Eu não te suporto!
Não! A sério!
Não consigo ver a tua cara à minha frente!
Enoja-me. Dá-me vómitos.
Gostaria de ter a coragem de te dizer:
Vai para o caralho!
Ou então:
Vai-te foder mais a cona da tua tia!
Acredito que um dia seremos felizes para sempre.
Um sem o outro, obviamente...
junho 13, 2008
Sai-me da frente!
junho 06, 2008
Viva a Ignorância!
Agradeço a quem me deu os ouvidos para ouvir.
Agradeço e que me deu a boca para falar.
Agradeço a quem me deu as mãos para trabalhar.
Agradeço a quem me deu as pernas para andar.
Mas, a quem me deu a capacidade de percepção
que se foda no mais profundo dos infernos.
junho 05, 2008
Efeito colateral
Não sei onde estou.
A cabeça pesa sobre os meus pobres ombros.
O mundo mexe-se devagar à minha volta.
Puta que pariu a cerveja grátis!
abril 29, 2008
Olho Profissional
abril 04, 2008
Encadeamento

Ele telefonou-me a dar-me conta dos planos.
Eu telefonei ao meu pai.
Ele telefonou à minha mãe.
Ela telefonou para a minha tia.
A minha tia telefonou para a vizinha.
A vizinha telefonou para a outra vizinha.
A outra vizinha telefonou para a prima do Brasil.
A prima do Brasil telefonou para a prima de França.
A prima de França telefonou para o irmão.
O irmão telefonou para o amigo.
O amigo não atendeu, fodendo esta merda toda.
março 18, 2008
Cof! Cof!
Três Letrinhas Apenas
Vai
Com três letrinhas apenas se escreve a palavra
Pro
Com três letrinhas apenas se escreve a palavra
Car
Mas são precisas quatro letras para a palavra
Alho
Ora, [3+3+(3+4)] é uma fórmula específica de mandar as pessoas para um lugar específico e que pode ser resumida com três letrinhas apenas:
VPC
março 14, 2008
A Verdade da mentira!
Tu ficarias a detestar-me...
março 12, 2008
Curto-Circuito

A sogra mexia-se desconfortavelmente naquela estranha cadeira de metal. Nunca tinha gostado daquelas cadeiras, eram demasiado rijas para as suas pobres costas e demasiado pequenas para o seu farto corpo. Hoje, porém, havia algo que a inquietava.
Ele, do outro lado da mesa, apreciava este espectáculo com muita atenção e foi com um enorme sorriso que pediu ao filho que ligasse o interruptor que conectava aquela cadeira metálica ao quadro eléctrico.
Descobriu da pior maneira que a sogra tinha trocado as cadeiras.
março 10, 2008
fevereiro 03, 2008
Bifurcação
Só muito tempo depois é que ele reparou que a partir daquele dia a sua língua se tinha bifurcado...
janeiro 15, 2008
Morte engomada
que o carrasco se lembrou
de que se tinha esquecido de desligar o ferro de engomar
e assim... falhou o golpe,
sendo, ele próprio, condenado à dita foice.
janeiro 10, 2008
Sol Molhado
Nem ao pior inimigo se deseja
Ele pousou a cabeça no meu ombro e chorou.
Crédito para uma morte feliz
Como não tenho arma, deparo-me com um dilema:
Mesmo que consiga juntar dinheiro para comprar uma arma,
Nunca chegarei a ter dinheiro suficiente para comprar munições.
dezembro 28, 2007
Anjo Mortal
Recordava-me de ti com um sorriso aberto, os teus olhos vibravam ao sabor dos teus cabelos e eras eléctrica como uma formiguinha que tinha encontrado um doce.
Via-te como um anjo alegre com quem tinha partilhado alguns bons momentos, que retive saudosamente no meu baú da memória. Mas naquela noite tudo mudou.
Mataste-me sem saberes, espetaste-me uma faca no coração e entristeceste-me as entranhas. Nesse momento as imagens idílicas que se encontravam no baú entraram em combustão e carbonizaram-se. A cor do teu cabelo, o teu cheiro, o teu rosto e todos os teus sorrisos, deram lugar a uma imagem triste e melancólica.
Morri naquele momento exacto em que me apercebi que o tempo tinha passado por nós, cobrindo a nossa curta e breve relação, que a vida tinha sido tão dura para ti como foi para mim, que tu tinhas amadurecido (quiçá envelhecido) e já não eras o anjo alegre e inocente que jazia no meu baú das memórias. O anjo do baú deu lugar a um ser humano, as imagens alegres transfiguraram-se em dias de tempestade, da felicidade para a agonia, a esperança virou-se para o desespero, o sonho diluiu-se com tudo o resto.
Morri exactamente por isso. Ao perceber que já não poderíamos voltar a repetir o passado, que já não éramos iguais, que a vida nos separou cruelmente.
E tu mataste-me ao mostrar que afinal não eras um anjo, mas um simples ser humano, mortal, como todos nós.
dezembro 02, 2007
Confettis
O espectáculo tinha acabado. Os miúdos rompiam furiosamente pelo o palco a convite dos palhaços. A anarquia estava lançada. Correrias, gritos estridentes e empurrões, reinavam naquela barafunda de miúdos eléctricos que pulavam pelo palco como se estivessem a ser electrocutados. Todos queriam brincar com o Urso Bob, o carro com luzes que piscam e a boneca que lança confettis.
Marlene, de 6 anos, apreciava esta cena de longe. Tinha ido ao teatro acompanhada pelos pais, enquanto todos os outros miúdos tinham sido levados pelo colégio que frequentavam. Era a única criança que tinha ido “sozinha” ao teatro, ou pelo menos era assim que se sentia. Apreciava a saudável anarquia que se passava à sua frente e olhava de vez em quando para a boneca que lança confettis.
Era uma boneca grande, muito engraçada que de vez em quando “cuspia” confettis enfeitando o palco com pequenas fitas que desciam lentamente como se de neve se tratasse. Era sem dúvida a atracção preferida dos miúdos. Os olhos de Marlene entristeciam. Também ela gostaria de ir brincar com a boneca. “Mas nunca com aqueles selvagens!”, pensava, “Estou muito melhor aqui ao pé dos meus pais, que gostam de mim e me protegem.”
De repente o mais inesperado aconteceu. Os pais de Marlene perguntaram-lhe se ela não queria ir brincar para o palco. Marlene ficou aterrorizada, branca, as suas feições transfiguraram-se, as suas pernas tremiam enquanto se encolhia lentamente no pequeno degrau onde estava sentada.
Não! Isso nunca!, pensava, Ir ali para o meio daqueles selvagens, que não conhecia de lado nenhum, para aquelas bestas que só sabem gritar, saltar e correr como loucos, empurrando tudo e todos os que tivessem à sua frente. Não! Ainda se podia magoar. Não! Não queria saltar para o palco e ser espezinhada por um grupo de miúdos raivosos, que além de lhe baterem (e talvez a matarem à paulada) ainda a cortariam em postas para ser devorada pelo Urso Bob. Não! Isso Nunca!
Os pais estranhando este tipo de comportamento vindo de Marlene, tentavam perguntar o porquê daquela súbita atitude. Tentavam convencê-la a ir para o palco com palavras mas a pequena Marlene limitava-se a abanar furiosamente a cabeça e a encolher-se mais no seu pequeno degrau. Não! Já tinha dito que não. Olhou mais uma vez para a boneca. Era uma boneca linda e no fundo do seu coração Marlene queria ir brincar com ela e dançar no meio da chuva de confettis, mas nunca com aqueles animais ali aos saltos. Feito isto, pequenas lágrimas escorreram pelo pequenos rosto de Marlene. Um sensação muito confusa passava-se dentro de si; por um lado queria ir brincar, mas por outro sentia medo daqueles estranhos que não conhecia de lado nenhum. Preferia ficar ali ao pé dos seus pais, pois assim estaria protegida, mas os pais não pareciam querer isso. Afinal queriam que ela fosse para o meu daqueles loucos. Levantaram-se calmamente e perguntaram mais uma vez se ela não queria ir brincar para o palco.
Se pequenas lágrimas escorriam pelo rosto de Marlene, agora corriam ininterruptamente. Marlene não queria acreditar no que os seus próprios olhos estavam a ver: os seus próprios pais, que a deviam proteger e amar, queriam forçá-la aquilo que do seu ponto de vista inocente lhe parecia ser a morte certa. Não! Não queria ver o seu sangue a escorrer pelo palco, enquanto os outros miúdos se deliciavam naquilo que bem podia ser uma cabidela de Marlene. Não queria ser degolada pelo carro com luzes que piscam atirado ao ar por um puto raivoso. Não queria ser esquartejada pelo Urso Bob enquanto os seus pais se riam sadicamente de tudo o que se estava a passar. Não! Não podia ser verdade. Os seus próprios pais não lhe podiam estar a pedir para ir brincar para o palco! Não!
Os pais apercebendo-se do pânico de Marlene, voltaram a sentar-se, conversaram um pouco com ela e disseram que estava tudo bem, se ela não queria ir, também não era obrigada. Marlene sentiu-se um pouco mais confortada, afinal os seus pais já não a queriam comer cozida no seu próprio sangue, afinal eles ainda gostavam dela. Mas aparte disso ela ainda queria ir brincar com a boneca, mas nunca com aquele bando de canibais ali e sabia que eles tão cedo não sairiam de lá . “Haviam de morrer todos”, pensou, “Haviam de morrer todos queimados. Devia haver um incêndio e eles morrerem todos carbonizados.”
Um pequeno sorriso brotou na face de Marlene. Imaginando a boneca a cuspir confettis de fogo, fez um sinal aos pais de que queria ir embora e levantou-se calmamente vendo os confettis a arder, caindo lentamente sobre os miúdos que corriam e gritavam em pânico com as costas em fogo. Sim, continuavam a correr e a gritar, mas desta vez não era de contentamento, mas sim de dor e desespero, caminhando para uma lenta e agoniante morte.
Calmante Marlene abandonou a sala levando um sorriso estampado na cara, que muito intrigou os seus pais. No palco a cabeça do Urso Bob, despregada do seu corpo em chamas, caía sobres os pequenos corpos em chamas que jaziam agora num silêncio dourado.
outubro 10, 2007
Olhos Azuis
I
António Joaquim tinha acabado de chegar a casa. Entrou calmamente pela cozinha adentro, o seu cão Nero veio ter aos seus pés abanando a cauda com contentamento enquanto Maria Josefina, sua mulher, estava na banca a trabalhar, manuseando cuidadosamente um grande prato de barro. Ele aproximou-se sorrateiramente dela e passou-lhe a mão pelo corpo, mas ela assustou-se, deixando descair o prato de barro. Os dois ficaram frente a frente impávidos com aquela estúpida situação. António Joaquim tentou fazer uma leve festa no rosto de Josefina, como que a pedir desculpas, mas esta afastou bruscamente qualquer tipo de aproximação de António, não queria qualquer tipo de piedade naquele momento. O seu melhor prato de cozinha estava estragado e a situação não estava favorável para comprar louça nova, ainda por cima de barro.
Maria Josefina pegou lentamente no prato, examinando-o ao pormenor. Sim, estava rachado. Lentamente dirigiu-se para a porta e, sem olhar para trás, saiu deixando António Joaquim abandonado.
II
Os anos passaram. O casal tinha agora uma filha de 8 anos. Maria Josefina estava na cozinha a limpar o seu lindo prato de barro com um enorme pano azul. Levantava-o, revirava-o e tornava a puxar-lhe o lustre. Era um ritual quase diário.
António Joaquim estava sentado junto à lareira e olhava fixamente para a sua filha, Kátia Banessa, que se encontrava no sofá a ler um livro de quadradinhos com o Nero a descansar aos seus pés. Tinha abandonado o emprego à quatro anos atrás e raramente ausentava-se de casa. Havia algo naquela menina que o hipnotizava. Eram aqueles grandes e brilhantes olhos azuis. Uns olhos azuis tão claros como o céu aberto e tão profundos como o mar calmo. Joaquim quase não se mexia, limitava-se a olhar fixamente para a menina. Kátia Banessa levantou os olhos e sorriu para o pai. Um sorriso puro e inocente como só uma criança o pode fazer.
III
Maria Josefina tinha acabado de pôr a comida na mesa, Kátia Banessa comia calmamente a sua sopa e António Joaquim, sentado no canto da mesa, apreciava lentamente este cenário. Olhou distraidamente para Josefina, lá estava ela novamente a endireitar o prato de barro, já quase não falava com ele, aliás, desde que aquele prato se tinha rachado uns anos atrás que ela nunca mais foi a mesma para com ele. Suspirou e volveu o olhar para a menina, paralisando de repente como se tivesse sido hipnotizado, ficando a colher da sopa a meio caminho entre o prato e a boca, gotejando lentamente.
Kátia Banessa continuava a sorver lentamente a sua sopa, mas aqueles olhos azuis… aquele azul contrastava com o castanho da sopa, de tal maneira que parecia um acto de magia. Uns olhos azuis tão claros como o céu aberto e tão profundos como o mar calmo.
IV
António Joaquim estava de frente para o espelho e examinava atentamente as suas feições. Passava a mão pela cara e pelo cabelo, aproximando-se de vez em quando do espelho como se quisesse ver para além dos olhos.
Procurava algo, alguma explicação. Havia algo de errado, algo de estranho, algo de mágico, algo de inexplicável. Desde que aquele prato se tinha rachado aquela casa nunca mais fora a mesma, Josefina nunca mais foi a mesma. E aquela menina? Aquele pequeno anjo que raramente abria a boca, mas que enchia qualquer lugar com a sua simples presença. António Joaquim nunca mais foi o mesmo desde que aquela menina nasceu.
V
Kátia Banessa brincava cá fora com o Nero, simulava que lhe atirava a bola, enervando o cachorro que saltava, ladrava e resmungava com toda aquela brincadeira, mas quando ela soltou finalmente a bola, o cão saiu disparado como uma bala, galgando pelo jardim fora.
Maria Josefina encontrava-se à janela da cozinha a limpar o famoso prato de barro. Virava-o e revirava-o, suspirando de quando a quando.
António Joaquim estava sentado na mesa do jardim, olhava fixamente para Kátia Banessa, o cigarro queimava-se na sua mão imóvel, a cinza ia caindo em pequenas parcelas sobre a mesa. Aqueles olhos azuis, tão claros como o céu aberto e tão profundos como o mar calmo, hipnotizavam-no. Hipnotizavam-no desde o primeiro dia em que os viu. Tinham passado uns meses largos desde que o prato se tinha rachado quando Kátia Banessa nasceu, a sua relação com Josefina era estranha mas estável e estavam ambos ansiosos com o facto de irem ser pais, mas quando a bebé começou a abrir os olhos e mostrou todo aquele azul reluzente, o casal ficou surpreendido. António Joaquim ainda pensou ao início que se tinha dado um milagre e que deus lhe tinha enviado um anjo para a sua guarda. Maria Josefina ficou assustada e desde esse dia tornou-se uma mulher cabisbaixa, mal dirigia a palavra a António Joaquim e passava o tempo todo agarrada àquele prato, suspirando.
Com o passar do tempo a ideia do milagre tornava-se cada vez mais idiota na cabeça de António Joaquim e a imagem de anjo da menina tornava-se cada vez mais numa imagem de demónio. Quatro anos depois abandonou o seu emprego.
VI
O prato de barro encontrava-se no chão dividido em duas partes no meio das batatas fritas que se tinham espalhado pelo chão. Kátia Banessa olhava tristemente para o pai, com o prato aos seus pés. António Joaquim olhava para o chão, incrédulo. O prato preferido de Josefina estava partido! Maria Josefina apareceu de repente, sem ninguém dar conta e, quando se deparou com o prato partido, as lágrimas quase lhe saltaram aos olhos, olhou para a sua filha e passou-lhe a mão pela cabeça. Kátia Banessa olhava para ela quase a soluçar, aqueles olhos azuis tornaram-se num símbolo de piedade. Josefina baixou-se rapidamente e apanhou as duas partes do prato, levantou-se tentando juntar as partes e dirigiu-se para a porta sem tirar os olhos do prato. António Joaquim puxou Kátia para a sua beira e esta agarrou-se fortemente a uma das suas pernas. Era a primeira vez que Joaquim a abraçava e soube-lhe bem.
VII
António Joaquim estava novamente sentado no jardim a fumar um cigarro quando a campainha tocou. Quem seria àquela hora, pensava enquanto se dirigia à porta, já não se lembrava da última vez que tinha ouvido a campainha a tocar. Abriu a porta e do outro lado estava um rapaz que lhe estendia um prato de barro. Era o restaurador que trazia o prato arranjado. António Joaquim olhou atentamente para o prato, era um trabalho de restauro perfeito, não se via nenhuma racha, nenhuma folga, nenhum indício que aquele prato se tinha partido. Olhava admirado para tal obra de arte, Maria Josefina iria ficar contente com aquele trabalho, pode ser que a voltasse a ver sorrir.
Joaquim voltou-se para agradecer ao restaurador, quando, de repente, o seu rosto fica visivelmente transtornado. O grande prato de barro estilhaçou-se ruidosamente no chão em mil e um pedaços, o corpo de António Joaquim tremia compulsivamente, a cabeça transpirava pequenas cascatas de água, os olhos transportavam o horror, o seu rosto ganhou contornos cadavéricos. Os olhos…. Aqueles olhos… Os olhos do restaurador eram azuis. Uns olhos azuis tão claros como o céu aberto e tão profundos como o mar calmo.
março 27, 2006
Aqui não há inocentes!
Acabei por gostar do resultado final e por isso publico-o aqui também, até porque é muito raro eu escrever criticas de cinema, apesar de ser uma das minhas grandes paixões.
Há já muito tempo que não via um filme tão bom como o Crash e devo admitir que dei pulos de alegria quando soube que este tinha ganho o Óscar® de melhor filme. Raros são os filmes que me deixam a pensar e ficam a remoer durante bastante tempo.
Crash é um filme intenso com uma enorme carga dramática, mas sem ser demasiado lamechas ou profundamente intelectual. Podemos dizer que a carga dramática está no ponto. Conta com o apoio de um excelente elenco (Sandra Bullock forever!!) que por sua vez é superado por um fantástico e suberbo Matt Dillon, que, permitam-me a expressão, "Puta que o Pariu!!!" (Não é que o Philip Seymour Hoffman não merecesse o Óscar®, muito pelo contrário! Só que Matt Dillon não lhe fica atrás...)
Crash trata de um tema tão emergente e perigoso como a xenofobia numa cidade sob tensão que é Los Angeles (Não podemos esquecer o caso de Rodney King em 1992).
Com o passar do filme começei a ficar com a sensação de que a xenofobia só existe porque nós a permitimos. Com os nossos medos, as nossas fobias, os estéreotipos e os falsos preconceitos que nos são incutidos deste muito novos. Temos tendencia logo à partir de tirar juizos de valor das pessoas, muitas vezes nem sempre são correctos e se olhamos para uma pessoa e a julgamos uma marginal e essa pessoa está inocente, então o culpado somos nós! Assim seremos nós os xenófobos e a pior xenofobia é a inconsciente (e a inconsequente...)! Sim, é verdade! Todos nós somos xenófobos, conscientes ou não... Estamos sempre a pensar no nosso prórpio umbigo, sentados no nosso sofá, a ver a nossa televisão, na nossa casa que sempre que encontramos alguém que não tenha essa sorte a descriminamos, desprezamos ou, ainda pior, gozamos com a situação dela, sem pensarmos nos sentimentos, nos problemas e na dor que essa pessoa pode estar a sentir. Depois quando essa pessoa se farta e vira-se para nós, leva tudo à frente, culpados e inocentes, nessa altura nós chamos-lhe xenófoba ou doida ou seja lá o que for... Mas quem começou fomos nós! (Volto a lembrar o caso de Rodney King...)
Crash passa-se em Los Angeles, mas podia passar-se em qualquer outro lugar. Os medos e os preconceitos lá latentes estão em qualquer parte do mundo e é bom que, de vez emquando, apareçam filmes assim para nos chamar de volta para a realidade e para, de vez em quando, olharmos para nós próprios e perceber que neste mundo todos somos culpados. Se não é pelo que fazemos, é pelo que não fazemos.
janeiro 07, 2005
Barks
Morbid vivia, basicamente, do turismo e da pesca. Durante o verão ocupavam-se em alugar casas, montar barracas de comes e bebes, animações e tudo o que pudesse interessar aos turistas. No resto do ano pescavam e tratavam das suas pequenas hortas, não só para ocuparem o tempo, mas também para terem alguma comida, pois o dinheiro que a vila ganhava no Verão dava-lhes subsistência suficiente para o resto do ano.
Madame Delacroix era um travesti, uma daquelas personagens que toda a vila conhecia. Ninguém gostava muito dela, era uma pessoa má e mesquinha, que estava sempre a meter-se na vida dos outros. Trabalhava à noite num bar de travestis e raramente era vista durante a luz do dia, tirando algumas vezes que aparecia na janela de sua casa. Vivia num belo edifício mesmo em frente ao castelo, no centro costeiro da vila. Sabia tudo sobre todos, sabia os segredos mais secretos da vila e à custa disso já tinha “queimado” muito boa gente de Morbid.
Mas Madame Delacroix não era a única personagem estranha na vila, havia uma outra personagem ainda mais estranha, muito mais enigmática e de quem muitas pessoas tinham medo: Robert Barks. Ninguém sabia onde Barks trabalhava, nem sequer o que fazia, mas sabia-se que vivia sozinho, saía de casa todos os dias às onze horas da manhã, passava pela tabacaria, comprava o jornal e um maço de tabaco, entrava no café “Royal Break”, tomava o seu café e lia o jornal. Isto tudo num espaço de 30 minutos exactos. Às onze e meia abandonava o café em direcção ao seu carro e às onze horas e cinquenta e dois minutos exactos passava a portagem de Morbid em direcção a Nowhere City. Não se sabia mais nada a respeito de Barks, a não ser que chegava todos os dias às sete da tarde, entrava em casa e só voltaria a sair às dez da noite para dar um passeio perto do castelo. Normalmente regressava a casa por volta das onze menos um quarto, o tempo de dar a volta ao castelo, olhar o horizonte e fumar dois cigarros. Sim, Barks era de uma exactidão horária tal, que Nicholas, seu vizinho, acertava os seus relógios por ele. Às vezes demorava um pouco mais, sentava-se num banco perto do castelo a pensar e a fumar mais um cigarro, regressando a casa às onze horas e doze minutos exactos.
Poucas pessoas cruzavam-se com Barks nessa altura. Madame Delacroix era uma delas, costumava sair de casa por volta das onze horas e às vezes ainda apanhava Barks, quando este resolvia dar um passeio mais longo.
“Sempre com o seu andar vagaroso, pensativo, mas com um olhar tenebroso, sempre que olha para mim arrepio-me. Aquele homem mete medo. Ninguém sabe o que ele faz, nem quem ele é. Acreditem em mim, não se metam com ele, é uma pessoa perigosa!” dizia Madame Delacroix às pessoas, que raramente lhe davam ouvidos, mas todas concordavam que Barks era uma pessoa estranha.
Barks também não gostava de Madame Delacroix. Achava-a asquerosa, mesquinha e intrometida. O facto de ela estar sempre a meter-se na vida dos outros era, para ele, repugnante. Por isso, sempre que se cruzava com ela, lançava-lhe um olhar aterrador e divertia-se imenso, sem o demonstrar, quando ela reparava no seu olhar e começava a tremer. Gostaria de pensar que Barks dava, às vezes, o seu passeio mais longo, só para se cruzar com Madame Delacroix e lhe deitar os seus olhos de fogo e com isso regressar mais alegre a casa.
Então, pela primeira vez em Morbid, aconteceu algo de inacreditável. Barks quebrou toda a sua rotina e regressou rapidamente a casa, recolheu os restos de arroz que haviam sobrado do seu jantar e voltou para o castelo.
Ainda estava Nicholas a perguntar-se o porquê desta mudança súbdita e a pensar como é que haveria de acertar os seus relógios se Barks começasse a mudar de hábitos, quando este volta a sair de casa, desta vez com um saco de comida, dirigindo-se rapidamente para o castelo. “Isto é muito estranho! Isto não me agrada nada! Um dia de temporal, noite de lua cheia! Isto não me agrada nada!” Fechou as janelas a correr e voltou-se a sentar no sofá, rezando para que não se passasse nada.
Barks parou e ficou a olhar fixamente para Madame Delacroix. O seu primeiro instinto foi pegar nas coisas e seguir caminho. Aquela vaca não precisava de saber o que ele ia ali fazer, pensara ele. Conteve-se, virou costas e forneceu a comida aos cães que, num ápice de gula, fome e contentamento correram em sua direcção, devorando cobiçosamente o regalo dos deuses. Barks sorriu. Era raro sorrir, salvo quando fazia cara feia a Madame Delacroix, coisa que lhe dava um enorme prazer. Acendeu um cigarro e olhou novamente para o prédio de Madame Delacroix. Ela continuava ali a olhar fixamente para ele, parecia que nem se tinha movido, estava precisamente na mesma posição e com o mesmo olhar. Barks torceu o nariz, aquela mulher não era de confiança, mas não lhe podia mostrar apreensão, isso seria a glória de Madame Delacroix. Olhou para o relógio e reparou que já eram quase onze horas, só tinha mais doze minutos para o seu passeio. Com um aceno suave e um sorriso amarelo de orelha a orelha despediu-se de Madame Delacroix, a qual também não fraquejou e ficou rigorosamente na mesma posição, sem qualquer reacção. Parecia uma morta, pensou Barks enquanto retomava a sua rota habitual. Sentou-se um pouco no banco para apreciar o horizonte enquanto fumava mais um cigarro.


