março 18, 2008

Cof! Cof!


Quando sentiu aquele cheiro a gás,
ficou na dúvida se a alertava
ou acendia um fósforo.
Optou por se ir embora sem a acordar.

Três Letrinhas Apenas

Com três letrinhas apenas se escreve a palavra
Vai
Com três letrinhas apenas se escreve a palavra
Pro
Com três letrinhas apenas se escreve a palavra
Car
Mas são precisas quatro letras para a palavra
Alho

Ora, [3+3+(3+4)] é uma fórmula específica de mandar as pessoas para um lugar específico e que pode ser resumida com três letrinhas apenas:
VPC

março 14, 2008

A Verdade da mentira!

Se eu te dissesse verdadeiramente o quanto te amo,
Tu ficarias a detestar-me...

março 12, 2008

Curto-Circuito


A sogra mexia-se desconfortavelmente naquela estranha cadeira de metal. Nunca tinha gostado daquelas cadeiras, eram demasiado rijas para as suas pobres costas e demasiado pequenas para o seu farto corpo. Hoje, porém, havia algo que a inquietava.
Ele, do outro lado da mesa, apreciava este espectáculo com muita atenção e foi com um enorme sorriso que pediu ao filho que ligasse o interruptor que conectava aquela cadeira metálica ao quadro eléctrico.
Descobriu da pior maneira que a sogra tinha trocado as cadeiras.

março 10, 2008

Oportunidades

Por não trazer chaves de casa
é que me lembrei de te dizer
que gosto de ti.

fevereiro 03, 2008

Bifurcação

Farto das suas traições e infidelidades, ele resolveu dizer-lhe adeus, após uma breve discussão. Ela numa esperança inocente perguntou-lhe se ele regressava no dia seguinte. Ele sorriu e nada respondeu. Apercebendo-se do triste final ela passou-lhe a mão pelo rosto, tocando-lhe nos finos lábios e despediu-se.
Só muito tempo depois é que ele reparou que a partir daquele dia a sua língua se tinha bifurcado...

janeiro 15, 2008

Morte engomada

Foi no exacto momento de baixar a foice
que o carrasco se lembrou
de que se tinha esquecido de desligar o ferro de engomar
e assim... falhou o golpe,
sendo, ele próprio, condenado à dita foice.

janeiro 10, 2008

Sol Molhado



Quando naquele dia ensolarado cheguei à beira dela e lhe disse: "Amo-te!"
Ela virou-se para mim e respondeu: "Vai-te foder!"
E eu fui!

Nem ao pior inimigo se deseja

Quando o meu pior inimigo se virou para mim depois de uma luta intensa por cima dos telhados do Bairro do Bom Pastor e disse que se ia casar, eu dei-lhe os meus sinceros pêsames.
Ele pousou a cabeça no meu ombro e chorou.

Crédito para uma morte feliz

Há dias em que me apetece dar um tiro na cabeça!
Como não tenho arma, deparo-me com um dilema:
Mesmo que consiga juntar dinheiro para comprar uma arma,
Nunca chegarei a ter dinheiro suficiente para comprar munições.

dezembro 28, 2007

Anjo Mortal

Mataste-me naquela festa, onde te encontrei passados uns anos. Naquele momento em que os meus olhos pousaram em ti e sorri, tu retribuíste-me um sorriso sincero, mas os teus olhos traziam amargura. Foi nesse exacto momento que morri.
Recordava-me de ti com um sorriso aberto, os teus olhos vibravam ao sabor dos teus cabelos e eras eléctrica como uma formiguinha que tinha encontrado um doce.
Via-te como um anjo alegre com quem tinha partilhado alguns bons momentos, que retive saudosamente no meu baú da memória. Mas naquela noite tudo mudou.
Mataste-me sem saberes, espetaste-me uma faca no coração e entristeceste-me as entranhas. Nesse momento as imagens idílicas que se encontravam no baú entraram em combustão e carbonizaram-se. A cor do teu cabelo, o teu cheiro, o teu rosto e todos os teus sorrisos, deram lugar a uma imagem triste e melancólica.
Morri naquele momento exacto em que me apercebi que o tempo tinha passado por nós, cobrindo a nossa curta e breve relação, que a vida tinha sido tão dura para ti como foi para mim, que tu tinhas amadurecido (quiçá envelhecido) e já não eras o anjo alegre e inocente que jazia no meu baú das memórias. O anjo do baú deu lugar a um ser humano, as imagens alegres transfiguraram-se em dias de tempestade, da felicidade para a agonia, a esperança virou-se para o desespero, o sonho diluiu-se com tudo o resto.
Morri exactamente por isso. Ao perceber que já não poderíamos voltar a repetir o passado, que já não éramos iguais, que a vida nos separou cruelmente.
E tu mataste-me ao mostrar que afinal não eras um anjo, mas um simples ser humano, mortal, como todos nós.

dezembro 02, 2007

Confettis

O espectáculo tinha acabado. Os miúdos rompiam furiosamente pelo o palco a convite dos palhaços. A anarquia estava lançada. Correrias, gritos estridentes e empurrões, reinavam naquela barafunda de miúdos eléctricos que pulavam pelo palco como se estivessem a ser electrocutados. Todos queriam brincar com o Urso Bob, o carro com luzes que piscam e a boneca que lança confettis.

Marlene, de 6 anos, apreciava esta cena de longe. Tinha ido ao teatro acompanhada pelos pais, enquanto todos os outros miúdos tinham sido levados pelo colégio que frequentavam. Era a única criança que tinha ido “sozinha” ao teatro, ou pelo menos era assim que se sentia. Apreciava a saudável anarquia que se passava à sua frente e olhava de vez em quando para a boneca que lança confettis.

Era uma boneca grande, muito engraçada que de vez em quando “cuspia” confettis enfeitando o palco com pequenas fitas que desciam lentamente como se de neve se tratasse. Era sem dúvida a atracção preferida dos miúdos. Os olhos de Marlene entristeciam. Também ela gostaria de ir brincar com a boneca. “Mas nunca com aqueles selvagens!”, pensava, “Estou muito melhor aqui ao pé dos meus pais, que gostam de mim e me protegem.”

De repente o mais inesperado aconteceu. Os pais de Marlene perguntaram-lhe se ela não queria ir brincar para o palco. Marlene ficou aterrorizada, branca, as suas feições transfiguraram-se, as suas pernas tremiam enquanto se encolhia lentamente no pequeno degrau onde estava sentada.

Não! Isso nunca!, pensava, Ir ali para o meio daqueles selvagens, que não conhecia de lado nenhum, para aquelas bestas que só sabem gritar, saltar e correr como loucos, empurrando tudo e todos os que tivessem à sua frente. Não! Ainda se podia magoar. Não! Não queria saltar para o palco e ser espezinhada por um grupo de miúdos raivosos, que além de lhe baterem (e talvez a matarem à paulada) ainda a cortariam em postas para ser devorada pelo Urso Bob. Não! Isso Nunca!

Os pais estranhando este tipo de comportamento vindo de Marlene, tentavam perguntar o porquê daquela súbita atitude. Tentavam convencê-la a ir para o palco com palavras mas a pequena Marlene limitava-se a abanar furiosamente a cabeça e a encolher-se mais no seu pequeno degrau. Não! Já tinha dito que não. Olhou mais uma vez para a boneca. Era uma boneca linda e no fundo do seu coração Marlene queria ir brincar com ela e dançar no meio da chuva de confettis, mas nunca com aqueles animais ali aos saltos. Feito isto, pequenas lágrimas escorreram pelo pequenos rosto de Marlene. Um sensação muito confusa passava-se dentro de si; por um lado queria ir brincar, mas por outro sentia medo daqueles estranhos que não conhecia de lado nenhum. Preferia ficar ali ao pé dos seus pais, pois assim estaria protegida, mas os pais não pareciam querer isso. Afinal queriam que ela fosse para o meu daqueles loucos. Levantaram-se calmamente e perguntaram mais uma vez se ela não queria ir brincar para o palco.

Se pequenas lágrimas escorriam pelo rosto de Marlene, agora corriam ininterruptamente. Marlene não queria acreditar no que os seus próprios olhos estavam a ver: os seus próprios pais, que a deviam proteger e amar, queriam forçá-la aquilo que do seu ponto de vista inocente lhe parecia ser a morte certa. Não! Não queria ver o seu sangue a escorrer pelo palco, enquanto os outros miúdos se deliciavam naquilo que bem podia ser uma cabidela de Marlene. Não queria ser degolada pelo carro com luzes que piscam atirado ao ar por um puto raivoso. Não queria ser esquartejada pelo Urso Bob enquanto os seus pais se riam sadicamente de tudo o que se estava a passar. Não! Não podia ser verdade. Os seus próprios pais não lhe podiam estar a pedir para ir brincar para o palco! Não!

Os pais apercebendo-se do pânico de Marlene, voltaram a sentar-se, conversaram um pouco com ela e disseram que estava tudo bem, se ela não queria ir, também não era obrigada. Marlene sentiu-se um pouco mais confortada, afinal os seus pais já não a queriam comer cozida no seu próprio sangue, afinal eles ainda gostavam dela. Mas aparte disso ela ainda queria ir brincar com a boneca, mas nunca com aquele bando de canibais ali e sabia que eles tão cedo não sairiam de lá . “Haviam de morrer todos”, pensou, “Haviam de morrer todos queimados. Devia haver um incêndio e eles morrerem todos carbonizados.”

Um pequeno sorriso brotou na face de Marlene. Imaginando a boneca a cuspir confettis de fogo, fez um sinal aos pais de que queria ir embora e levantou-se calmamente vendo os confettis a arder, caindo lentamente sobre os miúdos que corriam e gritavam em pânico com as costas em fogo. Sim, continuavam a correr e a gritar, mas desta vez não era de contentamento, mas sim de dor e desespero, caminhando para uma lenta e agoniante morte.

Calmante Marlene abandonou a sala levando um sorriso estampado na cara, que muito intrigou os seus pais. No palco a cabeça do Urso Bob, despregada do seu corpo em chamas, caía sobres os pequenos corpos em chamas que jaziam agora num silêncio dourado.

outubro 10, 2007

Olhos Azuis

I


António Joaquim tinha acabado de chegar a casa. Entrou calmamente pela cozinha adentro, o seu cão Nero veio ter aos seus pés abanando a cauda com contentamento enquanto Maria Josefina, sua mulher, estava na banca a trabalhar, manuseando cuidadosamente um grande prato de barro. Ele aproximou-se sorrateiramente dela e passou-lhe a mão pelo corpo, mas ela assustou-se, deixando descair o prato de barro. Os dois ficaram frente a frente impávidos com aquela estúpida situação. António Joaquim tentou fazer uma leve festa no rosto de Josefina, como que a pedir desculpas, mas esta afastou bruscamente qualquer tipo de aproximação de António, não queria qualquer tipo de piedade naquele momento. O seu melhor prato de cozinha estava estragado e a situação não estava favorável para comprar louça nova, ainda por cima de barro.
Maria Josefina pegou lentamente no prato, examinando-o ao pormenor. Sim, estava rachado. Lentamente dirigiu-se para a porta e, sem olhar para trás, saiu deixando António Joaquim abandonado.


II


Os anos passaram. O casal tinha agora uma filha de 8 anos. Maria Josefina estava na cozinha a limpar o seu lindo prato de barro com um enorme pano azul. Levantava-o, revirava-o e tornava a puxar-lhe o lustre. Era um ritual quase diário.
António Joaquim estava sentado junto à lareira e olhava fixamente para a sua filha, Kátia Banessa, que se encontrava no sofá a ler um livro de quadradinhos com o Nero a descansar aos seus pés. Tinha abandonado o emprego à quatro anos atrás e raramente ausentava-se de casa. Havia algo naquela menina que o hipnotizava. Eram aqueles grandes e brilhantes olhos azuis. Uns olhos azuis tão claros como o céu aberto e tão profundos como o mar calmo. Joaquim quase não se mexia, limitava-se a olhar fixamente para a menina. Kátia Banessa levantou os olhos e sorriu para o pai. Um sorriso puro e inocente como só uma criança o pode fazer.


III


Maria Josefina tinha acabado de pôr a comida na mesa, Kátia Banessa comia calmamente a sua sopa e António Joaquim, sentado no canto da mesa, apreciava lentamente este cenário. Olhou distraidamente para Josefina, lá estava ela novamente a endireitar o prato de barro, já quase não falava com ele, aliás, desde que aquele prato se tinha rachado uns anos atrás que ela nunca mais foi a mesma para com ele. Suspirou e volveu o olhar para a menina, paralisando de repente como se tivesse sido hipnotizado, ficando a colher da sopa a meio caminho entre o prato e a boca, gotejando lentamente.
Kátia Banessa continuava a sorver lentamente a sua sopa, mas aqueles olhos azuis… aquele azul contrastava com o castanho da sopa, de tal maneira que parecia um acto de magia. Uns olhos azuis tão claros como o céu aberto e tão profundos como o mar calmo.


IV


António Joaquim estava de frente para o espelho e examinava atentamente as suas feições. Passava a mão pela cara e pelo cabelo, aproximando-se de vez em quando do espelho como se quisesse ver para além dos olhos.
Procurava algo, alguma explicação. Havia algo de errado, algo de estranho, algo de mágico, algo de inexplicável. Desde que aquele prato se tinha rachado aquela casa nunca mais fora a mesma, Josefina nunca mais foi a mesma. E aquela menina? Aquele pequeno anjo que raramente abria a boca, mas que enchia qualquer lugar com a sua simples presença. António Joaquim nunca mais foi o mesmo desde que aquela menina nasceu.


V


Kátia Banessa brincava cá fora com o Nero, simulava que lhe atirava a bola, enervando o cachorro que saltava, ladrava e resmungava com toda aquela brincadeira, mas quando ela soltou finalmente a bola, o cão saiu disparado como uma bala, galgando pelo jardim fora.
Maria Josefina encontrava-se à janela da cozinha a limpar o famoso prato de barro. Virava-o e revirava-o, suspirando de quando a quando.
António Joaquim estava sentado na mesa do jardim, olhava fixamente para Kátia Banessa, o cigarro queimava-se na sua mão imóvel, a cinza ia caindo em pequenas parcelas sobre a mesa. Aqueles olhos azuis, tão claros como o céu aberto e tão profundos como o mar calmo, hipnotizavam-no. Hipnotizavam-no desde o primeiro dia em que os viu. Tinham passado uns meses largos desde que o prato se tinha rachado quando Kátia Banessa nasceu, a sua relação com Josefina era estranha mas estável e estavam ambos ansiosos com o facto de irem ser pais, mas quando a bebé começou a abrir os olhos e mostrou todo aquele azul reluzente, o casal ficou surpreendido. António Joaquim ainda pensou ao início que se tinha dado um milagre e que deus lhe tinha enviado um anjo para a sua guarda. Maria Josefina ficou assustada e desde esse dia tornou-se uma mulher cabisbaixa, mal dirigia a palavra a António Joaquim e passava o tempo todo agarrada àquele prato, suspirando.
Com o passar do tempo a ideia do milagre tornava-se cada vez mais idiota na cabeça de António Joaquim e a imagem de anjo da menina tornava-se cada vez mais numa imagem de demónio. Quatro anos depois abandonou o seu emprego.


VI


O prato de barro encontrava-se no chão dividido em duas partes no meio das batatas fritas que se tinham espalhado pelo chão. Kátia Banessa olhava tristemente para o pai, com o prato aos seus pés. António Joaquim olhava para o chão, incrédulo. O prato preferido de Josefina estava partido! Maria Josefina apareceu de repente, sem ninguém dar conta e, quando se deparou com o prato partido, as lágrimas quase lhe saltaram aos olhos, olhou para a sua filha e passou-lhe a mão pela cabeça. Kátia Banessa olhava para ela quase a soluçar, aqueles olhos azuis tornaram-se num símbolo de piedade. Josefina baixou-se rapidamente e apanhou as duas partes do prato, levantou-se tentando juntar as partes e dirigiu-se para a porta sem tirar os olhos do prato. António Joaquim puxou Kátia para a sua beira e esta agarrou-se fortemente a uma das suas pernas. Era a primeira vez que Joaquim a abraçava e soube-lhe bem.


VII


António Joaquim estava novamente sentado no jardim a fumar um cigarro quando a campainha tocou. Quem seria àquela hora, pensava enquanto se dirigia à porta, já não se lembrava da última vez que tinha ouvido a campainha a tocar. Abriu a porta e do outro lado estava um rapaz que lhe estendia um prato de barro. Era o restaurador que trazia o prato arranjado. António Joaquim olhou atentamente para o prato, era um trabalho de restauro perfeito, não se via nenhuma racha, nenhuma folga, nenhum indício que aquele prato se tinha partido. Olhava admirado para tal obra de arte, Maria Josefina iria ficar contente com aquele trabalho, pode ser que a voltasse a ver sorrir.
Joaquim voltou-se para agradecer ao restaurador, quando, de repente, o seu rosto fica visivelmente transtornado. O grande prato de barro estilhaçou-se ruidosamente no chão em mil e um pedaços, o corpo de António Joaquim tremia compulsivamente, a cabeça transpirava pequenas cascatas de água, os olhos transportavam o horror, o seu rosto ganhou contornos cadavéricos. Os olhos…. Aqueles olhos… Os olhos do restaurador eram azuis. Uns olhos azuis tão claros como o céu aberto e tão profundos como o mar calmo.

março 27, 2006

Aqui não há inocentes!

Esta reflexão foi publicada no blog do Clube dos Pinguins, porque achei pertinente, na altura, desabafar algumas ideias e reflectir sobre isso.
Acabei por gostar do resultado final e por isso publico-o aqui também, até porque é muito raro eu escrever criticas de cinema, apesar de ser uma das minhas grandes paixões.

Há já muito tempo que não via um filme tão bom como o Crash e devo admitir que dei pulos de alegria quando soube que este tinha ganho o Óscar® de melhor filme. Raros são os filmes que me deixam a pensar e ficam a remoer durante bastante tempo.
Crash é um filme intenso com uma enorme carga dramática, mas sem ser demasiado lamechas ou profundamente intelectual. Podemos dizer que a carga dramática está no ponto. Conta com o apoio de um excelente elenco (Sandra Bullock forever!!) que por sua vez é superado por um fantástico e suberbo Matt Dillon, que, permitam-me a expressão, "Puta que o Pariu!!!" (Não é que o Philip Seymour Hoffman não merecesse o Óscar®, muito pelo contrário! Só que Matt Dillon não lhe fica atrás...)
Crash trata de um tema tão emergente e perigoso como a xenofobia numa cidade sob tensão que é Los Angeles (Não podemos esquecer o caso de Rodney King em 1992).
Com o passar do filme começei a ficar com a sensação de que a xenofobia só existe porque nós a permitimos. Com os nossos medos, as nossas fobias, os estéreotipos e os falsos preconceitos que nos são incutidos deste muito novos. Temos tendencia logo à partir de tirar juizos de valor das pessoas, muitas vezes nem sempre são correctos e se olhamos para uma pessoa e a julgamos uma marginal e essa pessoa está inocente, então o culpado somos nós! Assim seremos nós os xenófobos e a pior xenofobia é a inconsciente (e a inconsequente...)! Sim, é verdade! Todos nós somos xenófobos, conscientes ou não... Estamos sempre a pensar no nosso prórpio umbigo, sentados no nosso sofá, a ver a nossa televisão, na nossa casa que sempre que encontramos alguém que não tenha essa sorte a descriminamos, desprezamos ou, ainda pior, gozamos com a situação dela, sem pensarmos nos sentimentos, nos problemas e na dor que essa pessoa pode estar a sentir. Depois quando essa pessoa se farta e vira-se para nós, leva tudo à frente, culpados e inocentes, nessa altura nós chamos-lhe xenófoba ou doida ou seja lá o que for... Mas quem começou fomos nós! (Volto a lembrar o caso de Rodney King...)
Crash passa-se em Los Angeles, mas podia passar-se em qualquer outro lugar. Os medos e os preconceitos lá latentes estão em qualquer parte do mundo e é bom que, de vez emquando, apareçam filmes assim para nos chamar de volta para a realidade e para, de vez em quando, olharmos para nós próprios e perceber que neste mundo todos somos culpados. Se não é pelo que fazemos, é pelo que não fazemos.

janeiro 07, 2005

Barks

BARKS


I


Morbid é uma vila calma, situada à beira mar, a 10 km de Nowhere City. Os seus habitantes vivem sossegadamente a sua pequena rotina fechada, sem grandes ambições e sem nunca terem saído muito da sua pequena vila.
Morbid vivia, basicamente, do turismo e da pesca. Durante o verão ocupavam-se em alugar casas, montar barracas de comes e bebes, animações e tudo o que pudesse interessar aos turistas. No resto do ano pescavam e tratavam das suas pequenas hortas, não só para ocuparem o tempo, mas também para terem alguma comida, pois o dinheiro que a vila ganhava no Verão dava-lhes subsistência suficiente para o resto do ano.
Madame Delacroix era um travesti, uma daquelas personagens que toda a vila conhecia. Ninguém gostava muito dela, era uma pessoa má e mesquinha, que estava sempre a meter-se na vida dos outros. Trabalhava à noite num bar de travestis e raramente era vista durante a luz do dia, tirando algumas vezes que aparecia na janela de sua casa. Vivia num belo edifício mesmo em frente ao castelo, no centro costeiro da vila. Sabia tudo sobre todos, sabia os segredos mais secretos da vila e à custa disso já tinha “queimado” muito boa gente de Morbid.
Mas Madame Delacroix não era a única personagem estranha na vila, havia uma outra personagem ainda mais estranha, muito mais enigmática e de quem muitas pessoas tinham medo: Robert Barks. Ninguém sabia onde Barks trabalhava, nem sequer o que fazia, mas sabia-se que vivia sozinho, saía de casa todos os dias às onze horas da manhã, passava pela tabacaria, comprava o jornal e um maço de tabaco, entrava no café “Royal Break”, tomava o seu café e lia o jornal. Isto tudo num espaço de 30 minutos exactos. Às onze e meia abandonava o café em direcção ao seu carro e às onze horas e cinquenta e dois minutos exactos passava a portagem de Morbid em direcção a Nowhere City. Não se sabia mais nada a respeito de Barks, a não ser que chegava todos os dias às sete da tarde, entrava em casa e só voltaria a sair às dez da noite para dar um passeio perto do castelo. Normalmente regressava a casa por volta das onze menos um quarto, o tempo de dar a volta ao castelo, olhar o horizonte e fumar dois cigarros. Sim, Barks era de uma exactidão horária tal, que Nicholas, seu vizinho, acertava os seus relógios por ele. Às vezes demorava um pouco mais, sentava-se num banco perto do castelo a pensar e a fumar mais um cigarro, regressando a casa às onze horas e doze minutos exactos.
Poucas pessoas cruzavam-se com Barks nessa altura. Madame Delacroix era uma delas, costumava sair de casa por volta das onze horas e às vezes ainda apanhava Barks, quando este resolvia dar um passeio mais longo.
“Sempre com o seu andar vagaroso, pensativo, mas com um olhar tenebroso, sempre que olha para mim arrepio-me. Aquele homem mete medo. Ninguém sabe o que ele faz, nem quem ele é. Acreditem em mim, não se metam com ele, é uma pessoa perigosa!” dizia Madame Delacroix às pessoas, que raramente lhe davam ouvidos, mas todas concordavam que Barks era uma pessoa estranha.
Barks também não gostava de Madame Delacroix. Achava-a asquerosa, mesquinha e intrometida. O facto de ela estar sempre a meter-se na vida dos outros era, para ele, repugnante. Por isso, sempre que se cruzava com ela, lançava-lhe um olhar aterrador e divertia-se imenso, sem o demonstrar, quando ela reparava no seu olhar e começava a tremer. Gostaria de pensar que Barks dava, às vezes, o seu passeio mais longo, só para se cruzar com Madame Delacroix e lhe deitar os seus olhos de fogo e com isso regressar mais alegre a casa.
II
Numa noite, como de costume, às dez horas da noite, Barks saiu para o seu passeio habitual. Dirigiu-se para o castelo e acendeu um cigarro. Subitamente algo fez despertar a sua atenção. Um pequeno ruído que vinha perto do castelo. Barks desviou-se ligeiramente da sua rota habitual para investigar um pouco melhor aquele ruído. Qual não é a sua surpresa ao reparar que é um pequeno grupo de cães que se encontrava ali. Barks estava farto de saber que aquele grupo de cães estava sempre ali, passava por eles todos os dias e normalmente faziam-lhe companhia quando se sentava no banco a apreciar o horizonte, mas mesmo assim ficou surpreendido por ter reparado neles e disso o ter desviado ligeiramente do seu curso habitual. O que seria de tão estranho para ter desperto a sua atenção, naqueles cães, pensava Barks. Pareciam famintos, mas eles costumavam alimentar-se dos restos que sobravam da feira e das pequenas coisas que as pessoas caridosas lhes davam enquanto passeavam e viam as bancas. Pois, mas naquele dia de tarde tinha despertado um temporal e provavelmente não houve feira, pensava Barks, as pessoas também não devem ter passado muito por ali. Desgraçados dos bichos…
Então, pela primeira vez em Morbid, aconteceu algo de inacreditável. Barks quebrou toda a sua rotina e regressou rapidamente a casa, recolheu os restos de arroz que haviam sobrado do seu jantar e voltou para o castelo.
*
Nicholas, o seu vizinho, sentiu algo de estranho. Passavam pouco das dez e meia e já sentia Barks a entrar em casa. Correu velozmente para a janela e viu Barks a entrar em casa. “Tão cedo..., pensou, Isto não é bom sinal. Vem aí algo de desagradável.”
Ainda estava Nicholas a perguntar-se o porquê desta mudança súbdita e a pensar como é que haveria de acertar os seus relógios se Barks começasse a mudar de hábitos, quando este volta a sair de casa, desta vez com um saco de comida, dirigindo-se rapidamente para o castelo. “Isto é muito estranho! Isto não me agrada nada! Um dia de temporal, noite de lua cheia! Isto não me agrada nada!” Fechou as janelas a correr e voltou-se a sentar no sofá, rezando para que não se passasse nada.
*
Barks regressava ao castelo. Chegou à beira dos cães e começou a abrir o saco de comida quando se sentiu observado. Olhou à sua volta rapidamente parando o seu olhar no prédio de Madame Delacroix. Ali estava ela no seu terceiro andar, olhando fixamente para Barks. Envergava um enorme vestido vermelho, esguio, cheio de plumas e folhos. Provavelmente também ela tinha estranhado a atitude de Barks e, curiosa como era, estaria atenta ao que se passava e receosa do que poderia sair daquela pessoa.
Barks parou e ficou a olhar fixamente para Madame Delacroix. O seu primeiro instinto foi pegar nas coisas e seguir caminho. Aquela vaca não precisava de saber o que ele ia ali fazer, pensara ele. Conteve-se, virou costas e forneceu a comida aos cães que, num ápice de gula, fome e contentamento correram em sua direcção, devorando cobiçosamente o regalo dos deuses. Barks sorriu. Era raro sorrir, salvo quando fazia cara feia a Madame Delacroix, coisa que lhe dava um enorme prazer. Acendeu um cigarro e olhou novamente para o prédio de Madame Delacroix. Ela continuava ali a olhar fixamente para ele, parecia que nem se tinha movido, estava precisamente na mesma posição e com o mesmo olhar. Barks torceu o nariz, aquela mulher não era de confiança, mas não lhe podia mostrar apreensão, isso seria a glória de Madame Delacroix. Olhou para o relógio e reparou que já eram quase onze horas, só tinha mais doze minutos para o seu passeio. Com um aceno suave e um sorriso amarelo de orelha a orelha despediu-se de Madame Delacroix, a qual também não fraquejou e ficou rigorosamente na mesma posição, sem qualquer reacção. Parecia uma morta, pensou Barks enquanto retomava a sua rota habitual. Sentou-se um pouco no banco para apreciar o horizonte enquanto fumava mais um cigarro.
*
Nicholas ouviu Barks a regressar a casa. Eram exactamente onze horas e doze minutos. Suspirou de leve, visto Barks permanecer a sua exactidão horária, mesmo assim aquela história continuava a não lhe agradar, mas não podia pensar mais nisso, já eram quase onze e vinte e ele tinha que se aprontar para fazer a recolha habitual do lixo.

outubro 24, 2004

O Drama de Um Editor

O Drama de Um Editor (de Vídeo)


Que raio de profissão eu fui arranjar….
Ninguém imagina os trabalhos que se passa quando alguém pergunta a nossa profissão. Já é complicado de explicar e depois ainda é mais complicado de compreender. Porque é que eu não fui para um, trabalho mais simples? Tipo fotógrafo? Ou DJ? Toda a gente sabe e ninguém faz perguntas.

Eu sou o responsável pelas montagens de filmes, anúncios e tudo o que me chegar às mãos. Ok! Se o meu trabalho é a montagem então eu sou montador. Montador?

- Olá, eu sou montador!
- Andas a cavalo, é isso?
- Montas em quem?
- Isso tem alguma coisa a haver com cabras, ou zoofilia???

Não! Eu não posso chegar à beira das pessoas e dizer que sou montador. Hmmm… Eu trabalho numa mesa de edição e num software de edição de vídeo. Em Inglês Montagem aparece como Editing. Então sou editor, será o mais justo.
Agora imaginem eu sossegado, num bar, a beber um copo e aparece uma rapariga a meter conversa. A conversa começa bem até que chega ao ponto em que ela pergunta:

Ela: O que fazes?

Eu: Sou editor de vídeo.

Ela: Isso é interessante. Então deves ter montes de filmes. E para que editora trabalhas? Para a Prisvídeo? Para a Lusomundo?

Eu: Não. Eu não sou editor de publicações. Sou editor de vídeo. Faço montagens.

Ela: Montagens?? Ahhh… Montas os vídeos! Então também fazes reparações? É que eu tenho o meu vídeo de casa avariado e…

Eu: Não, não! Não é nada disso. Eu não faço a montagem física dos leitores de vídeo. Eu pego nas imagens todas, selecciono-as, corto-as e colo-as umas às outras. Trabalho de pós-produção, sabes? É isso que eu faço, pós-produção.

Ela: Ah! Produtor de vídeo. Mas não me disseste que eras editor?

Ok! Podemos ficar por aqui, porque a conversa vai durar e durar. Vou ter de explicar tintim por tintim a técnica do “corta e cose” para depois no final ela ficar com a ideia que eu passo os dias enrolado em fita magnética com uma tesoura na mão e fita-cola na outra, a “cortar e colar” fitas para depois enfiar tudo numa cassete para fazer um Master em Betacam.

Resolvi desistir de tentar explicar às pessoas o que é que eu faço. Agora tenho duas tácticas. Uma para despistar e mandar embora as melgas, sejam homens ou mulheres, resulta em ambos os casos, experimentem:

- … e então o que é que tu fazes?
- Eu? Sou actor.
- Actor? Porreiro, mas actor de quê? Teatro? Cinema? Novela??? – Perguntam de olhos esbugalhados e sorriso de orelha a orelha.
- Não! Sou actor pornográfico!

Fim de conversa. Sim, fim de conversa. Garantido. Os olhos arregalam-se as pupilas diminuem, o sorriso descai, engolem em seco e não abrem mais a boca a noite toda. Isto se não virarem logo costas…

Outra táctica serve para desviar a conversa para outro assunto. É muito simples, basta dizer uma profissão perfeitamente banal:

- Qual é a tua profissão?
- Trabalho no McDonald’s
- Ahh……….

Ainda há uma pequena possibilidade de perguntar, se for gajo (só para meter nojo…):

- E pagam bem?

Não tenham medo. Basta responder:

- Pagam da mesma maneira que são feitos os hambúrgueres…. Uma merda!

Fim de conversa.
Se for gajo, a conversa passa logo para motas e escapes.
Se for gaja, a conversa passa logo para o preço dos preservativos, se é melhor com ou sem preservativo, se a posição 76 é tão boa como dizem, se a pílula do dia seguinte é fiável, etc. Se tudo correr bem e passarmos esse teste existe uma forte possibilidade de no final se por em prática todo o que se esteve a falar.
Passar por uma farmácia, insultar o preço dos preservativos e cuspir no chão da farmácia. Experimentar com e sem preservativo a posição 76 e depois no dia seguinte tomar a “pílula maravilha” para ver se sempre resulta… (Começo a invejar os gajos que trabalham no McDonald’s)
Esta última é um pouco mais complicada, porque, normalmente, só passado um mês é que recebemos uma chamada telefónica do tipo:

- Olá, sou eu! Lembras-te? A da posição 76? Olha, lembras-te da conversa que a gente teve sobre a pílula do dia seguinte? Afinal, não era bem como tínhamos falado. Não é assim tão segura…

- Foda-se!

setembro 30, 2004

Dedicatória a Camões

Grande Camões, como poderias tu, naquela altura, saber tanto de mim???

O dia em que nasci morra e pereça,
Não o queira jamais o tempo dar;
Não torne mais ao Mundo, e, se tornar,
Eclipse nesse passo o Sol padeça.
A luz lhe falte, o Sol se [lhe] escureça,
Mostre o Mundo sinais de se acabar,
Nasçam-lhe monstros, sangue chova o ar,
A mãe ao próprio filho não conheça.
As pessoas pasmadas, de ignorantes,
As lágrimas no rosto, a cor perdida.
Cuidem que o mundo já se destruiu.
Ó gente temerosa, não te espantes,
Que este dia deitou ao Mundo a vida
Mais desgraçada que jamais se viu!

.....................................................

Os bons vi sempre passar
No Mundo graves tormentos;
E pera mais me espantar,
Os maus vi sempre nadar
Em mar de contentamentos.
Cuidando alcançar assim
O bem tão mal ordenado,
Fui mau, mas fui castigado.
Assim que, só para mim,
Anda o Mundo concertado.


Sim, é verdade. Antes de eu descobrir os "Doors" e o Jim Morrisson se tornar o meu deus, o meu Guru, a minha luz, eu tinha descoberto Luís Vaz de Camões.
Comecei por descobrir os pequenos textos, ditos Sonetos, que toda a gente conhece, "Amor é fogo que arde sem se ver", "Alma minha gentil, que te partiste" e Redondilhas, "Perdigão perdeu a pena/Não há mal que não lhe venha" e quanto mais o descobria mais me apaixonava por ele, mais me encontrava nos escritos dele.
Quando já me tinha rendido à sua magnitude, resolvi pegar nos Lusíadas (dá-se nas escolas, não sei se sabem). É claro que não o li todo, isso seria suicídio para um jovem, mas li as passagens mais importantes e rematei o conhecimento com a ajuda de livros, professores e uma cassete áudio, que me chegou ás mãos pela minha professora de Português Dália Dias, que continha excertos dos Lusíadas narrados com um toque teatral pela voz de João Cardoso, que proporcionava uma deliciosa viagem sobre esta grande epopeia (receio ter perdido o rastro a esta cassete).
Se eu já me tinha rendido à "magia" de Camões, quando tomei, finalmente, contacto com o "interior" dos Lusíadas fiquei completamente de rastos. Automaticamente Camões saltou para o meu pedestal dos deuses.
E quem é que pode esquecer aquela fabulosa cena do espectáculo "Vai no Batalha" do Teatro de Marionetas do Porto em que a marioneta/poeta entra magistralmente em palco pelas mãos do grande Rui Oliveira e diz:

"E agora um breve momento de poesia. (And now for something completely different, diria eu)
De Luís Vaz de Camões... Os Lusíadas.

As Armas e os barões assinalados
Que da Ocidental praia Lusitana
Por mares nunca dantes navegados....
"

Ahhh... Pudera o tempo parar para gozar em pleno estas pequenas relíquias que a história e o pó da memória vão cobrindo e apagando...

setembro 26, 2004

A Corda no Pescoço

Finalmente chegamos ao fim. O texto que deu origem a este blog.
O Teatro é um mundo complicado. Vive-se em constante pressão, sempre em contagem decrescente e o tempo que há nunca é suficiente. "Mais uma semana e isto ficava bem!" é sempre o cliché de uma estreia. É exactamente durante esse periodo que nasce este texto, a menos de uma semana de uma estreia, enquanto se acabam as ultimas alterações no vídeo de cena e o computador nos manda esperar quando nós temos tempo para tudo menos para esperar. A corda começa a apertar e não podem ocorrer erros. Este sofrimento é muito solitário e é dificil encontrar ou falar com alguém que compreenda esse desespero. Acho que este texto é suficientemente elucidativo nesse aspecto.


A Corda no Pescoço

Estou neste momento com a corda no pescoço. Sinto o chão a vibrar por baixo dos meus pés, a ranger, vai e vem...
Sinto um enorme aperto no coração, um aperto indescritível à espera do momento em que o chão me vai fugir dos pés e acabar com tudo.
Pum, Pum, Pum, Pum....
Às vezes peço para que o chão se abra e acabe com todo este desespero. A corda cada vez está mais apertada, já mal respiro. O coração bate cada vez mais depressa.
A espera... A expectativa... O stress... Os nervos... O coração.... O desespero...
Queria adormecer e só acordar quando tudo estivesse acabado, mas não consigo... Os dias passam uns a seguir aos outros e quando acordo reparo que já passou mais um dia e que a corda cada vez mais está apertada.
Às vezes peço para que o chão se abra e acabe com tudo isto.
Olho à minha volta e não vejo ninguém. Ninguém veio assistir ao meu enforcamento. A solidão...
Às vezes sonho com pessoas. Pessoas à minha volta a sorrirem e a abraçarem-me, mas nenhuma me tira a corda do pescoço. Talvez não a vejam, talvez não se importem, talvez não consigam, talvez eu não as deixe... Não sei! Acordo sempre a meio do sonho.
Já não me lembro como era o mundo lá fora. Já não me lembro de nada a não ser dos meus sonhos, mas tenho saudades... Queria voltar ao normal. Será possível? Haverá retorno??? Quanto tempo irá demorar isto???
Às vezes também sonho com o mar... O sol ao fundo alaranjado a desaparecer... O barulho da água... O ar fresco...
Não gosto de sonhar com o mar! Acordo sempre com a cara molhada e eu não gosto de chorar.
Continuo aqui pendurado. A corda já me rasga o pescoço. O chão continua a tremer e a ranger.... Continuo sozinho... Será que um dia isto vai acabar? Decerto que sim, ou o chão finalmente se abre ou o coração pára. Não sei quanto tempo mais ele vai aguentar este ritmo.....
Já perdi as esperanças que alguém apareça para me salvar... Aliás já perdi qualquer esperança... E esta espera mata-me. A espera... A expectativa... O stress... Os nervos... O coração.... O desespero... A solidão... Quanto tempo irá demorar isto???
Não me lembro de quem me pendurou aqui. Nem me lembro como aqui vim parar. Terei vindo sozinho? À força? De livre vontade? Não me recordo....
Tenho saudades de um cigarro a acompanhar uma cerveja. Tenho saudades de fazer festas ao meu cão. Às vezes lembro-me dele e sonho com ele de vez quando.

Tenho saudades dela... Sim, é verdade! Ainda me recordo dela... Tenho saudades dela...

Pergunto-me frequentemente se tudo não terá sido um sonho. Se não estive aqui sempre o tempo todo pendurado a sonhar. E se esta for realmente a realidade? E se tudo não passou de sonhos? O mar... O sol... Os cigarros com cerveja... O cão... e Ela??? Terá sido ela, também, um sonho?

Às vezes peço para que o chão se abra.... Devagar....
9 de Junho de 2003

Regresso

Isto é mais uma reflexão do que ficou para trás, do que um prefácio, mas foi pensado para o prefácio de mais uma história que tinha em mente. Nunca cheguei a escrever essa história e nunca cheguei a ter uma ideia concreta para a avançar, mas a ideia base ainda deambula na minha mente e sei que mais tarde ou mais cedo vou voltar a ela. É inevitável...


31 de Maio de 2001


São 2:16 da manhã. As ideias “flutuam” constantemente na minha cabeça. Tenho saudades de escrever e sinto-me mais uma vez tentado a escrever. Necessito de pôr as minhas ideias em prática e necessito mais do que nunca de descarregar a minha raiva, libertar todo o meu ódio e repulsa que tenho recalcado ao longo destes 2 anos sem escrever.....
Após Nowhere City e Morte e Salvação, sinto que vou continuar na mesma onda e que provavelmente vou voltar a Nowhere City pela terceira vez. Sim pela terceira vez porque cada vez mais acredito que a Morte e Salvação é passado em Nowhere City. Aliás tem todos os ingredientes para isso e o espaço físico é o ideal para a compreensão da história. Então não é em Nowhere City que a morte vive?? E não é ela própria que aparece In loco na Morte e Salvação?? Que dúvidas podem restar? Toda a raiva e morbidez da Morte e Salvação compactuam perfeitamente com Nowhere City.
Sendo assim acho que vou voltar a Nowhere. Mas desta vez será diferente, não vou ser como John em Nowhere City ou William em Morte e Salvação. Desta vez vou tentar conjugar a raiva que há em Nowhere City com a morbidez e o massacre sanguinário de Morte e Salvação e tentar juntá-las numa única pessoa, uma pessoa má, vingativa, sanguinária, tendo algumas parecenças com as personagens anteriores. Será uma pessoa romântica e ao mesmo tempo “desligada da vida” como John e sofredora a quem a vida nunca sorriu. É talvez esta ligação que faz com que esta nova personagem tenha um comportamento tão desumano e egoísta..... Não sei..... Esta será uma questão que eu provavelmente só irei solucionar quando começar a escrever e a criar esta nova personagem....

A Morte..... Mais uma vez a morte..... Sim, sem dúvida.... Ela tem de aparecer..... Como?? Não sei... Ainda tenho de arranjar uma maneira de a integrar. Mas acho que ela vai ser um pouco diferente da Morte de a Morte e Salvação. Desta vez ela, embora mantenha a mesma onda negra e fria, será talvez a femme fatal que dará origem a tudo. Uma mulher sensual... Sim.... Acho que será interessante ver a morte como uma mulher fatal, uma “boazona” e, como todas as “boazonas”, uma grandessíssima cabra.......

São ideias no ar que serão a rampa de lançamento para mais um texto......
2001

setembro 22, 2004

Tabacos

Uma nova tentativa de voltar a escrever um conto. Devido ao "falhanço" das "Crónicas" resolvi deixar o humor sarcástico de lado e voltar à velha formula de morbidez. A minha intenção era recriar alguns contos sórdidos que rondassem o tema do Tabaco, mas a ideia era fraca, faltavam-me temas e motivos, no fundo acho que me faltou a raiva e a fúria de outros textos anteriores, ou seja, a vontade de matar a torto e direito, por isso acabou por ficar só um capítulo completo e algumas ideias soltas....


Tabacos

É certo que o tabaco mata! Também é certo que mais tarde ou mais cedo vamos desta para melhor..... Mas quando se diz que o tabaco mata, pensa-se só nas doenças, nos cancros e noutras causas naturais. Ora, existem muitas outras causas que não são naturais, causas externas ou sobrenaturais, e são essas que eu vou tentar provar aqui. Vou tentar mostrar-vos várias maneiras de morrer por causa do tabaco sem ser por causas naturais....

I

Stephen era uma pessoa calma, sem grandes problemas a atormentá-lo. Tinha apenas um problema... fumava! Gostava de estar em casa, não saía muito. Passava as tardes a ver televisão ou a ler um livro enquanto fumava os seus cigarros.
Um certo dia estava Stephen em sua casa a ler um livro e reparou que não tinha tabaco. Não lhe apetecia sair de casa de propósito só para comprar tabaco, por isso conteve-se e continuou a ler. Passado umas horas Stephen já não conseguia aguentar mais, sentia a garganta seca, o seu corpo tremia sempre que pensava num cigarro e já via as coisas meias desfocadas. Estava mesmo a precisar de fumar um cigarro... Desesperado vai a carteira, confere se o dinheiro chega para o tabaco, veste o casaco e sai a correr de casa. Pára no cruzamento mais próximo, o semáforo está verde para os peões e Stephen atravessa a correr. Nesse preciso momento um carro da polícia, que vinha disparado e tinha passado no vermelho, vira para a esquerda e ouve um estrondo. Pequenas gotinhas de sangue salpicaram o pára-brisas, o carro travou a fundo. Dois polícias saíram a correr do carro, Stephen estava estendido no chão a poucos metros do carro, à sua volta estava uma grande poça de sangue, os seus olhos estavam abertos, mas o seu corpo estava inerte. Stephen morreu poucos minutos depois.....
2001