já reparaste na casa de banho? — perguntou Watson, ironicamente — Isso sim, isso é que é um luxo. Quem me dera ter uma igual em casa. Imagina que até água quente tem.
— Cá para mim, — disse James, seriamente — vocês estão à espera da minha morte.
— Mas... — disse Watson, assustado — Mas de onde é que tiraste essa ideia?
— Para vocês estarem a tratar de mim tão seriamente e com tanto cuidado.... — respondeu ironicamente James — Até a um bacalhau cozido tive direito.
— Oh! — disse Watson, rindo-se — O que nós queremos é que tu te sintas bem e em plena forma. Precisamos de ti 100% operacional.
— Por falar nisso. — disse James, com um ar sério — Descobriram alguma coisa?
— Ainda não! Não precipites. Ainda é muito cedo.
— Então, muita boa noite para vocês. — disse Christine, que tinha entrado enquanto James e Watson estavam a falar — Como é que está o meu Jimmi, Watson?
— Melhor do que nunca. — respondeu Watson, sorrindo — Até já recuperou o seu sentido de humor.
— Ainda bem. — disse Christine, cumprimentando Watson — Cheguei a ficar preocupada com ele.
Christine aproximou-se de James e beijou-o na cara.
— Bem, — disse Watson, levantando-se — eu vou indo, porque tenho mais doentes à minha espera. Vou deixar-vos a sós.
Christine e James falaram até bastante tarde. Eram quase 0:30 quando Christine saiu do hospital.

setembro 01, 2004

A Terra Prometida

Gostaria de saber o que me levou a escrever isto e com que raiva eu a escrevi...
É estranho deparar-me com este texto numa altura em que o anti-americanismo está tanto na moda. Hoje acho que escreveria um texto ainda mais acutilante, muito mais (in)directo, mais frio e mais raivoso... Afinal é o país do mundo com o presidente mais burro à face da terra e o único país em que um actor estrangeiro de acção pode ser governador da Califórnia. Enfim, o eterno sonho americano.
God save América!
Please....

A TERRA PROMETIDA

América... a terra de todos os sonhos é para muitos o paraíso.
Mas será que a América merece esses méritos?
Uma terra onde o racismo é rei e os pretos lixo para se cuspir; uma terra onde em cada quatro horas morre uma pessoa, em cada três horas é violada uma pessoa, a cada minuto há ataques racistas.
Será que essa terra merece ser tratada como a terra prometida?
Alguém disse: «A América é o único país que passou da Barbaria ao Progresso, sem passar pela Civilização». Foi, provavelmente, a maior verdade já dita sobre a América.
Nenhum país, ou povo, consegue ser tão irracional, imoral, burro e absurdo do que a América.
Na América nem um, nem um só direito humanitário consegue prevalecer. Na América é a lei do mais forte. O conceito de «um por todos, todos por um», é-lhes desconhecido. Se alguém me pedisse um sinónimo de selva, eu diria, sem problemas, Estados Unidos da América.
É claro que a América não tem só coisas más, também tem coisas boas, só que as coisas más superam as coisas boas.
A América é capaz de ser o país mais desenvolvido, tecnologicamente, do mundo. Sim, tecnologicamente, porque moralmente, é um dos países mais subdesenvolvidos.
É na América que se encontra a maior rede de cinema do mundo. A América consegue biliões de dólares só com um filme.
Mas, voltando ao ponto inicial, será um paraíso um país que mata um presidente só porque não lhes convinha? O mais absurdo de tudo é que foi a própria “polícia”( CIA, FBI, etc.) que o mandou matar. Mas não foi só um presidente que eles mataram, foi também um preto que os andava a chatear com os seus sonhos estúpidos e que lutava pela liberdade dos pretos. Foi, também, uma rapariga, jovem, bonita, actriz de cinema, que eles, provavelmente, mataram, devido a ela ter umas ligações com o tal presidente. Será isto o paraíso? Se isto é o paraíso, eu prefiro o inferno.
Assaltos, roubos, mortes, assassínios acontecem de minuto em minuto. E ninguém parece ligar um caralho para o que se passa.

Enunciei aqui algumas mortes, mas essas mortes foram as que deram mais polémica, pelo mundo fora. Falta saber as muitas que houve sem ninguém saber de nada e que ficaram escondidas em ficheiros secretos.
América. A América é a maior mentira do mundo.
A América é o país de todos os sonhos, mas é preciso ter cuidado, o outro preto também sonhava, sonhava muito e mandaram-no matar.
A terra prometida, o paraíso, isto tudo são nomes “falsos” para enunciar um dos países mais perigosos do mundo: os Estados Unidos da América (USA).

1997

Carta ao Ex.mo. Presidente do Conselho Directivo

Mais um devaneio. Mais um delírio. Por favor não ponham mais moedinhas na máquina. Alguém que o faça parar, por favor.
Obrigado.


Carta ao Ex.mo. Presidente do Conselho Directivo


Ex.mo. Presidente do
Conselho Directivo


Nós, abaixo assinados, vimos por este meio informar-vos do nosso desagrado pela expulsão da professora Marlene da escola.
Sabemos que a professora em Outubro de 1996 andou a incentivar os outros professores a irem ver o filme “Crash”, que na altura estava a passar no cinema Nun’Alvares. É verdade que o filme não era um filme normal, era um filme violento e com cenas eventualmente chocantes, mas também não era caso para entrar em pânico.
Depois do acontecido a professora Marlene foi informada por um aluno, Stephen King Nº7 da turma B, que estava a passar um grande filme no Sá da Bandeira “Barafunda”. Então teve a ideia de levar todos os professores numa saída em conjunto para irem ver o tal filme, e assim limpar a sua imagem. Mas, mais uma vez, o filme não correspondia à ideia principal da professora Marlene, limpar a sua imagem, e, é claro, o filme provocou um novo pânico, a professora Doroteia ao ver filme teve um ataque e teve de ser internada durante 2 meses, o professor Neurestides foi encontrado no final do filme num estado um bocado estranho devido, talvez, à barafunda que se gerou na sala a meio do filme, outra professora desmaiou e teve de ir para o hospital para receber assistência médica.
A professora Marlene, entrou em depressão pois a sua imagem estava completamente arruinada nesta escola. Então a turma B quis fazer uma sessão especial no CineBota. A ideia principal era de duas em duas semanas às sextas-feiras à noite fazer uma sessão especial para pais e professores. Essas sessões tinham como título “Relembrar os velhos tempos...”. Na primeira sessão, e única, a CineBota passou o filme “O Capuchinho Vermelho e o Lobo Mau” versão Sex Hard-Core.
Ainda hoje não sabemos por que é que a meio do filme as pessoas ficaram malucas, eram pais a saírem da sala aos berros a dizer que aquilo era uma imoralidade, eram professores na sala a correrem uns atrás dos outros, alguns por cima de outros, bem uma indecência, nem os próprios alunos/filhos eram capaz de se portar tão mal.
Mas, esquecendo estes acontecimentos, nós somos contra a vossa decisão de expulsar a professora Marlene da Escola Secundária Deus nos Acuda e pedimos-lhe que retire as queixas que fez à PSP de Depravada Sexual, Tentativa de Pedofilia e de Inconsciente Mental.

Pedimos deferimento

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P. S. - Ainda gostaríamos de saber por que é que proibiu a continuação do projecto “Relembrar os velhos tempos...”, logo na primeira sessão.

1996