Ao
Tópor aturar estes devaneios
e cuja paciência não tem limites
- Gostas de Picha? - perguntou ela à amiga com olhos de cachorrinho.
Entalei-me imediatamente com a salsicha que estava a comer com alguma volúpia. Não é que achasse a tema de conversa interessante, mas assim de repente, vindo do nada, ainda para mais estando a comer salsichas, parecia-me um pouco inadequado para um almoço informal.
- Picha? - retorqui, enquanto me debatia para tentar empurrar o maldito pedaço de salsicha pelo esófago abaixo.
- Sim. - respondeu ela, inocentemente - O Ursinho Picha. Deves-te lembrar dele. Faz parte da nossa infância.
Olhei seriamente para ela para ver se não estaria a gozar comigo. Os olhos pareciam-me sinceros.
- Acho que o urso se chamava Micha. - disse-lhe enquanto tentava recuperar o fôlego. - E se não me engano era comunista, sabes? Rússia. 1980. Tás a ver?
- Ah! Talvez fosse isso. - respondeu, um pouco desiludida. - Eu gostava muito.
Pausa. A conversa parou por breves momentos. O suficiente para eu recuperar a respiração e voltar a atacar alegremente a malfadada salsicha.
- E de Tao Tao? Gostas? - perguntou-me directamente.
A maldita salsicha voltou a entalar-se. Tentei beber a Coca-Cola sofregamente para empurrar a comida, mas a maldita entrou-me para o goto. Numa tentativa vã de tossir, subiu-me o gás para o nariz, fazendo-me novamente perder a respiração. Tossi e espirrei compulsivamente num tal estardalhaço que não tardou muito para as pessoas que se encontravam no café olharem todas para mim.
- Desculpa? - perguntei-lhe mal consegui recuperar a respiração.
- Tao Tao. - respondeu novamente com olhos de cachorrinho. - O ursinho panda muito querido. Era uma banda desenhada japonesa.
Nem sei muito bem como, mas acabei por lhe atirar com o resto da salsicha à cara, num misto de fúria e frustração.
Depois desse dia, jurei que nunca mais comia nada com forma fálica sempre que fosse almoçar com raparigas.